Socioemocional: conceitos e avaliação no último dia da Bett Educar 2019

Maria Inês Fini, fundadora da Faculdade de Educação da Unicamp, disse, de maneira enfática: “A menina dos olhos da escola não pode ser a avaliação”. Ela debateu como é possível avaliar as competências à luz da Base Nacional Comum Curricular (BNCC). Outra palestra, com Lilian Barbosa, abordou conceitos e aspectos socioemocionais.

Duas palestras do último dia da Bett Educar 2019 debateram as competências socioemocionais e como será possível avaliá-las no contexto da Base Nacional Comum Curricular (BNCC). O primeiro tema foi discutido pela consultora em gestão educacional da Leverage Edu, Lilian Regina Neves Barbosa. Já as questões relacionadas à avaliação de competências pela BNCC foi o tema da palestra da fundadora da Faculdade de Educação da Unicamp, Maria Inês Fini.

Formação integral, personalidade e aspectos socioemocionais

Na primeira fala do dia, Lilian Regina Neves Barbosa, docente de Ensino Superior e consultora da Leverage Edu Consultoria, lançou um olhar para as “Competências socioemocionais: a formação da ética e da emoção”, tema da palestra. Para fazer sua explanação, Barbosa apresentou outras abordagens relacionadas ao tema: competências socioemocionais, desenvolvimento integral, fatores de personalidade, formação ética, competências socioculturais do século XXI, resultado acadêmico, progresso social e legislação (BNCC). Segundo ela, essas oito categorias de análise e ação permitem um trabalho integral com as competências socioemocionais.

Ao começar as explicações em torno dessas categorias, a consultora esclareceu que “competências são saberes em ação”. Logo, educar tendo elas como objetivo exige a “mobilização do saber, o conteúdo aplicado e mobilizado”, reforçou Barbosa. Neste sentido, o trabalho com essas competências em sala de aula deve partir das áreas de conhecimento e os componentes curriculares para organização do conteúdo escolar. Em seguida, cada competência precisa de seu conceito, a habilidade e as atitudes relacionadas para determinar, para cada um desses desdobramentos, um objetivo de formação, seu descritivo próprio e, por fim, como será feita a oferta e a recursividade escolhida.

Todo este trabalho está focado na formação integral do e da estudante. Este propósito está na BNCC e a forma como as escolas aplicarão as diretrizes em sua rotina deve considerar o ser humano como um composto de elementos cognitivos, socioemocionais, corporais e transcendentes a seu ser. A visão holística do indivíduo da consultora considera ainda que ele é bio-cultural: “Nascemos com carga genética e somos modelados ao longo do tempo. Estamos sempre em desenvolvimento”, comentou a educadora.

Como o socioemocional é um dos componentes do ser, a consultora abordou este aspecto a partir dos fatores de personalidade. Para tanto, Barbosa apresentou uma das teorias mais conhecidas da área, o “Big Five” (grandes cinco ou cinco principais, em tradução direta do inglês). Traços comuns sobre temperamento e caráter são classificados em cinco grandes grupos: extroversão, abertura às experiências, consciência, estabilidade emocional e sociabilidade. A organização dessas características dos indivíduos foi apresentada pela educadora para ressaltar que elas podem ser desenvolvidas durante a educação básica e ao longo da vida.

A exposição foi complementada com o debate sobre a formação ética do estudante. Segundo a palestrante, “ética são as virtudes morais. É fazer e promover o bem de maneira universal e pensar antes de agir, refletir e fazer isso continuamente gerando hábitos bons”. Ela também complementa que a ética é um processo constante no qual o indivíduo reflete, toma uma ação moral e reflete mais uma vez sobre essa ação.

Já sobre as contingências socioemocionais, Barbosa fez referência às competências do século XXI apontadas pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD): “Para que os jovens sejam bem sucedidos na vida contemporânea e no século XXI, ele precisa pensar criticamente, resolver problemas, agir colaborativamente, ter flexibilidade e habilidades interculturais”. Todos esses pontos ainda consideram: o interesse de educadores e educadoras na melhora dos resultados acadêmicos e o progresso social proveniente da educação. “Um país que trabalha bem as emoções, os relacionamentos, o pensamento crítico e outros valores e competências, vai ter progresso social.”

“A menina dos olhos da escola não pode ser a avaliação”

Maria Inês Fini, fundadora da Faculdade de Educação da Unicamp e ex-presidente do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (INEP), apresentou a palestra “Avaliações por competências no contexto da BNCC”. Ela iniciou sua fala ressaltando o trabalho empreendido na elaboração do documento normativo: “Ela [a Base] é um esforço de organizar, para a educação brasileira, uma referência que pudesse ser única, de garantia dos direitos de aprendizagem; que ela pudesse garantir também a equidade de tal forma que crianças e jovens do Brasil tivessem o direito de ascender a um mínimo de competências e habilidades estabelecidas pela Base Nacional Comum Curricular.”

Ainda na explanação sobre a base, Maria Inês ressaltou que o documento estabelece que a educação básica é formada pelos três ciclos de formação: Educação Infantil e Ensinos Fundamental e Médio. Ela lembra que o Fundeb (Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica e de Valorização dos Profissionais da Educação) considerava apenas os anos do fundamental como Educação Básica para a formação de um indivíduo.

Outro ponto destacado foi o fato de a base articular os componentes curriculares em áreas de conhecimento:

“O que ela propõe é o retorno à perspectiva da integração entre as áreas de conhecimento. Se nós observarmos, os objetos de conhecimento são todos multidisciplinares: existe geografia na história, matemática na física… Então a proposta é que a gente rompa as barreiras da disciplina e que possamos organizar nosso trabalho de ensino tendo em vista uma totalidade. Essa integração primária que passa pelo desafio de juntar os professores e propor o desafio de organização compartilhada. É preciso promover um diálogo interdisciplinar”, explicou Maria Inês e convidou os responsáveis pela gestão e coordenação das escolas presentes a fazerem esse exercício.

Sobre a inserção de competências socioemocionais, a educadora comentou que a base muda a lógica da educação e propõe uma metodologia que envolva o aluno e o desenvolva integralmente. Ela ainda complementa:

“Para haver aprendizagem, é fundamental que haja o preenchimento de quatro questões: o conteúdo precisa ter sentido para o estudante, ele precisa compreender o que vai aprender, a natureza do conceito que o docente está passando para ele; depois ele precisa encaixar isso com o que ele sabia antes; depois precisa haver o desenvolvimento de uma emoção, ela é inerente ao ato de aprendizagem. Não há um cabide na sala de aula onde ele pendura a emoção. O último critério é a utilização, para quê ele vai usar aquele conhecimento. É preciso vincular, contextualizar e utilizar o conhecimento.”

O desenvolvimento dessas competências socioemocionais, no entanto, não deve ser feito como uma disciplina desconexa do currículo da escola. O caminho, segundo Maria Inês, é incorporar essas aprendizagens em todas as disciplinas e as metodologias ativas são boas estratégias para o estudante consolidar esses aprendizados sociais e emocionais.

Os estudantes aprendem apesar da escola e eles não são tábulas rasas. Você vai ter alunos que têm uma tradição de cultura, de família e de hábitos que precisam ser orientados. Outro aluno que convive com ele, tem que compreender a conviver. Essa relação entre os alunos é que vai nos permitir o desenvolvimento das habilidades socioemocionais.”

Já no que concerne à avaliação, a educadora abordou que os componentes curriculares claros da BNCC possibilitam a construção de referências de avaliação para apoiar o trabalho do professor e da professora.

“Quando se associa um objeto de conhecimento a um processo cognitivo, o resultado é uma habilidade. O fato de nossa base estar inteirinha referida às competências e habilidades, dá para nós uma chance de tornarmos mais claras as referências da avaliação. Porque no bojo daquilo que está sendo avaliado, o documento diz para o sistema que era aquilo que deveria ser ensinado. Então de maneira muito mais clara, nós vamos poder fazer a vinculação entre aquilo que se ensina e aquilo que vamos avaliar.”

Outro ponto que Maria Inês deu muita ênfase foi no papel da avaliação na escola:

“Essa articulação entre a base e a avaliação, vai nos ajudar a implementar a base. Embora, a gente precisa ter muita consciência de que a avaliação não é o currículo. A menina dos olhos da escola não pode ser a avaliação, ela tem que ser o currículo. A avaliação sozinha que não remete, com seus resultados, a análise do que não foi implementado do currículo, não vale nada. A avaliação tem que estar vinculada a um currículo e seus resultados deve remeter, como um juízo de valor, ao quanto aquele currículo foi desenvolvido e quanto ainda falta como direito do aluno de aprender.”

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