Segurança na internet: dicas e experiências para uso seguro da rede

Crianças e adolescentes são atraídos pela internet, mas é preciso ter cuidados na hora de usar a rede mundial de computadores. Conheça projetos que falam sobre a segurança na internet e ajudam famílias e escolas a entender a importância do acompanhamento da vida on-line de filhos, filhas e estudantes

A cena que vou descrever abaixo provavelmente é bastante conhecida de muitas famílias contemporâneas e retratam o que quero expor sobre segurança na internet. 

– Mãe, por que não posso ter meu canal no Youtube? 
– Porque você é muito pequena.
– Mas a fulana, minha amiga, já tem.
– Bem, se a fulana se jogar de um precipício, você vai fazer o mesmo? Sou sua mãe e tenho obrigação de te proteger. Não e pronto.
– Mas não é justo… Qual o problema de eu ter meu próprio canal?

Esse diálogo se repete aqui em casa praticamente toda semana. Minha filha de oito anos quer por que quer ter seu próprio canal na internet e já tem até uma grade de conteúdos planejada em sua imaginação fértil: vai cantar, fazer slime, mostrar a nossa casa, contar dos deveres da escola, falar de seus amigos, mostrar fotos, falar de viagens, brincar com suas Baby Alive (bonecas) e seus Zoiudos, etc. etc. Em princípio, parece mais um despretensioso passatempo como o de milhares e milhares de crianças mundo afora. Ou seja, fazer seus próprios vídeos com auxílio de um celular e depois postá-los publicamente em alguma plataforma de compartilhamento. Mas questões complexas começam a bater à porta logo de cara. 

Antes de entrarmos nos perigos da exposição da criança e de seu mundo privado para uma plateia de ilustres desconhecidos, bem ou mal-intencionados, vou me deter na questão da exposição pura e simples, sem que se tenha qualquer controle do que virá de resposta do lado de lá. Se for só a busca por “likes”, ainda assim, na minha avaliação, isso se configura num problema. Explico: poucos “likes” em comparação com amigos ou outros youtubers, pode já ser uma dor de cabeça e tanto, incentivando que a criança passe a “performar” para recebê-los e dançar cada vez mais conforme a música que é solicitada em sua rede. Isso no caso de algum sucesso. 

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No caso do fracasso, algo bem mais provável dada a quantidade avassaladora de conteúdo gerado por minuto em múltiplos devices, a criança terá que lidar com a frustração de não ter se tornado uma celebridade mirim instantânea e talvez ainda não tenha ferramentas emocionais suficientes para entender que não dá para milhões e milhões de crianças mundo afora ficarem famosos ao mesmo tempo. Pela simples questão matemática que para cada “celebridade” é preciso uma multidão que forme plateias e as assista/consuma/admire. Justo ou injusto, é assim que a coisa funciona. 

Não entrarei no mérito da qualidade do conteúdo nem de sua possível recorrência na internet, tornando-o supérfluo ou redundante de imediato. Fora o tanto que uma atividade rotineira dessa exigirá da criança e dos pais, para se ter um mínimo de conteúdo que seja capaz de fazer algum barulho na web. 

Agora vamos para a parte um pouco mais nefasta desse ambiente digital que tanto encantamento produz entre nossas crianças e adolescentes. Embora a internet possa e deva ser espaço democrático de compartilhamento de ideias e conteúdos, nem sempre funciona dessa maneira tão prodigiosa ou positiva. Um relatório recente da Organização dos Estados Americanos (OEA) listou os principais perigos da internet para crianças e adolescentes: cyberbulling, conteúdos inapropriados, publicação de informações privadas, happy slapping, sexting, grooming, sextorsão e abuso/exploração sexual de crianças e adolescentes. Essas práticas não são restritas às crianças, mas tornam-se muito mais preocupantes e criminosas quando dirigidas àqueles que ainda estão em formação e que precisam ser protegidos pela família, escola e por sua comunidade. 

Leia mais: Claudio Sassaki fala sobre a importância da Educação Digital e da Alfabetização Midiática na TV Cultura

Faces e “Crescer sem violência”: usando a internet para conscientização e proteção da infância e da adolescência

Proteger crianças e adolescentes na internet é dever de todos nós. Tem relação direta com o estabelecimento de uma comunicação permanente e fluida, entendendo seus anseios, seus gostos, o que consomem no mundo digital e como são influenciados por seus pares. Compreender um pouco da tecnologia em si e seus dispositivos de segurança disponíveis também é um ótimo passo para os chamados “digipais” ou familiares que se comprometem em entender esse contexto e atuar na proteção de seus filhos. Educação é palavra-chave. As crianças e adolescentes precisam saber sobre o impacto de sua navegação pela internet, sobre os riscos de sua participação sem o cuidado necessário em redes sociais. Precisam saber que sua família estará lá para protegê-los. Por isso a supervisão parental é determinante para esse processo. Nesse sentido, há um excelente guia de proteção na internet que compartilho aqui

Pensando no quanto o bullying (seja ele digital ou não) pode acabar com a autoestima de um jovem, a NHK, rede aberta de TV japonesa, liderou uma iniciativa muito interessante que foi realizada em colaboração com dezenas de outros canais de TV pelo mundo. O projeto FACES. Cada canal participante produz de 2 a 5 histórias de dois minutos de duração com um jovem protagonista que conta o problema enfrentado olhando diretamente para a câmera. Ao final, todos eles relatam algum tipo de superação do problema, seja pelo apoio da família, pela terapia ou pela ressignificação das experiências de dor vivenciadas. Um exemplo positivo de como a internet e o compartilhamento de informações podem ser úteis para nos ajudar a enfrentar nossas questões com coragem e potência. 

Conheçam algumas das histórias contadas por jovens de vários países do mundo, inclusive do Brasil, no site da NHK

Outro projeto que eu fortemente recomendo que conheçam é o Crescer sem violência. O objetivo geral é o de incentivar e orientar educadores, seja no ambiente escolar, na comunidade ou em outras atividades de sensibilização para a temática das violências sexuais contra crianças e adolescentes. Em três séries que se valem de técnicas narrativas distintas, construindo personagens cativantes e tratando de histórias contundentes que nos levam a pensar nos temas, o projeto já pôs na estrada ótimas coleções de vídeo sobre abuso sexual, exploração sexual e cuidados com o corpo. 

Os vídeos de curta duração produzidos nesse contexto são acompanhados de material impresso e também de uma capacitação presencial para instituições educativas e do terceiro setor que tenham interesse em seu uso acompanhado e sistematizado.  Tenho certeza que vocês vão se apaixonar por esse projeto tanto quanto eu me apaixonei enquanto ajudava a concretizá-lo em parceria com a área de Mobilização e Implementação do Canal Futura. 

Olhem só esse vídeo do projeto que trata justamente de segurança na internet, nosso assunto de hoje: 

E pra finalizar,  algumas dicas práticas de segurança na internet

Uma “digifamília” antenada com a proteção digital (e analógica) de seus filhos e filhas, sabe que é preciso que todos os aparelhos eletrônicos da casa tenham proteção com senha, precisam conhecer softwares de controle parental disponíveis na web, limitar o uso de aplicativos e redes sociais pelas crianças e adolescentes, estabelecendo limites de uso e valendo-se da criptografia de dados. Há um manancial incrível de experiências e mecanismos de supervisão parental para a segurança na internet. Certamente um deles vai servir direitinho para você e sua família. 

* Debora Garcia é pedagoga, mestre em Educação pela UFF, Fulbright Scholar pela Georgia State University, GA e especialista em Gestão do Conhecimento pela COPPE-UFRJ. É sócia-diretora da Elektra Conteúdo e colaboradora do Canal Saúde da Fiocruz. Foi Gerente de Conteúdo do Canal Futura por mais de 20 anos e é uma das autoras do livro “Destino: Educação – Escolas Inovadoras”, publicado pela Fundação Santillana/Ed. Moderna. Em 2017, em conjunto com Daniela Kopsch e Daniela Belmiro, idealizou e criou o blog “3DEVI”, um espaço para contos, ensaios e reflexões da mulher contemporânea.

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