Temer e ter medo: “Lá vem o diretor!”

Quando criança, respeitava os professores a ponto de ser considerado o nerd da turma, mas quando o diretor ou a diretora entrava na sala, o medo se instalava. Nesta crônica reflito o que poderia ter sido diferente levando em conta minha posição atual de líder na Geekie

Durante todo o meu Ensino Fundamental (na minha época, chamava-se 1º grau), eu fui um puxa-saco. Em certa medida, isso me envergonha hoje em dia, mas é a verdade, e eu não vou me esconder de quem eu era. Eu sentava na primeira fila (a dita fila do cuspe), apagava o quadro, carregava os livros das “tias” até a sala dos professores, levava mimos para elas e fazia de tudo para ser notado.

Talvez alguém lendo isso ache que eu fazia essas coisas para ganhar notas, pontos ou conseguir chorar no conselho de classe, mas não: eu era esforçado, sempre tirei boas notas, nunca fui para recuperação e era sempre considerado o nerd da sala. Eu fazia tudo isso simplesmente porque eu tinha (e ainda tenho) respeito e admiração pela figura docente. Se eu recebia uma nota não tão alta, jamais questionaria se a correção dela foi feita com desleixo, afinal de contas minhas professoras e professores nunca erravam. Eu tinha bastante temor por todos eles.

Eventualmente, a gente recebia na sala a presença do diretor ou da diretora para dar algum aviso, informar de alguma atividade ou mesmo para ver como estava a turma. Sempre achei curioso como o silêncio era imediato. Todo mundo da sala se ajeitava na cadeira, ficava quieto e prestando atenção, sem sequer piscar. Eu me comportava exatamente assim também, não porque eu tinha temor pela figura diretiva, mas porque eu tinha medo, e talvez essa fosse a sensação coletiva.

Como líder na Geekie, aprendo dia a dia que uma boa relação com os colaboradores e colaboradoras do meu time se faz com confiança, respeito e autoridade. A linha entre isso e o autoritarismo é muito, muito tênue. Alertar que uma pessoa está atrasada para uma reunião, por exemplo, pode ser feito de maneira super educada a ponto de a pessoa aprender e entender que está errada ou de modo tão incisivo que a pessoa pode pedir para mudar de setor ou mesmo de empresa. Não quero ser um chefe; quero ser um líder. Se burocraticamente eu sou o chefe, espero que a relação estabelecida e desenvolvida com essas pessoas não se limite a ordem e cumprimento. Mas eu lidero poucas pessoas, se comparada à quantidade de estudantes em uma escola.

O medo de figuras de autoridade

Quando faço a ponte para a minha época escolar, lembro com ternura de tantas tias que me ensinaram e educaram, de tantos professores que me demonstraram na prática que têm capacidade de dominar a atenção de dezenas de adolescentes por horas; foram líderes que desde cedo me mostraram diversos estilos de guiar um conjunto de pessoas em torno de um objetivo comum. É exatamente por isso que acho tão triste que as experiências que tive com os diretores e diretoras das 10 escolas onde estudei não terem sido similares, porque eu tinha medo.

A segunda definição de “temor” no Dicionário Houaiss é “sentimento de profundo respeito e obediência”. Eis o que eu sentia por meus professores. Não é medo. Eu sabia que, se qualquer um deles ou delas me alertasse sobre um erro, era para o meu próprio bem. Não era essa a sensação que eu tinha com qualquer diretor ou diretora que tive. Triste, não é?

Hoje, bem mais velho e olhando para trás, tenho certeza de que eu não deveria ter medo dessas figuras de autoridade, não só porque não fariam nada contra mim, mas também e principalmente porque se tratam de educadores, que, da mesma forma, desejavam minha evolução como aluno e como ser humano. Gosto de acreditar que sentiriam orgulho de ver que um ex estudante da sua escola se deu bem na vida (para usar um jargão popular). O problema é que não consigo pensar em nenhum deles ou delas com a mesma ternura que sinto ao pensar em meus professores e professoras. 

Eu gostaria que a relação tivesse sido diferente, mas sei que, à época, não dependia de mim. Não é que eu quisesse ser um puxa saco do diretor também ou quisesse ser reconhecido em meio às centenas de estudantes no meio do pátio: eu só queria não ter medo.

E se a postura do diretor ou da diretora fosse diferente?

Será que as coisas poderiam ter sido diferentes? E se eu tivesse conhecido esse diretor ou diretora antes de me matricular? E se ele ou ela tivesse ido a minha sala mais vezes? E se eu tivesse tido uma aula especial com algum? E se a escola tivesse uma forma de eu mandar sugestões para a direção? E se houvesse assembleias em que a classe discente pudesse levar suas queixas? E se uma das minhas diretoras tivesse sido uma das minhas professoras? E se eu visse qualquer um passeando pelo pátio mais vezes? E se eu os visse comendo na cantina? E se eu os visse na biblioteca, ou no laboratório, ou na porta na hora da saída? E se eu houvesse uma agenda dedicada a somente atender estudantes? E se o escritório da direção tivesse uma porta aberta? E se…

Minha função na Geekie me proporciona, às vezes, interagir com diretores e diretoras de escolas. Alguns parecem ter cara de mau, o que me faz lembrar dos que tive, mas muitos (e que bom que são a maioria) são professores como os que eu tive, como o que fui. Consigo olhar para eles com admiração e respeito. Mas me pergunto: será que os estudantes da escola que dirigem conseguem fazer isso também?

O convite que faço nesse texto não é para que diretores e diretoras modifiquem radicalmente sua postura junto aos estudantes, mas que reflitam se estão construindo uma relação que fará com que esses jovens e adolescentes lembrem-se deles com ternura e saudade. Às vezes, uma pequena atitude vai fazer essa diferença. Talvez assim o diretor deixe de ser visto como um carrasco e passe a ser visto como um exemplo; ou a diretora deixe de ser vista como uma administradora e passe a ser vista como educadora. Em suma, espero que deixem de ser vistos como alguém que mete medo e passem a ser admirados com temor.

* Érick Nascimento é Gerente editorial do Geekie One, formado em Letras pela UFC e tem mestrado em Literatura Comparada pela mesma instituição. Após anos de experiência na sala de aula, na qual atuou desde o Ensino Infantil até o Ensino Superior, tornou-se coordenador pedagógico-editorial em um sistema de ensino. 

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