Como funciona a alfabetização na BNCC? Entenda eixos, campos e prazos

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Aluna em fase de alfabetização observa atentamente as páginas de um livro.

A Base Nacional Comum Curricular (BNCC), aprovada em 2017, não traz uma grande mudança na concepção de alfabetização como construção ativa de um sistema de representação, uma vez que a Base considera os Parâmetros Curriculares Nacionais (PCN). O que muda é a duração do ciclo de alfabetização, que passa a ser de dois anos e não mais de três.

Essa é a ponderação feita por Cristiane Mori, mestre em Linguística, docente do Instituto Singularidades, em São Paulo (SP), e uma das redatoras do componente de Língua Portuguesa para o Ensino Fundamental da Base Nacional Comum Curricular (BNCC).

Neste texto, você vai entender o que é alfabetização segundo a BNCC, quais conhecimentos e habilidades ela exige, os eixos e campos que organizam o trabalho em sala de aula e como identificar os códigos das habilidades.

O que é alfabetização?

Alfabetização é o processo de aprender a ler e a escrever, compreendendo o funcionamento do sistema alfabético: como os sons da fala (fonemas) se relacionam com as letras (grafemas). Não se resume a decorar o alfabeto, mas envolve entender a lógica por trás da escrita.

É comum aproximar esse conceito do de letramento, termo desenvolvido no Brasil pela pesquisadora Magda Soares. Enquanto a alfabetização foca no domínio técnico do código escrito, o letramento é o uso social dessa escrita: ler para se informar, escrever para se comunicar, participar da vida em sociedade por meio da leitura. A BNCC trabalha os dois de forma integrada, e não como etapas separadas.

Conhecimentos e habilidades fundamentais relacionadas à alfabetização na BNCC

A BNCC traz um arrazoado sobre os conhecimentos que as crianças devem construir, como:

  • diferenciar desenhos/grafismos (símbolos) de grafemas/letras (signos);
  • desenvolver a capacidade de reconhecimento global de palavras (que chamamos de leitura “incidental”, como é o caso da leitura de logomarcas em rótulos), que será depois responsável pela fluência na leitura;
  • construir o conhecimento do alfabeto da língua em questão;
  • perceber quais sons se deve representar na escrita e como;
  • construir a relação fonema-grafema: a percepção de que as letras estão representando certos sons da fala em contextos precisos;
  • perceber a sílaba em sua variedade como contexto fonológico desta representação;
  • até, finalmente, compreender o modo de relação entre fonemas e grafemas, em uma língua específica. (BRASIL, 2017, p. 91)

Esses conhecimentos embasam as seguintes habilidades fundamentais à alfabetização:

  • Compreender diferenças entre escrita e outras formas gráficas (outros sistemas de representação);
  • Dominar as convenções gráficas (letras maiúsculas e minúsculas, cursiva e script);
  • Conhecer o alfabeto;
  • Compreender a natureza alfabética do nosso sistema de escrita;
  • Dominar as relações entre grafemas e fonemas;
  • Saber decodificar palavras e textos escritos;
  • Saber ler, reconhecendo globalmente as palavras;
  • Ampliar a sacada do olhar para porções maiores de texto que meras palavras, desenvolvendo assim fluência e rapidez de leitura (fatiamento). (BRASIL, 2017, p. 93)

Um ponto que a Cristiane Mori destaca é que a BNCC traz considerações sobre como nosso sistema de escrita é fundamentalmente ortográfico, uma vez que as relações diretas entre letras e sons (ou seja, aquelas em que não há disputa entre letras para representar um som, nem mais de um som sendo representado pela mesma letra) são apenas seis: P, B, T, D, F, V. Exceto por essas seis letras e os sons que elas representam, tudo mais no sistema é regido pela ortografia.

Os 4 eixos e os 4 campos que organizam a alfabetização na BNCC

A BNCC organiza o trabalho de Língua Portuguesa em torno de dois conjuntos de quatro elementos, que costumam ser confundidos entre si.

O primeiro conjunto são as quatro práticas de linguagem (também chamadas de eixos): leitura, produção de textos, oralidade e análise linguística/semiótica. É dentro desse último eixo que fica concentrado o trabalho específico de alfabetização, como a construção do sistema alfabético.

O segundo conjunto são os quatro campos de atuação, que contextualizam os textos trabalhados em sala: vida cotidiana, artístico-literário, práticas de estudo e pesquisa e vida pública. Eles garantem que a criança não aprenda a ler e escrever apenas com frases artificiais, mas com textos que circulam de fato na vida real.

Organização do ensino por gêneros discursivos e seus campos de atuação

Outro aspecto que a BNCC considera e referenda os PCN diz respeito ao ensino de Língua Portuguesa estar organizado em gêneros discursivos (fábulas, mitos, poemas, notícias, resenhas, anúncios de publicidade, verbetes etc.) e esses em campos de atuação. Os PCN propunham uma organização por esferas de atividade (literária, jornalística, publicitária, cotidiana, científica, escolar etc.) e a BNCC opta por um organizador mais amplo que são os campos: vida cotidiana, artístico-literário, práticas de estudo e pesquisa, e vida pública.

“Ela propõe que os textos se organizem em função das características dos campos e, por isso, aprender a ler, a falar, a escrever e a escutar depende de compreender que cada campo coloca em jogo contextos de produção, finalidades e relações entre interlocutores diversas, que devem ser consideradas no momento da produção linguística”, enfatiza Mori.

A BNCC também mantém, relativamente aos PCN, a crença de que a proficiência linguística implica participação em práticas de linguagem, que levam em conta as características da situação de produção, os interlocutores e os objetivos da situação. As práticas propostas pela BNCC avançam em relação aos PCN na medida em que ela coloca a oralidade como uma prática independente, ao lado da leitura, escrita e análise linguística e semiótica.

Mas o grande avanço da BNCC em relação ao que havia nos documentos anteriores é a alusão à análise semiótica e aos gêneros multimodais. “A Base reconhece que, com a expansão e a diversificação das tecnologias de informação e comunicação, os textos que circulam hoje são, fundamentalmente, multimodais, ou seja, tecidos por diferentes semioses (linguagens)”, diz a especialista. Isso significa trabalhar com novos gêneros, como chats e tuítes, e linguagens, como fotos, vídeos e áudios, colaborando para o multiletramento.

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Qual é o código da BNCC para alfabetização?

As habilidades de alfabetização seguem o mesmo padrão de código de toda a BNCC: EF + ano + LP + número. EF indica Ensino Fundamental, o número seguinte é o ano escolar, LP indica o componente Língua Portuguesa, e o último número identifica a habilidade específica.

maior concentração de habilidades de alfabetização está no 1º e no 2º ano. Um exemplo é a EF01LP02, que pede que o estudante do 1º ano escreva, espontaneamente ou por ditado, palavras e frases de forma alfabética, usando letras que representem os sons que ouve. Outro exemplo é a EF01LP01, sobre reconhecer que textos são lidos da esquerda para a direita e de cima para baixo.

Conclusão

A BNCC não reinventou a alfabetização brasileira: ela manteve a base conceitual dos PCN, mas apertou o prazo (de três para dois anos) e deu mais peso à multimodalidade, refletindo como as crianças de hoje já convivem com textos digitais antes mesmo de aprender a ler no papel.

Para a escola, isso se traduz em planejamento: os quatro eixos e os quatro campos precisam aparecer juntos, ano a ano, e não como listas soltas de habilidades a cumprir. É essa integração, mais do que qualquer método específico, que a Base cobra.

Um bom exercício para a coordenação pedagógica é revisar o planejamento do 1º e 2º ano e verificar se os quatro campos de atuação de fato aparecem nos textos trabalhados, não apenas os gêneros escolares tradicionais.

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Perguntas frequentes sobre alfabetização e BNCC

O que a BNCC diz sobre alfabetização?

A BNCC estabelece que a alfabetização deve ocorrer até o fim do 2º ano do Ensino Fundamental, dois anos a menos do que o prazo anterior de três anos. O documento detalha os conhecimentos e habilidades que a criança precisa construir para dominar o sistema alfabético, sempre integrados a práticas reais de leitura e escrita.

Quais são os 4 eixos da alfabetização?

Os quatro eixos, ou práticas de linguagem, da alfabetização na BNCC são: leitura, produção de textos, oralidade e análise linguística/semiótica. É dentro do eixo de análise linguística/semiótica que se concentra o trabalho de construção do sistema alfabético.

Qual é o código da BNCC para alfabetização?

As habilidades de alfabetização seguem o código EF (Ensino Fundamental) + ano + LP (Língua Portuguesa) + número, como em EF01LP01 e EF01LP02, concentradas principalmente no 1º e no 2º ano.

Quais são os 4 pilares da alfabetização?

Se a pergunta se refere aos quatro campos de atuação da BNCC, eles são: vida cotidiana, artístico-literário, práticas de estudo e pesquisa e vida pública. Eles não devem ser confundidos com os quatro eixos (práticas de linguagem); os campos definem o contexto dos textos trabalhados, enquanto os eixos definem o tipo de prática realizada com eles.

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