Escola do SESI em Limeira é modelo em personalização e inovação para toda a rede

Nesta entrevista, Aline Ohnuki, que participará da Bett Educar 2019, com o tema personalização de ensino, fala sobre a unidade que foi aberta em 2017 com proposta diferenciada: não há fragmentação de disciplinas, nem divisão por séries. O modelo une traços mundiais de inovação e envolve a família de estudantes no processo de aprendizagem

Em Limeira, no interior de São Paulo, a escola SESI João e Belinha Ometto é uma unidade de referência para o que a rede paulista do Serviço Social da Indústria considera inovação e personalização. Ali, desde o começo de 2017 as crianças dos anos iniciais do Ensino Fundamental não aprendem por meio de disciplinas fragmentadas e salas de aula quadradas e fechadas. Também não há séries ou anos: cada criança aprende o que realmente precisa a partir do olhar atento e preparado dos professores e das professoras sobre as habilidades e necessidades de cada estudante.

Aline Scravoni Costacurta Ohnuki, analista técnica educacional da Gerência Executiva de Educação do SESI-SP, foi uma das autoras da proposta de inovação para a escola limeirense. Segundo ela, o projeto uniu diversos traços de inovação que já existiam pelo mundo e foram adaptados para a realidade da educação brasileira. Como uma escola-modelo, a unidade SESI João e Belinha Ometto agora serve de referência para outros projetos de inovação que serão disseminados para toda a rede.

Em entrevista exclusiva ao InfoGeekie, Aline Ohnuki conta um pouco sobre a visão de personalização adotada pelo SESI na escola limeirense e conta como se deu o trabalho com familiares e docentes na implantação desse projeto. A analista irá participar da Bett Educar 2019 e fará parte da palestra “Personalização na prática: experiências de aprendizagem em diferentes contextos”, em companhia de Lilian Bacich, referência no Brasil em ensino híbrido, e Michelle Pinheiro, do Colégio Beka.

InfoGeekie: Qual é o papel da personalização da aprendizagem do SESI-SP?

Aline Ohnuki: Na escola-modelo de Limeira, os alunos ficam organizados por estágios de aprendizagem com grupos multietários. Alunos e alunas se agrupam e participam de estações que consideram as habilidades, os conhecimentos, os interesses, os talentos, as limitações e as emoções de cada estudante. Nesse contexto é a personalização que permite organizar os alunos, seja por estações, à luz de um ensino híbrido, ou com foco em alguma necessidade específica deles. Então, esses alunos nem sempre fazem as atividades com a mesma turma.

Uma coisa extremamente importante é que os professores têm um planejamento diário por meio do qual é possível mapear as aprendizagens dos alunos e traçar caminhos personalizados para esses agrupamentos. Durante o planejamento, ao invés de olhar apenas para a atividade que será feita durante a semana, eles olham também para quem vai fazer aquela atividade – então, nem todos os alunos precisam passar por tudo.

Existem agrupamentos que atendem especificamente alguma dificuldade de um aluno ou de um grupo. Então, na rotina semanal da escola, são agrupados apenas os alunos que precisam avançar em algum ponto ou aqueles que já têm certo domínio e podem desenvolver outras habilidades. A organização desses alunos no estágio se dá pela personalização. Então, a escola olha tanto para as necessidades deles quanto para suas habilidades. A escola tem galpões no lugar das salas de aula; os professores têm que olhar para cada aluno do estágio, e não para um grupo que desconsidera a particularidade de cada um.

É por meio da personalização que é possível desenhar caminhos e definir experiências de aprendizagem a partir das particularidades de cada estudante.

InfoGeekie: Como foi feito o trabalho com os docentes do SESI para essa personalização da aprendizagem? Houve alguma formação específica para que professores e professoras passem a identificar dados e evidências relevantes para determinar quais são as habilidades que precisam ser desenvolvidas nos estudantes?

Ohnuki: Os professores e as professoras tiveram muitas formações e receberam acompanhamento. No primeiro semestre da implantação, a equipe fazia acompanhamento in loco e formações a cada 15 dias. Contamos também com a parceria da Lilian Bacich, que foi responsável por uma das primeiras formações de 2017 sobre ensino híbrido e personalização.

Foram feitos muitos investimentos em formação e em despertar em professores e professoras uma outra forma de olhar o processo de aprendizagem. Eu acredito que os docentes sempre tiveram ciência desses dados sobre as aprendizagens dos alunos que usamos na personalização do ensino, mas não sabiam como olhar para isso e o que fazer com essas informações. Os professores estavam acostumados a preparar as atividades para a sala como um todo, sem levar em consideração cada aluno. Hoje, o que fazemos, é chamar a atenção para isso e propor uma mudança de postura por parte dos professores frente às necessidades dos alunos.

InfoGeekie:  Qual foi a reação dos familiares dos estudantes da escola-modelo de Limeira quando o projeto de inovação foi implementado? Foi feito algum trabalho de educação desses familiares para explicar o projeto?

Ohnuki: A escola foi inaugurada em janeiro de 2017. Em dezembro, antes da abertura das inscrições, foi feita uma reunião com todos os familiares interessados em matricular seus filhos naquela unidade. A reunião foi feita em um ginásio da rede SESI com a participação de todas as analistas autoras do projeto e da gerente executiva de educação. Após a apresentação, os pais puderam fazer perguntas.

À época, a maior insegurança girou em torno do real aprendizado das crianças. Eles tinham uma insegurança quanto a isso porque a proposta diz que o ensino não é fragmentado em disciplinas, que não há uma  separação em aulas… Então, eles queriam saber se o filho iria aprender matemática. Mas eu acho que a gente conseguiu transmitir segurança e eles nos deram um voto de confiança, até pela confiança na própria instituição SESI. Para as 32 vagas abertas naquele ano, tivemos mais de 100 inscritos.

InfoGeekie: Esse projeto inovador também considera a dimensão da família? Os familiares têm algum papel mais ativo no acompanhamento e/ou desenvolvimento dos estudantes?

Ohnuki: A participação da família faz parte dessa proposta. Ela faz parte do princípio de pertencimento dessa proposta. Esse princípio tem o objetivo de despertar, com ações intencionais, o sentimento de pertencimento da criança àquele espaço, à escola e ao mundo. Também despertamos o pertencimento dos familiares com ações intencionais. Eles estão presentes e participam de diversos momentos de aprendizagem. Já tivemos avós que foram fazer receitas de família no ateliê culinário; temos os “sábados em família”, eventos nos quais as famílias podem vivenciar as situações cotidianas das crianças: quando as crianças foram construir uma horta, uma mãe agrônoma fez com os alunos e as alunas todo o planejamento da horta. Os familiares têm uma participação bem ativa, que faz parte da proposta dessa escola.

InfoGeekie: Como é feito o trabalho de identificação das necessidades e particularidades dos estudantes de Limeira?

Ohnuki: No caso do estágio de alfabetização, com crianças de 6 e 7 anos, uma possibilidade de identificar essas necessidades consiste no mapeamento das hipóteses de escrita de cada criança. A partir desse mapeamento e dessas informações, os professores fazem agrupamentos e atividades diferenciados para atender essas particularidades. Também usamos avaliações diagnósticas, pautas de observação, rubricas e algumas tecnologias. Cabe aqui ressaltar que esses instrumentos foram sendo pensados à medida que os professores visualizaram a possibilidade de um trabalho mais personalizado. No começo eles dividiam as crianças em grupos de quantidades iguais. Aos poucos, com muita formação e intervenção da equipe técnica, os professores e as professoras foram enxergando a possibilidade de agrupar essas crianças de uma forma mais personalizada e particular.

InfoGeekie: Há algum tipo de escolha por parte do aluno sobre o que ele ou ela quer desenvolver nos anos iniciais do Ensino Fundamental ou o currículo prevê que todos concluam esses anos iniciais com um leque de habilidades e competências básicas (como na BNCC)?

Ohnuki: Como o currículo está organizado em estágios, é esperado que no final de cada um deles o aluno tenha atingido uma gama de objetivos que foram elaborados a partir das competências e habilidades da BNCC. O que há de diferente aqui é que esses objetivos vão ser trabalhados para dar conta de uma inquietação, uma curiosidade ou um interesse dos alunos. A partir dos alunos é que os conteúdos a ser trabalhados vão sendo mapeados. Não há escolhas individuais. O que acontece são escolhas de opções: temos uma espécie de “cardápios” propostos pelos professores.

InfoGeekie: Conheço uma professora da rede Sesi e ela comentou que vocês estão repensando o currículo pedagógico à luz da BNCC. Como está sendo esse feito esse trabalho de transformar as diretrizes da base em um planejamento robusto de conteúdo, como vocês estão acostumados a fazer?

Ohnuki: Este é um trabalho que está sendo feito para todos os anos e séries da educação básica no SESI. O que estamos fazendo neste momento é relacionar as nossas expectativas de ensino e aprendizagem com os aspectos da BNCC para cada ano do Ensino Fundamental. Estamos fazendo adequações necessárias para que essas habilidades e competências sejam implementadas em nosso currículo. O próximo passo será reolhar para o material didático, para que ele também atenda essas modificações e necessidades da base.

O programa de inovação na escola de Limeira foi elaborado pela Supervisão de Programas Educacionais Especiais. Além de Ohnuki, também participaram da elaboração do projeto: Camila Toshie Osaki, Tabita Pereira de Araújo, Thaíla de Sousa Orlando e Juliana Prezia e Silva.

Leia mais entrevistas exclusivas do InfoGeekie:

Compartilhe
Compartilhar no facebook
Compartilhar no twitter
Compartilhar no linkedin
Compartilhar no pinterest
Bitnami