Lifelong Learning: O que você precisa saber e qual sua relação com a escola

Em um mundo de trabalho que exige cada vez mais competências e habilidades distintas, continuar aprendendo a vida toda é a chave para novos desafios do século XXI. Neste artigo, Débora Garcia, explica o que é lifelong learning e como este conceito pode se encaixar nas escolas

Hoje resolvi iniciar meu artigo a partir de um ponto de vista muito familiar: minha própria trajetória profissional. Não pensem que se trata de uma egotrip ou de marketing pessoal. Faço uso da minha experiência formativa e de trabalho aqui para ilustrar algo que considero um dos mais pungentes fenômenos da atualidade: a necessidade premente de aprendizagem contínua, ao longo de toda nossa vida. Existe até um termo em inglês para isso, caso queiram pesquisar mais sobre o assunto: Lifelong learning.

Isso tudo pra dizer que já foi-se o tempo onde simplesmente o ingresso numa faculdade, obtendo ao final de alguns anos um diploma de nível superior era suficiente para nos preparar para o mercado de trabalho e para os desafios colocados pela vida. Com o crescimento exponencial da produção e disseminação de conhecimento, sobretudo com o advento da internet, não é mais cabível imaginar que um curso linear, pré-montado, pouco flexível e com duração de 4 a 5 anos, por melhor que sejam as credenciais da instituição de ensino, será suficiente para nos manter atualizados, provocados e habilitados para explorar de maneira plena nosso potencial num contexto tão desafiador como é o novo milênio. É preciso continuar aprendendo, ampliando nossas competências e habilidades e, sobretudo, reinventando-se. Sempre.

Um mundo em constante transformação

Voltando à minha experiência pessoal: tenho formação em Educação, Mestrado em Educação e pós-graduação em Gestão do Conhecimento. Mas enquanto eu me formava de maneira convencional, uma revolução de costumes e de acesso à informação ia paralela e inexoravelmente acontecendo, transformando radicalmente todo o contorno da sociedade tal qual a conhecemos. As relações sociais se complexificaram drasticamente nessas últimas décadas. Os contextos políticos em âmbito nacional e internacional recrudesceram, as fronteiras étnicas estão cada vez mais tensionadas, as ameaças ambientais ao planeta se multiplicaram, a forma de produção e disseminação de informação se alterou estruturalmente, passando do modelo de um-para-muitos para o de muitos-para-muitos, embaralhando as cartas do tabuleiro e borrando a percepção do que é falso ou verdadeiro, confiável ou descartável, bem-intencionado ou vil. As transações financeiras se automatizaram. Os robôs passaram a ocupar postos de trabalho antes liderados por humanos. A expectativa de vida aumentou, sobretudo nos bolsões de riqueza. A pobreza e a desigualdade explodiram em todos os cantos do planeta, aumentando a fricção entre quem detém o poder econômico e aqueles que funcionam como peças numa grande engrenagem.

E, paradoxalmente nesse contexto todo, a escola pouco se alterou. Como isso é possível? Se olharmos para uma foto de 100 anos atrás de qualquer instituição de ensino, veremos uma pessoa à frente, detentora do conhecimento, explanando conteúdos para um grupo de alunos sentados de forma linear em carteiras, eventualmente acessando livros e cadernos e olhando, na melhor das hipóteses, com atenção para o quadro negro. As escolas de hoje em dia – infelizmente – não diferem-se tanto dessa estrutura mais convencional de décadas e décadas atrás e mantêm, teimosamente, algumas amarras em termos de proposta de ensino-aprendizagem que pouco apontam para a inovação ou para uma atualização de práticas. Mesmo diante de tão profundas e radicais transformações sociais. Parece que funcionam de forma anacrônica, desplugada dos acontecimentos do mundo contemporâneo. Desconsiderando o fato de que o conhecimento é produzido por múltiplos atores. É refutado, ampliado, revisto e reescrito por muitas mãos, o tempo todo. Silenciosamente negligenciando o fato de que os problemas se aprofundam e se reconfiguram a cada momento, exigindo de nós novas respostas, não somente repetição de fórmulas já desgastadas.

No meu fazer profissional, venho passando por inúmeras novas formações que em muito ampliam e consolidam o que estudei na universidade. Tive que me preparar para gerir equipes. Tive que aprender a organizar cronogramas e trabalhar com orçamentos complexos. Precisei investir tempo e dedicação na aprendizagem de habilidades ligadas à comunicação e à produção audiovisual. Aprendi dois novos idiomas. Descobri competências para trabalhar em contexto complexos, com deadlines estreitos, pressão por performance e cobrança por resultados concretos e tangíveis. Precisei potencializar minhas capacidades de comunicação, tanto dentro da instituição, como para fora, funcionando como porta-voz de projetos e defendendo conceitualmente nossas produções. Nenhuma dessas habilidades foram aprendidas necessariamente na universidade. E são, possivelmente, tão importantes quanto saber sobre didática, currículo e metodologia de ensino. Até porque o jeito de ensinar alguém modificou-se, assim como a agenda temática contemporânea e também o ritmo e progressão de aprendizagem. Não faria sentido, portanto, repetir os mesmos modelos já embolorados ou sujos de ferrugem.

Algumas dicas para manter sua aprendizagem contínua potente e estimulante

  • Leia muito e de tudo. Saia da sua zona de conforto e descubra novos caminhos para antigos problemas.
  • Faça algum curso diferente da sua trajetória original. Se sua formação é em Letras, tente um curso de marcenaria. Conexões inusitadas entre campos de saber diferentes são altamente estimulantes para a criatividade e para novos insights!
  • Aumente seu networking em pelo menos cinco novos contatos a cada ano. Vá a eventos, congressos, frequente web seminars, dê uma volta pelo bairro e engaje-se em alguma atividade local como organização de uma horta ou algum trabalho voluntário. Esse tipo de atitude amplia muito seu raio de ação e potencial de aprendizagem. Você terá a chance de aprender com outras pessoas e também de ensinar o que sabe. Tem algo mais incrível que isso para quem trabalha com educação?
  • Mantenha a seu alcance uma lista de tudo o que gostaria de aprender e ainda não teve tempo: eu, por exemplo, quero muito aprender a falar Francês, fazer um curso de paisagismo e saber costurar minhas próprias roupas!
  • Inicie um projeto diferente e vá em frente, mesmo tendo que ultrapassar alguns obstáculos para viabilizá-lo. Nesse trajeto é impossível que não acumule novos aprendizados, mesmo através do erro e do risco envolvidos.
  • Frequente ambientes que estimulem a aprendizagem. Saia mais com amigos que te estimulam intelectualmente, que tenham amplas referências de leitura, que tenham ideias fora da caixa e que tenham prazer em dividir o que sabem.
  • Encontre (ou permaneça) num trabalho que estimule a aprendizagem contínua. Não se contente com o que já sabe.

Mas e a escola nesse contexto todo?

Olhando de novo para a escola e bebendo da experiência profissional a que tenho acesso, faz muito mais sentido que esse lugar clássico e notório de aprendizagem possa ser totalmente reconfigurado. Que as experiências mão-na-massa sejam preponderantes e estruturantes. Que o cotejamento com o que acontece na vida real sirva de parâmetro para reestruturar currículos e didáticas. Que a vida real tome posse da sala de aula, trazendo seus desafios, suas idiossincrasias, sua volatilidade, seu colorido e sua ambiguidade para o quadro negro, para o discurso dos professores, para a vida dos alunos. Que os novos aparatos tecnológicos encontrem lugar cativo nesse espaço de construção coletiva do conhecimento. Que os gestores se apoderem dos projetos político-pedagógicos, embebendo-os de vida real, de sentido para nossa existência. E que não paremos, NUNCA, de aprender. É o convite que deixo para todos nós!

*DEBORA GARCIA É PEDAGOGA, MESTRE EM EDUCAÇÃO PELA UFF, FULBRIGHT SCHOLAR PELA GEORGIA STATE UNIVERSITY, GA, E ESPECIALISTA EM GESTÃO DO CONHECIMENTO PELA COPPE-UFRJ. É GERENTE DE CONTEÚDO DO CANAL FUTURA E UMA DAS AUTORAS DO LIVRO “DESTINO: EDUCAÇÃO – ESCOLAS INOVADORAS”, PUBLICADO PELA FUNDAÇÃO SANTILLANA/ED. MODERNA. EM 2017, EM CONJUNTO COM DANIELA KOPSCH E DANIELA BELMIRO, IDEALIZOU E CRIOU O BLOG “3DEVI”, UM ESPAÇO PARA CONTOS, ENSAIOS E REFLEXÕES DA MULHER CONTEMPORÂNEA.

Leia outros artigos que Debora já escreveu para o InfoGeekie:

Compartilhe
Compartilhar no facebook
Compartilhar no twitter
Compartilhar no linkedin
Compartilhar no pinterest
Bitnami