Educadores YouTubers: o conhecimento ao alcance de um clique!

Por que as aulas precisam ficar apenas na sala e na escola? O YouTube tem se mostrado uma ótima plataforma para professores e professoras compartilharem conhecimentos e até se aproximarem de seus alunos. Confira as experiências de educadores relatadas no artigo de Débora Garcia.

Foi há pouco tempo que tomei contato com uma rica rede de profissionais, a partir da preciosa dica de um professor do interior de São Paulo, Wagner Garcia, que conheci durante uma oficina de produção audiovisual. Na ocasião, ele me contou que pertencia a um grupo de educadores que tinha algo em comum: a criação de aulas em vídeo para serem compartilhadas na plataforma Youtube. Os assuntos? Os mais variados, predominantemente curriculares, ligados ao Ensino Fundamental e Médio.

A estratégia? Dar conta de conteúdos muitas vezes complexos de uma maneira convidativa, didática e sem rodeios. Os resultados? Inúmeros! Desde a ampliação do alcance de seu trabalho docente até, muitas vezes, a descoberta de novos e estimulantes talentos que, ao serem colocados em prática, ampliam o espectro de atuação de professores e professoras de todo o Brasil, mostrando que a aprendizagem pode se efetivar em qualquer espaço e circunstância, desde que a qualidade pelo apuro da informação e o compromisso com a democratização da educação sejam a tônica.  

Conversei com vários destes educadores sobre seu peculiar e instigante trabalho nesse relativamente novo campo de atuação  – a web – e percebi vários pontos convergentes nas suas experiências. Uns já estão há mais tempo nesse universo e colecionam milhares de inscrições. Outros estão se aproximando com entusiasmo, ensaiando os primeiros passos. Por isso, aproveito para compartilhar um pouco desses aprendizados comuns que eles vêm colhendo porque tenho a sensação que podem servir de inspiração para muitos outros educadores que queiram se aventurar por essa seara da inovação e das novas estratégias de ensino-aprendizagem da educação contemporânea!

Um passo de cada vez: é preciso começar!

Marcelo Bria, professor de Química, do Rio de Janeiro, hoje conhecido como “Marcelão da Química”, conta que sua primeira experiência com o Youtube for por volta de 2008. Ele gravou alguns vídeos sobre a matéria que tinha conhecimento, na intenção de ajudar uns poucos amigos com dificuldade, e seu material acabou sendo visto por gente de todo Brasil. Já lecionando numa escola, em 2013, sentiu a necessidade de ter mais tempo com seus alunos para abordar os conteúdos de forma mais cadenciada e adequada, sem tanta pressa em cumprir um cronograma.

De postagem em postagem, mesmo sem viralizar de imediato, começou a questionar-se sobre a possibilidade de ampliar seu trabalho, trocando a sala de aula presencial pelo trabalho na internet. Em 2015 pediu demissão da primeira escola. A cada ano, ia deixando outras instituições de ensino onde ensinava presencialmente para focar seu trabalho no ambiente digital. Teve a clara sensação que sua sala de aula passou a ficar aberta para o mundo. Hoje, conta com mais de 11 milhões de visualizações, fato admirável para qualquer youtuber, independentemente do conteúdo ou estilo adotado.

Silvester Dias, professor de Geografia do Paraná, tem outros motivos para sua incursão como youtuber:  ficava arrasado a cada final de ano quando seus alunos saiam da escola e ele tinha a nítida sensação que perderia o contato e a proximidade com eles. O Youtube entrou em sua vida com a função de encurtar essa distância e lhe dar a sensação que continuaria a fazer parte da vida deles por muito mais tempo. Silvester conta que aprendeu a editar seus vídeos na raça, com cara e coragem.

Enquanto isso, Andrey Freire, professor de Biologia de Pernambuco, em véspera de provas de seus alunos, resolveu arriscar a fazer seus primeiros “Lives pedagógicos” no Instagram. Sua audiência foi subindo, subindo, começou a ganhar reconhecimento e incentivo de pares e alunos até se arriscar na onipresente plataforma do Youtube.

Enquanto isso, lá em Minas Gerais, Naiara Vilela, professora de Língua Portuguesa, teve seu início no Youtube de forma prosaica: ensinando a montar uma apresentação em Power Point. Alcançou um milhão de visualizações e até já conseguiu monetizar seu canal. Usuária do programa de edição de vídeo Movie Maker, a partir de seu próprio celular, ela mantém-se animada com a iniciativa e pretende investir na vinheta e na primeira página de seu canal.

Os alunos aprendem muito, isso é verdade. Mas os professores youtubers também!

Silvester reitera que enquanto prepara suas aulas para publicação no Youtube vê-se instigado a aprender mais e mais, não só sobre conteúdo de Geografia propriamente ditos, mas sobre estratégias de comunicação, gravação de vídeo, edição e finalização. “Acabei fazendo a oficina do Geração Futura, no Canal Futura, por conta disso”, pondera. Para Marcelo, a aprendizagem que acumulou em seus anos de experiência como youtuber tem relação com saber o que funciona e o que não funciona na plataforma. Ele reconhece também que ao tornar-se um educador na web, ampliando as paredes da sala de aula, potencializou também sua função social como professor: “Me pego refletindo que educação de qualidade é um direito e precisa acontecer de forma democratizada. Um canal no Youtube é a prova concreta disso”, reflete.

Sobre o perfil dos alunos, Andrey conta que os que vêm de bons colégios acabam usando as aulas do Youtube como reforço de aprendizagem, mas para os com menores condições financeiras, a função destas videoaulas é um pouco diferente: “Significa  ter acesso, muitas vezes, a conteúdos que sequer foram vistos em sala de aula”, revela. E a admiração e gratidão pelo trabalho focado, organizado e árduo desses professores youtubers é logo percebida: “os alunos mudam sua relação com o conteúdo ensinado quando percebem que o professor quer de fato ajudá-los, inclusive dedicando tempo extra para a formulação de aulas para além da escola, na forma de vídeos”, argumenta.

Sabendo o quê e como ensinar na internet, os resultados aparecem! Seja na forma de likes, de compartilhamentos, comentários e subscrições nos canais de conteúdo.  

O professor Marcelo percebeu que na internet não tem necessidade de cumprir certas funções rotineiras que tomam seu tempo na escola convencional, como diário de classe, lidar com a indisciplina dos alunos, deparar-se com espaços não adequados para o ensino e experimentação de determinados tópicos e conteúdos, por exemplo. “O ganho de tempo é algo a ser considerado. E olha que não estou nem colocando nessa equação o quanto se emprega no deslocamento de casa para a escola”, lembra.

O professor Silvester, por exemplo, vê uma outra vantagem nas aulas digitais: “Você escolhe o conteúdo que quer trabalhar, assim como a melhor didática. O processo é mais livre, atua de forma mais dinâmica do que numa estrutura convencional de ensino. No entanto, adverte: “É preciso considerar a interação com os alunos, as dúvidas que surgirão ao longo do processo e tudo mais. Você não vai virar uma celebridade, mas certamente será referência no assunto para um número bastante considerável de alunos. É uma grande responsabilidade”, admite.

Sobre o ritmo de apresentação dos conteúdos e grau de aprofundamento, o que acontece é o seguinte: se na aula presencial o professor precisa repetir a explicação, na aula em vídeo o aluno pode voltar ao trecho onde teve dificuldade. O ritmo da fala também difere: “Na presencial temos que ser mais pausados; no vídeo, se falarmos muito devagar os alunos se desinteressam rapidamente”, diz Marcelo. O livro didático, por sua vez, funciona no contexto presencial. No virtual, é melhor usar um quadro para reforçar conceitos e para que os alunos façam print de tela sem necessariamente terem que comprar o material mencionado. “E cuidado com a cor do giz: rosa e verde não funcionam no vídeo”, adverte professor Marcelo.

O processo de produção das aulas em vídeo do professor Andrey acontece, por exemplo, num estúdio que montou especialmente para esse propósito. Tem um quadro, iluminação, som e com auxílio de um celular de boa qualidade grava suas aulas, usando também slides para algumas das explicações. Os resultados podem ser medidos através de aplicativos que trazem as métricas do canal: “Ao longo do ano percebo o que está subindo ou caindo em termos de interesse e assim vou organizando minhas aulas e assuntos”, conta o pernambucano.

O professor de matemática Mário André, do Amazonas, ensina que a escolha dos conteúdos para o seu canal no Youtube depende do momento e do contexto: “Penso se vai ser usado no ensino convencional, se é para vestibulares ou para concursos. O que sei é que alunos não querem conteúdos repetitivos, apresentados de forma monótona. Procuram sempre algo diferente e dinâmico”, revela. “Eu monto uma aula ou uma sequência de aulas. Tenho sempre em mente as atividades que podem comprovar aquela teoria e também exercícios preparatórios. Sempre tento fugir da lousa. Se vou falar de volume de um paralelepípedo, por exemplo, posso usar uma piscina como locação e ainda trabalhar o cálculo da quantidade de água”, ensina o amazonense.

Aquilo que permanece!

De toda essa conversa com essa turma entusiasmada de professores de norte a sul do Brasil, uma coisa é certa e parece nortear o trabalho de todos. O compromisso com a educação e a paixão resoluta pela docência. Não importa que aconteça de forma presencial ou através de plataformas digitais.  

E aí, animou-se para começar seu próprio canal educativo no Youtube?  Nossos professores que ajudaram a construir esse artigo são unânimes em dizer: perca a vergonha, organize seus conteúdos, pesquise muito e corra atrás do que não sabe. Os resultados positivos na aprendizagem dos seus alunos – e de outros tantos que você conquistará por esse mundo virtual afora –  virão, acreditem!

Saiba mais sobre os professores youtubers entrevistados para esse artigo:

Marcelão da Química (Marcelo Bria)

Biologia com o Tubarão (Andrey Freire)

Hiperativo Geo (Silvester Dias)

Trilhas na pós-graduação (Naiara Vilela)

Máriomática Matemática  (Mário André)

Projeto Geração Futura Educadores (produção audiovisual)

*DEBORA GARCIA É PEDAGOGA, MESTRE EM EDUCAÇÃO PELA UFF, FULBRIGHT SCHOLAR PELA GEORGIA STATE UNIVERSITY, GA, E ESPECIALISTA EM GESTÃO DO CONHECIMENTO PELA COPPE-UFRJ. É GERENTE DE CONTEÚDO DO CANAL FUTURA E UMA DAS AUTORAS DO LIVRO “DESTINO: EDUCAÇÃO – ESCOLAS INOVADORAS”, PUBLICADO PELA FUNDAÇÃO SANTILLANA/ED. MODERNA. EM 2017, EM CONJUNTO COM DANIELA KOPSCH E DANIELA BELMIRO, IDEALIZOU E CRIOU O BLOG “3DEVI”, UM ESPAÇO PARA CONTOS, ENSAIOS E REFLEXÕES DA MULHER CONTEMPORÂNEA.

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