As 12 vantagens do bilinguismo e seu caminho para ampliação da aprendizagem

Casada com um norte-americano e mãe de uma filha bilíngue, Débora Garcia relata sua experiência com os dois idiomas dentro de casa, os aprendizados dela e da filha com essa realidade e os benefícios do bilinguismo para crianças e até para quem está aprendendo um novo idioma

Provavelmente você já escutou essa frase em algum momento da sua vida: “saber um segundo idioma é a chave para o sucesso, abre novas oportunidades, etc., etc.”. Não é por acaso que as escolas do gênero proliferam por toda parte. E que escolas bilíngues ganham um atrativo a mais na hora de conquistar novos alunos. O Inglês, por exemplo, é o idioma predominante nos negócios internacionais e está presente em quase 80% desse universo de transações bilaterais. A demanda de Inglês nas empresas também é crescente e não envolve somente a conversação e efetivação de negócios. Tem a ver também com domínio de softwares e manuais específicos que já nascem speaking in English. Para alguns executivos, dominar a língua de Shakespeare garante boa performance em apresentações e representações institucionais em eventos, congressos, rodadas de negócio, etc.

Mas saindo um pouco desse universo pragmático do mundo do trabalho, proponho uma reflexão sobre o valor do conhecimento de um segundo idioma para o nosso processo de aquisição de linguagem e ampliação do conhecimento sobre o mundo. Não me refiro só à alunos, tampouco aos docentes. Me dirijo a todos e a cada um de nós.

É sabido que quanto mais tarde aprendemos um segundo idioma, mais difícil esse processo se torna. Mas por que? Bem, tem a ver com as estruturas de aprendizagem que já construímos e que, de certa forma, já se cristalizaram de tal maneira a serem menos flexíveis à novas arquiteturas semânticas e a novos códigos de linguagem que um novo idioma exige. Não é uma tarefa impossível, mas demandará de nós um esforço redobrado e uma intencionalidade ainda mais firme nesse sentido.

A vantagem do bilinguismo na tenra idade

Aqui em casa vivo uma situação muito interessante e que muito me motiva a ler sobre bilinguismo. Sou casada com um norte-americano e desde pequena nossa filha opera bem nos dois idiomas: português e inglês. Hoje com oito anos e em processo de alfabetização, vejo novas nuances no aprendizado dela que antes não se manifestavam porque a pequena naturalmente só usava a conversação como ferramenta de comunicação. Ela não conhecia ainda os códigos de escrita dessas línguas e usava com mais ênfase as capacidades de compreensão e expressão oral.

De início havíamos decidido usar o método OPOL (do inglês, “One parent, one language” e em tradução livre seria “um familiar, uma língua”) para sua formação e para nossa vida cotidiana. Trocando em miúdos, eu deveria falar somente em português com ela e meu marido, em inglês, para mantermos as estruturas de ambos os idiomas de maneira mais correta e fluente possível. A correria do dia-a-dia não permitiu que fôssemos assim tão cartesianos, então volta e meia me pego falando em Inglês com ela e o mesmo acontece, de maneira inversa, com meu marido.

Apesar de não ser o recomendado por especialistas, funcionou com nossa filhota. Ela alterna os idiomas e parece ter uma preferência (talvez por morarmos no Brasil) pelo português. É o idioma das amizades, da escola, da rua. Embora o idioma da TV seja o inglês, assim como o da Internet que ela acessa com moderação. Somos quase obsessivos com a oferta de livros para ela e dividimos sua pequena biblioteca de forma equilibrada nas duas línguas. Dá pra notar que ela tem nitidamente dois sistemas linguísticos coexistindo em quase perfeita harmonia!

Percebemos que ela pensa em português, mas também o faz em inglês. O mais incrível disso tudo é o conceito de polissemia que ela parece lidar com tranquilidade, de forma orgânica – ela tem fluência ao fazer piadas, criar metáforas e se valer de jogos de linguagem nos dois contextos. Claro que em alguns momentos vivemos situações engraçadas como quando ela era menorzinha e viu o pai preso por algum tempo no elevador. Ela logo disparou com preocupação: “mom, daddy is stuck in the alligator” ao invés de dizer “elevator”. E num outro momento, já perto dos seus cinco anos, conversando com ela sobre espadas, cavaleiros e lutas perguntei como diria a palavra escudo em inglês e ela não titubeou: “scud”! Mais tarde, checando a informação com meu marido, logo percebi que não era bem esse o termo! O correto seria “shield” e tanto eu quanto ela aprendemos um novo vocábulo, em meio à gargalhadas da família.

Mas o mais curioso nesse processo todo que vivo diariamente é acompanhar sua abertura permanente e consistente para o multiculturalismo, para o novo, para novas formas de nomear e conceituar um objeto/contexto/situação. Como isso ocorre? Bem, é mais ou menos assim: desde pequena ela olha para um objeto e este já vem com dois nomes de fábrica: apple ou maçã; house ou casa; shoes ou sapatos; e por aí vai. Ou seja, nada é tão cristalizado ou petrificado que não possa abarcar novos significados. Fico imaginando se ela vai querer aprender um terceiro idioma um dia e se terá mais ou menos facilidade. Minha aposta é que ela já pavimentou um caminho de consciência metalinguística em seu cérebro e vem carpindo a graminha que porventura cresça nesse trajeto com afinco e dedicação, todo santo dia. Ou seja, deixando as estruturas de aprendizagem de novas linguagens totalmente aberta e arada.

As vantagens do bilinguismo

Se você que está lendo esse artigo e, por ventura, está pensando se faz sentido isso para o seu filho ou filha, seu aluno ou aluna ou até para você, já que talvez não tenha nascido ou frequentado um lar bilíngue como é o da minha filha, eu posso te garantir que vale e muito, por várias razões que vou enumerar abaixo:

  1. Quando falamos mais de um idioma, conseguimos controlar a atenção e ter mais seletividade na resolução de problemas;
  2. Temos mais capacidade de visualizar imagens alternativas para situações ou figuras ambíguas;
  3. Compreendemos mais rapidamente a diferença entre aparência a realidade;
  4. Ampliamos o armazenamento de memória;
  5. Aprimoramos nossa consciência fonológica;
  6. Alteramos positivamente o funcionamento do nosso cérebro;
  7. Temos mais flexibilidade mental;
  8. Garantimos uma reserva cognitiva que preserva nossa mente do envelhecimento;
  9. Conseguimos bloquear mais rapidamente informações irrelevantes num dado contexto;
  10. Nos concentramos no ponto de vista alheio (empatia pura);
  11. Melhoramos nossa capacidade de múltiplas tarefas pela plasticidade do entendimento do mundo;
  12. Nos tornamos cidadãos do mundo!

A dica final é: use e abuse de um novo idioma. Sem moderação. Sua visão de mundo só tem a ganhar!

*DEBORA GARCIA É PEDAGOGA, MESTRE EM EDUCAÇÃO PELA UFF, FULBRIGHT SCHOLAR PELA GEORGIA STATE UNIVERSITY, GA, E ESPECIALISTA EM GESTÃO DO CONHECIMENTO PELA COPPE-UFRJ. É GERENTE DE CONTEÚDO DO CANAL FUTURA E UMA DAS AUTORAS DO LIVRO “DESTINO: EDUCAÇÃO – ESCOLAS INOVADORAS”, PUBLICADO PELA FUNDAÇÃO SANTILLANA/ED. MODERNA. EM 2017, EM CONJUNTO COM DANIELA KOPSCH E DANIELA BELMIRO, IDEALIZOU E CRIOU O BLOG “3DEVI”, UM ESPAÇO PARA CONTOS, ENSAIOS E REFLEXÕES DA MULHER CONTEMPORÂNEA.

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