Personalização e literatura: Direto ao ponto e ao detalhe

Na literatura, o nível de detalhamento de cenas, situações e emoções é diferente de autor para autor e de obra para obra – cada um atrai um perfil ou outro de leitor, com suas preferências próprias. Na escola acontece o mesmo: há níveis de detalhamento diferentes para cada ator da comunidade escolar. Logo, a personalização na aprendizagem e na comunicação é essencial.

Minha formação é em Letras e meu mestrado foi em Literatura. Não é surpresa: gosto muito de ler. Com as leituras, fui descobrindo como os livros dão atenções diferentes aos detalhes e fui entendendo que cada estilo tem seu valor, a depender de diversos aspectos, inclusive à qualidade. Quando digo “qualidade” estou falando apenas e tão somente em aspectos de opinião e gosto mesmo, afinal o que eu não gosto pode ser o livro preferido de outra pessoa e vice-versa, embora ambos tenham suas qualidades.

Foi nessas leituras que descobri, por exemplo, um José de Alencar, que passa três parágrafos descrevendo o vestido da Aurélia, em Senhora; descobri também um Oswald de Andrade, que, em Memórias sentimentais de João Miramar, no capítulo 75, chamado “Natal”, apresenta o conteúdo inteiro do capítulo assim:

“Minha sogra ficou avó.”

Percebe a diferença? O primeiro descreve até “um chambre de fustão que briga com as mimosas chinelas de chamalote bordadas a matiz” (seja lá o que isso signifique); enquanto o outro resume meses da vida da família inteira em apenas 5 palavras. Aí, eu deixo a pergunta para a reflexão: qual dos dois é melhor para você? Um quer que você visualize exatamente o que está na cabeça do autor; o outro quer deixar você imaginar todo um período da vida das personagens. Na minha opinião profissional, ambos têm valor, a depender da época, do estilo, da intencionalidade etc. Na minha opinião pessoal, eu tenho o meu gosto e minha preferência, mas prefiro deixá-la só para mim, e manter você na curiosidade (ou não).

Detalhes são questão de gosto

Há pessoas que preferem que a gente vá direto ao ponto e há quem prefira saber até a cor do musgo da pata da formiga que estava na situação. Quando se trata da relação com pessoas na escola e/ou da necessidade de orientação, existe certa necessidade de encontrar um equilíbrio entre os dois estilos, e é sobre isso que gostaríamos de discorrer um pouco.

1) O detalhe do detalhe no detalhe

Um autor já disse que quando você estiver se cansando de falar, significa que as pessoas estão começando a ouvir. Há certos assuntos que merecem ser repetidos inúmeras vezes, como valores da escola, proposta pedagógica, normas gerais, incentivo ao processo de aprendizagem.

2) A objetividade

Há informações que bastam ser ditas uma única vez e da maneira mais breve possível, como esta.

Na gestão, é indispensável encontrar o equilíbrio entre os dois estilos, seja por conta da importância da informação, seja por conta do estilo da pessoa que está ouvindo. Na escola, pensar que todas as personas devem ser tratadas da mesma forma é tudo o que não queremos apregoar, pois acreditamos que cada estudante aprende de um jeito, cada docente tem seu estilo de ensinar, cada coordenação acompanha no seu estilo etc. A reflexão gira muito mais em torno da adequação do discurso para cada situação e pessoa.

A importância de diferenciar perfis na comunidade escolar

No trabalho de liderança que a gestão tem com alguns colaboradores da escola, saber diferenciar os perfis pode fazer toda a diferença, inclusive para saber quem precisa de mais tempo de atenção, seja por que motivo for, e quem pode ter menos tempo dedicado, até mesmo para poder dedicar-se a outra atividade. Coletivamente, a repetição e a falta de objetividade parece fazer mais sentido, pois quem já sabe tem reforços, e quem não sabe passa a saber. No individual, a maleabilidade se faz necessária.

Se entendemos a personalização no ato de ensinar como algo benéfico, se queremos que cada estudante seja tratado(a) como único(a), por que não fazer o mesmo com colaboradores e colaboradoras da escola? Gestão de pessoas também engloba o processo de ensino-aprendizagem e qual o lugar melhor para ensinar e aprender do que a escola? A responsabilidade cresce sobre a gestão, mas o prazer de ensinar, adequando-se a cada estilo de cada aprendente, permanece presente.

No fim das contas, pode haver vantagens em apresentar mais ou menos detalhes, a depender do seu prazer na ação. Da mesma forma que eu encontrei maneiras de me adequar a José de Alencar e Oswald de Andrade, como gestor também consegui encontrar maneiras de sentir prazer em acompanhar e ensinar com níveis diferentes de detalhamento. Apesar de não ser uma tarefa fácil, vai fazer mais sentido para quem a gente acompanha, ou seja, as pessoas que são realmente o foco do processo.

* Érick Nascimento é Gerente editorial do Geekie One, formado em Letras pela UFC e tem mestrado em Literatura Comparada pela mesma instituição. Após anos de experiência na sala de aula, na qual atuou desde o Ensino Infantil até o Ensino Superior, tornou-se coordenador pedagógico-editorial em um sistema de ensino. 

Leia mais:

Compartilhe
Compartilhar no facebook
Compartilhar no twitter
Compartilhar no linkedin
Compartilhar no pinterest
Bitnami