Ficar sentado por cinco ou seis aulas seguidas cansa qualquer um, e com os alunos não é diferente. Encontrar atividades que prendam a atenção e ainda trabalhem a lógica é um desafio diário de quem dá aula de matemática.
O sudoku é uma dessas atividades. Simples de aplicar e de baixo custo, o jogo exercita o raciocínio sem que o aluno sinta que está diante de mais um exercício. Neste texto, você vai entender o que é o sudoku, por que ele funciona na aula de matemática e como aplicá-lo na prática, com o depoimento de um professor que usa o jogo há quase 20 anos.
O que é o sudoku
O sudoku é um quebra-cabeça de números. No formato tradicional, o tabuleiro tem 81 casas, distribuídas em uma grade de nove linhas por nove colunas, com subgrades de três por três.
A tarefa é preencher as casas vazias com algarismos de 1 a 9, sem repetir nenhum deles na mesma linha, na mesma coluna ou dentro de uma subgrade. Os números já preenchidos servem de pista para deduzir os que faltam, até chegar à única solução possível.
Apesar de usar números, o jogo não pede conta nem operação. Os algarismos poderiam ser trocados por símbolos ou cores sem mudar nada. O que ele exige é raciocínio lógico e dedução.
Conhecer a origem ajuda a apresentar o jogo à turma: ele foi criado nos Estados Unidos em 1979, pelo arquiteto Howard Garns, com o nome Number Place. Ganhou popularidade no Japão nos anos 1980, onde recebeu o nome que se espalhou pelo mundo, formado pelas ideias de “número” e “único”.
Por que o sudoku funciona na aula de matemática
O sudoku conversa com a matemática porque mobiliza o mesmo tipo de pensamento que a disciplina desenvolve. O aluno testa hipóteses, elimina possibilidades e justifica cada escolha até fechar o tabuleiro.
Dá para resumir esse ganho em quatro frentes que o jogo coloca em ação:
- Leitura e interpretação, para entender a disposição dos números;
- Concentração, para sustentar a atenção durante a resolução;
- Raciocínio lógico, para deduzir onde cada número se encaixa;
- Autocontrole, para conter a impaciência e não desistir no meio.
Essa última frente costuma passar despercebida, mas é valiosa. Ao insistir diante de um tabuleiro difícil, o aluno exercita persistência e tolerância à frustração, habilidades que servem muito além da prova.
O tema já foi estudado na academia. Em uma pesquisa de mestrado em psicologia escolar pela USP, a educadora Angela Catuta Ferreira Ebner observou que o sudoku favorece o desenvolvimento de habilidades cognitivas mesmo em crianças pequenas.
Como adaptar o sudoku para diferentes níveis da turma
Um cuidado importante antes de levar o jogo para a sala é o de não tratar a turma como um bloco único. É comum parte dos alunos resolver rápido enquanto outra parte trava logo no início.
A saída é variar a dificuldade dentro da mesma proposta. Para quem tem mais facilidade, use tabuleiros com menos números preenchidos ou reduza o tempo. Para quem está começando, comece com grades 4×4 ou 6×6 antes de chegar ao 9×9.
Respeitar o ponto em que cada estudante está é a mesma lógica da aprendizagem adaptativa: em vez de uma atividade única para todos, o nível se ajusta ao ritmo de cada aluno. O sudoku, mesmo no papel, é um primeiro passo nessa direção.
Sudoku em sala de aula: o depoimento do professor Fabio Aparecido
Para mostrar como o jogo funciona na prática, trazemos o relato de Fabio Aparecido, professor de matemática com 15 anos de sala de aula, que usa o sudoku com seus alunos desde 2006.
Fabio começou a usar o jogo em 2006 na tentativa de envolver os alunos com a matemática. Ele percebia que na primeira aula do período da manhã os alunos não tinham um bom desempenho. A partir daí, começou a trabalhar com o sudoku utilizando como apoio uma revista de baixo custo vendida em banca de jornal.
Ele precisou seguir algumas etapas que foi adaptando ao longo do tempo e que deram resultados positivos. Abaixo, trouxemos cada uma dessas etapas que o Fabio utilizou. Mas, lembre-se: elas são apenas sugestões, você pode ajustá-las conforme a realidade da sua sala e da sua escola.
1ª etapa: sudoku coletivo (1 vez por semana)
Como a sala tem datashow, Fabio projeta um sudoku e convida os alunos que já sabem jogar a explicarem aos colegas como resolver.
Em seguida, pede que um aluno vá à lousa enquanto o restante da sala informa os números que faltam, sem tempo definido. Terminada a resolução, ele confere o resultado e atribui uma nota a todos.
Sugestões:
- deixe sempre um sudoku como tarefa de casa;
- peça aos alunos para trazerem folhas quadriculadas para as próximas aulas.
2ª etapa: sudoku coletivo (1 vez por semana)
Mesmo sistema da anterior: um aluno vai à lousa e o restante resolve no caderno. Depois, a turma passa os números para o colega transcrever na lousa. Nesta fase, já dá para estipular um tempo máximo de resolução. No caso dele, são 9 minutos.
Sugestão: deixe sempre um sudoku como tarefa de casa.
3ª etapa: sudoku individual (1 vez por semana)
Com o datashow, ele coloca o sudoku na lousa. Nesta etapa, todos os alunos resolvem no caderno e, ao fim do tempo, Fabio confere quem conseguiu resolver, sempre atribuindo uma nota.
Sugestão: deixe sempre um sudoku como tarefa de casa.
4ª etapa: sudoku individual (1 vez por semana)
Aqui ele não projeta mais o sudoku na lousa: passa a ditar os números. Por exemplo: 1ª linha: coluna 2, número 6; coluna 3, número 5; coluna 4, número 8; coluna 5, número 4; coluna 6, número 1… e assim por diante.
Com o tempo, os alunos ficam mais rápidos e ágeis. Um ponto que ele destaca é que quem tem dúvida acaba ajudado pelos próprios colegas.
Nesta atividade, em nenhum momento Fabio explicou como o jogo funciona e, mesmo assim, conseguiu aproveitar a experiência dos próprios alunos.
No fim, segundo ele, o comportamento da turma muda. Assim como no uso do cubo mágico e da Torre de Hanói, os alunos ficam mais participativos e motivados. Isso ajuda a quebrar aquela “barreira” entre eles e a matemática, além de melhorar o rendimento e a autoestima da turma.
O que levar dessa experiência para a sua sala
O sudoku não substitui o conteúdo da disciplina, e não é essa a proposta. Ele funciona como uma porta de entrada: prende a atenção, movimenta a turma e faz o aluno exercitar a lógica sem sentir que está diante de mais um exercício.
Como toda atividade, o retorno aparece com constância. Reserve um momento fixo na semana, observe como a turma reage e ajuste as etapas à realidade da sua escola. O jogo é simples, o material é barato e o ganho em engajamento costuma compensar o esforço.
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*Fabio Aparecido é professor de matemática com experiência de 15 anos. Atua no Centro Paula Souza (CPS) e na Secretaria da Educação do Estado de São Paulo. É licenciado, bacharel e especialista em matemática pela UFscar. Produz conteúdo no Facebook e no seu canal do Youtube. Teve um de seus projetos publicados no site do MEC (Ministério da Educação).
Perguntas frequentes sobre sudoku na matemática
O que é o sudoku na matemática?
Na matemática, o sudoku é um quebra-cabeça de lógica em que se preenche uma grade 9×9 com números de 1 a 9, sem repetição na linha, na coluna ou na subgrade. Ele não exige cálculo, e sim dedução e raciocínio lógico, por isso é usado para desenvolver o pensamento matemático.
O sudoku é um jogo matemático?
O sudoku usa números, mas não depende de operações matemáticas. Ele é um jogo de lógica: os algarismos poderiam ser substituídos por símbolos ou cores sem mudar a solução. Ainda assim, é muito ligado à matemática por exercitar dedução, concentração e tomada de decisão.
Qual é o objetivo pedagógico do sudoku?
O objetivo pedagógico do sudoku é desenvolver leitura, interpretação, concentração e raciocínio lógico, além de habilidades como autocontrole e persistência. Em sala, ele também favorece o trabalho em equipe e a troca de experiências entre os alunos.