Quais habilidades seus alunos desenvolvem com um trabalho em grupo? A seguir, a autora divide aprendizados para trabalhar em equipe com intencionalidade pedagógica.
Depois de quase duas décadas neste novo século, trabalhar com competências e habilidades socioemocionais ainda é um grande desafio para o educador. O aprendizado no século 21 está cada vez mais relacionado à capacidade de aplicar o que se sabe em situações novas.
Essa habilidade, seja quando exercitada em circunstâncias da vida real ou dividindo conhecimento com outras pessoas, ajuda os estudantes a desenvolverem as competências do novo milênio: trabalho em grupo, liderança, argumentação, capacidade de resolver problemas, pensamento crítico, responsabilidade e iniciativa. E como podemos desenvolvê-las em sala de aula?
Uma ótima estratégia é proporcionar aos alunos oportunidades de trabalhar em grupo. Mas, quando se fala de trabalho em grupo, muitas dúvidas e preocupações surgem na cabeça dos professores, não é mesmo?
Neste texto, você vai entender o que é o trabalho em grupo, por que ele importa para a aprendizagem e quatro estratégias práticas para aplicá-lo em sala sem que a atividade caia sobre um ou dois alunos apenas.
O que é o trabalho em grupo
O trabalho em grupo é uma atividade em que os estudantes se organizam em equipes para resolver um problema, discutir um tema ou produzir algo em conjunto. Mais do que dividir tarefas, ele exige que os alunos pensem juntos, troquem pontos de vista e cheguem a um resultado comum.
Na escola, o trabalho em grupo é um conteúdo atitudinal: precisa ser aprendido na prática, sob a orientação do professor. Não é uma habilidade que já vem pronta com o estudante, e por isso pode e deve ser ensinada, em qualquer disciplina.
Qual a importância do trabalho em grupo
A importância do trabalho em grupo está no desenvolvimento de competências que dificilmente aparecem quando o aluno estuda sozinho. Ao trabalhar com os colegas, ele exercita comunicação, argumentação, escuta, empatia e resolução de conflitos.
Essas são justamente as chamadas competências socioemocionais, cada vez mais valorizadas dentro e fora da escola. O aluno também passa de uma postura passiva para o protagonismo: aprende não só com o professor, mas com os próprios colegas.
Em minha trajetória como professora, pude vivenciar algumas dessas dúvidas e ouvir, também, as de meus colegas. Talvez a principal delas seja como fazer com que todos os alunos participem e não sejam apenas coadjuvantes.
Muitas vezes, o trabalho fica centrado em um ou dois elementos do grupo, enquanto os demais acabam não aproveitando esse importante momento de aprendizado. É por isso que o professor precisa estar atento: por ser uma questão transversal, que perpassa todas as áreas, cabe a qualquer disciplina desenvolver essa habilidade nos alunos.
Pensando nisso, destacarei aqui algumas estratégias para superar esse desafio e aproveitar todo o potencial do trabalho em grupo:
1. Escolha uma atividade desafiadora que proporcione a reflexão e participação de todos
Muitas vezes, organizamos os alunos em grupos, porém, a atividade a ser desenvolvida não requer que o trabalho seja realmente feito em equipe.
O primeiro equívoco que cometemos é distribuir uma folha igual para cada aluno e pedir que trabalhem juntos. Se queremos que eles realmente trabalhem juntos, e ainda não sabem bem como fazer isso, a melhor maneira é darmos uma única folha por grupo.
Assim, em primeiro lugar, será necessário que eles leiam e entendam juntos. Em seguida, poderão pensar coletivamente sobre o problema, discutir, argumentar e decidir como irão solucioná-lo e registrar os resultados.
Ao refletirem juntos, os alunos aprendem a ouvir, argumentar, defender seus pontos de vista e chegar a um consenso sobre a solução que irão escolher.
Mas, para que isto aconteça, eles precisam de uma atividade realmente desafiadora, que os leve a pensar sobre o tema e que, sempre que possível, admita diferentes soluções.
Desse modo, os estudantes terão mais oportunidades de criar e poderão, ao concluir, confrontar os colegas para conhecer as possibilidades de resolução propostas pelos outros grupos.
2. Estabeleça papéis com funções definidas para cada membro do grupo
Outra questão acerca do trabalho em grupo é a dificuldade que algumas pessoas têm em colocar suas opiniões e serem ouvidas.
De acordo com Cohen e Lotan, autores do livro Planejando o Trabalho em Grupo: Estratégias para a Sala de Aula, os membros de um grupo possuem status que, muitas vezes, dificultam a participação e a integração de todos.
Em muitos casos, a opinião de um aluno com menor status social acaba desvalorizada pelos pares. Já alunos com mais facilidade em determinada disciplina tendem a ter sua opinião mais valorizada e viram referência no grupo.
Para garantir que todos participem, você pode usar uma estratégia apresentada no livro que sugere a definição de papéis específicos. Eles contribuem para que todos os membros do grupo possam, em algum momento, desempenhar a função de líder no grupo e em outro, por exemplo, ser o responsável pela organização e distribuição de materiais.
Os papéis podem ser:
- O mediador: ele irá mediar a conversa dentro do grupo, estimular que todos participem e que estejam compreendendo a orientação das atividades.
- O relator: ele é responsável pelo registro e é orador da turma, quando necessário.
- O monitor de recursos: ele irá garantir que não falte nada para que o grupo consiga realizar sua atividade.
- O cuco: ele vai controlar o tempo da atividade, estipulado previamente pelo professor.
- O harmonizador: ele deve garantir que todos estejam se sentindo confortáveis, felizes e engajados.
Para que essa organização do trabalho em grupo funcione, dois pontos precisam ser observados:
- Os papéis precisam circular no grupo. Não podemos correr o risco de que sempre as mesmas pessoas sejam o monitor ou o harmonizador, por exemplo. Todos precisam transitar pelos diferentes papéis para que possam se desenvolver e aproveitar ao máximo o potencial da atividade.
- Os papéis não definem quem será o responsável por resolver a situação problema proposta pela atividade. Todos devem opinar e se sentir responsáveis por solucioná-la e finalizá-la.
3. Decida o tamanho e as pessoas do grupo em função de seus objetivos
Como em toda a atividade pensada para a sala de aula, o trabalho em grupo também precisa ser planejado com base no objetivo da aula. Em primeiro lugar, o professor precisa pensar se a estratégia de trabalho em grupo é a mais adequada para o objetivo daquele dia.
Em segundo lugar, ele deve pensar no tamanho do grupo para atender este objetivo. As duplas funcionam quando é importante que, em pares, os alunos discutam um tema e troquem informações a partir de conhecimentos prévios.
Também é possível trabalhar com grupos de 4 a 5 pessoas, de modo que todos tenham oportunidade de falar e interagir. Grupos muito grandes dificultam as trocas, por isso vale um olhar atento à organização para que isso não aconteça.
De acordo com Masetto, autor do livro O Professor na Hora da Verdade, o ideal é que os grupos não ultrapassem o número máximo de 5 participantes para que se mantenha a produtividade e participação de todos.
O professor também pode definir quem serão os componentes do grupo. Em alguns momentos, os próprios alunos podem se organizar por afinidades ou interesses.
Em outros, o professor deve planejar os agrupamentos, que ajudam a direcionar o trabalho em prol do objetivo. São os chamados agrupamentos produtivos. Às vezes vale pensar nos saberes dos alunos para agrupá-los, por saberes próximos ou complementares, sempre conforme o objetivo da aula.
Outro critério importante é o grau de afinidade, para que haja trocas e reflexões conjuntas. Se os alunos tiverem algum problema de relacionamento, talvez não seja o melhor agrupamento, pois essas questões precisarão ser trabalhadas antes.
4. Ao fim do trabalho em grupo, permita que eles compartilhem suas estratégias e soluções
Um momento bastante rico, que ajuda no desenvolvimento das competências de comunicação, é a socialização das discussões de cada grupo.
Planeje a atividade para que, ao fim do trabalho em grupo, cada equipe tenha a oportunidade de compartilhar com os demais: quais foram suas reflexões e descobertas, quais foram os caminhos que escolheram para isso, como e por quê escolheram este caminho.
Esse momento é bem relevante para que os alunos possam aprender a ouvir uns aos outros, apresentar seus argumentos, mostrar os caminhos percorridos pelo grupo e ter acesso a novas estratégias que podem ser diferentes das que haviam pensado inicialmente.
A depender do tempo da aula, nem sempre será possível ouvir todos os grupos. Por isso, ao planejar, o professor já deve pensar em quanto tempo terá e quantos grupos irão participar.
Para incluir mais equipes, um time pode apresentar seus resultados e os próximos trazem apenas os pontos complementares ou divergentes, sem repetir o que já foi dito.
O professor também pode promover um rodízio para que, em cada aula, parte da turma compartilhe suas descobertas dentro do tempo disponível. Para isso, ele precisa organizar um registro para saber quem já falou para que não sejam sempre os mesmos e possa garantir oportunidade para todos.
Leia mais sobre dinâmicas inovadoras na sala de aula:
- Espaços educativos inovadores aumentam desempenho de alunos no Rio de Janeiro
- SESI Paraná inova com tecnologia e projetos interdisciplinares
Conclusão
Como destacamos no início, o trabalho em grupo favorece o desenvolvimento de algumas competências socioemocionais, mas requer atitudes que precisam ser exercitadas na prática. Cabe ao professor planejar esses momentos de maneira propositiva, pensando não só nos conteúdos que os grupos irão trabalhar, mas também em como irão trabalhar, como estarão organizados e quais as melhores atividades para isto.
Se você já desenvolve essa estratégia, reflita sobre os pontos indicados aqui e identifique onde poderia melhorar. Se ainda não faz uso sistemático do trabalho em grupo, pense em como começar a inserir esses momentos na sua prática.
Apesar de parecer complexo gerir os alunos desta maneira, os ganhos aparecem no médio e longo prazo: eles ficam mais autônomos e desenvolvem competências que um papel passivo não permite.
Com o trabalho em grupo, o aluno se torna ativo em seu processo de aprendizagem e aprende não só com o professor, mas também com seus colegas, formando uma grande comunidade de aprendizagem dentro da sua sala de aula.
Ferramentas que organizam dados de aprendizagem ajudam o professor a formar agrupamentos produtivos e a acompanhar a evolução de cada aluno nesse processo. A plataforma adaptativa da Geekie apoia esse olhar individualizado, mostrando onde cada estudante tem mais facilidade e onde precisa de apoio, sempre como suporte ao trabalho do professor!
Perguntas Frequentes (FAQ)
O que é o trabalho em grupo?
O trabalho em grupo é uma atividade em que os estudantes se organizam em equipes para resolver um problema, discutir um tema ou produzir algo em conjunto. Na escola, é considerado um conteúdo atitudinal, que precisa ser aprendido na prática, sob a orientação do professor.
Qual a importância das atividades em grupo?
As atividades em grupo desenvolvem competências socioemocionais como comunicação, argumentação, escuta e empatia, que dificilmente são exercitadas no estudo individual. Elas também tornam o aluno protagonista, já que ele aprende com os colegas, e não apenas com o professor.
Quais são os pilares do trabalho em equipe?
O trabalho em equipe se apoia em pilares como comunicação clara, objetivos comuns, confiança e responsabilidade compartilhada. Na sala de aula, esses pilares aparecem quando a atividade é desafiadora, os papéis são bem definidos, os grupos têm o tamanho certo e há espaço para todos compartilharem suas ideias ao final.
* Silvana Tamassia é mestre em Educação: Currículo pela PUC-SP, na linha de pesquisa sobre formação de professores. Formada em Pedagogia com especialização em Psicopedagogia e Educação Infantil pela UNIA. Atualmente, é aluna do MBA em Gestão Empresarial da FGV. Tem vasta experiência na área da educação há 25 anos, tendo atuado como professora e coordenadora pedagógica em escolas públicas e privadas, além de professora no Ensino Superior em cursos de Pedagogia na UNIESP e Pós-Graduação na UNIA e Anhembi-Morumbi. Coordenou e produziu materiais para diversos projetos na área educacional em parceria com Fundação Lemann, Instituto Unibanco, Itaú BBA, Instituto Natura e Instituto Crescer. Em 2007 conquistou o Prêmio Escola Nota 10, concedido pela Fundação Victor Civita. É colunista da Geekie, e produz artigos para blogs, revistas e livros sobre educação. Atualmente é sócio-fundadora da Elos Educacional atuando em programas de formação de professores e gestores e membro da rede de Talentos da Educação da Fundação Lemann. Para dúvidas ou sugestões, escreva para silvanatamassia@
Comment section