Como apoiar a aprendizagem do adulto professor após a pandemia

Para além da aceleração da inserção das tecnologias digitais na experiência escolar, a aprendizagem do adulto professor é um tema de importante reflexão para a gestão escolar. Logo, é necessário incorporar os aprendizados deste momento para a formação e a preparação do corpo docente no futuro. Confira.

O contexto da pandemia mudou o mundo e já é considerado um divisor de águas quando pensamos na Educação que aspirávamos para o século XXI. De um dia para o outro, inúmeras escolas foram fechadas seguindo as recomendações das autoridades de seus países e as aulas presenciais tiveram que ser suspensas.

Sem previsão sobre quanto tempo retomar-se-ia às aulas presenciais, seria fundamental encontrar caminhos para continuar garantindo o direito à Educação para crianças e jovens do mundo inteiro. Nesse contexto, uma forma eficiente de viabilizar esse acesso se deu por meio das Tecnologias Digitais.

Em pouco tempo as salas de aula físicas foram transformadas em espaços digitais de aprendizagem e todos, com maior ou menor dificuldade, tiveram que aprender uma nova ordem na relação ensino aprendizagem. Porém, é preciso pensar desde já sobre qual será o cenário para a Educação passada a pandemia e o legado que esse período nos deixará.

Há previsões de que a intensa e rápida aceleração da inserção das tecnologias digitais na experiência escolar terá mudado definitivamente aquilo que entendíamos sobre a escola. Professores ao redor do mundo experimentaram novos recursos, inventaram novas formas de apresentar os conteúdos aos alunos e viabilizaram que estudantes continuassem aprendendo, de outras formas, com outros métodos, com outros objetivos. Investiram intensamente na maior centralidade do estudante ao processo de aprendizagem. Uma conquista, embora há muito apregoada por aqueles que desejavam o estudante ativo na sua aprendizagem, favorecida pelo ensino remoto em tempos de distanciamento social.

Não vou contestar as diversas e novas experiências que a realidade oportunizou, mas quero propor pensarmos sobre quais aprendizagens permanecerão após voltarmos ao “normal”. Destaco aqui o normal, pois acredito realmente que caminharemos para um “novo normal”, mas é justamente esse normal repaginado que me inquieta.

A aprendizagem de professores(as)

Penso esse momento à luz da Psicologia da Educação. Por ser meu campo de estudo, tenho refletido sobre como podemos dar sustentação e longevidade à aprendizagem de tantas e novas experiências. Não basta termos vivido novas práticas se não refletirmos criticamente sobre elas. Penso que consolidamos nossa aprendizagem e incorporamos novos saberes a partir do momento que refletimos sobre eles.

Vou me apoiar em PLACCO e SOUZA (2006) para discutir a aprendizagem do adulto professor. Segundo as autoras, a aprendizagem do adulto professor acontece a partir de alguns pressupostos: o adulto aprende pela experiência; o adulto é movido pelo desafio, mais especificamente na superação desse desafio; o adulto professor aprende de forma deliberada,ou seja, se ele assim desejar; aprende quando o objeto do conhecimento está relacionado à sua prática e quando é experimentada em seu contexto. As autoras propõem também uma discussão sobre sentidos e significados, passando pela mediação descrita em Vygostky (1989).

Portanto, deve ser observada a subjetividade individual e a atribuição de sentido e significado de cada aprendiz (suas histórias, contextos e condições), pois o processo de construção do conhecimento pode ser levado a vários caminhos e a vários resultados, fazendo com que o ensino não tome forma linear e seus resultados divirjam. Sendo assim, o papel do mediador é de fundamental importância, pois é ele quem manterá o foco e cumprimento de objetivos comuns.

Gestão escolar e a reflexão crítica necessária

Aqui chego ao ponto central da minha provocação. Além das subjetividades individuais, os professores fazem parte de uma coletividade que se realiza nas escolas às quais pertencem, respondem a objetivos e projetos pedagógicos específicos, e estão diante de determinados contextos, regionalidades e culturas. Nessa coletividade, a articulação dos sujeitos é potencializada pelo gestor escolar que é quem mobiliza pessoas e recursos, aglutinando a responsabilidade pelos resultados de aprendizagem propostos em cada projeto político pedagógico.

Reconhecemos que a realidade do ensino remoto permitiu muitas aprendizagens aos professores. Todavia, essa não é uma relação casuística. Professores que experimentaram novas estratégias pedagógicas e a sua incorporação imediata. Para que essas aprendizagens sejam perenes, defendo que gestores – diretores e coordenadores pedagógicos – deem prioridade à reflexão crítica em seus planos de formação em serviço de professores que possam viabilizar a internalização das experiências vividas à luz de cada contexto e então permitir que sejam incorporadas definitivamente, acrescentando, tanto ao projeto pedagógico quanto às formações de gestores e professores, a intencionalidade necessária à consciência sobre novas práticas híbridas e ativas.

Infelizmente no Brasil, poucas pesquisas se dedicam a estudar a formação do gestor escolar e promover espaços formativos para esses profissionais. É como se o gestor chegasse a seu espaço de liderança a partir de habilidades inatas e fosse óbvio que conquistaria todas as competências de gestão ao longo de sua experiência.

Finalmente, com a interrupção das aulas presenciais e a experiência de educação virtual na educação básica com o contexto de pandemia devido ao COVID-19, preocupo-me com o papel estratégico da liderança escolar, peça fundamental de uma engrenagem que precisa continuar girando. Assim, fragilizar-se-á qualquer processo de inovação que desconsidere a atuação do gestor escolar em seu papel articulador de professores. 

Proponho que desenvolvamos espaços de estudos e formação, trocas de experiências, estudos de casos e ainda apoiar esses gestores com referências teórico práticas para dar sustentação a um dos mais importantes momentos da história recente da educação brasileira e mundial.

Assenta-se aqui também a defesa para a realização da IX edição do Congresso Saberes da Docência: Perspectivas metodológicas contemporâneas. No ano de 2020 o evento se dedicará a troca de experiências e apresentações de trabalhos de professores e gestores quando da suspensão das aulas presenciais devido à pandemia do Coronavírus. Espaços como esses podem apoiar a disseminação de boas práticas e fortalecer gestores e professores para a promoção da Educação que tanto aspiramos para o século XXI.

Encerro temporariamente este texto, deixando o diálogo aberto para novas reflexões que permitam pensarmos a Educação que queremos a partir da esperança freiriana, aquela que não espera, mas que, por acreditar, realiza e ao realizar, tem a esperanca na mudança.

* Kátia Maria Senise Martinho Rabelo é doutora e Mestre em Educação (Psicologia da Educação) pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo e graduada em Administração pelo Centro Universitário das Faculdades Metropolitanas Unidas (1991). Diretora pedagógica do Colégio Magister desde 2009 – escola parceira da Geekie e que adota o Geekie One desde 2018. Tem experiência na área de Educação, com ênfase em Psicologia Educacional, atuando principalmente nos seguintes temas: gestão educacional, formação docente, tutoria, afetividade, psicogenética walloniana e psicologia sócio interacionista.

Referências

PLACCO, V. M. N. S.; SOUZA, V. L. T. S. (orgs). Aprendizagem do adulto professor. São Paulo: Loyola, 2006.

VYGOTSKY, L. Pensamento e linguagem. São Paulo: Martins Fontes, 1989.

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