PARA CIENTISTA, FATOR SONO DEVERIA FAZER ESCOLAS MUDAREM HORÁRIOS

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sono na escola

Por Marina lopes, do portal porvir (porvir.org)

Quando se pensa no modelo de uma escola ideal, imediatamente fazemos associações com o projeto pedagógico, a organização do currículo, a formação dos professores, o espaço físico e até mesmo a alimentação. Tudo isso deve ser considerado. No entanto, para o doutor em Neurociência Fernando Louzada, professor da Universidade Federal do Paraná, essa lista também deve levar em conta o tempo biológico de cada aluno e o sono. Sim, o descanso também é importante para aprender.
Louzada estuda a relação entre o sono e a aprendizagem há mais de 20 anos. Atualmente, ele também participa da Rede Nacional de Ciência para Educação, que conta com o apoio da Capes (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior), do CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Cientifico e Tecnológico) e do Instituto Ayrton Senna para integrar pesquisas científicas ao processo educacional.

Consolidação do aprendizado e personalização

De acordo com Louzada, muitos não dão importância para o sono, mas há quase um consenso entre os pesquisadores de que a atividade cerebral que acontece durante esse período tem ligação com a consolidação do aprendizado. As possiblidades de simulações que acontecem durante o sono também abrem espaço para a criatividade e o despertar de insights. “Assim como a escola se preocupa com a alimentação dos alunos, ela deve pensar da mesma forma com o sono”, defende em entrevista ao Porvir, quando ressalta a necessidade de reorganizar horários escolares de forma a considerar essas necessidades.
“Os alunos aprendem de maneiras diferentes e com ritmos diferentes. Mas quando se pensa nas diferenças temporais, as pessoas não conseguem enxergar da mesma maneira”, explica Louzada. Segundo ele, os educadores precisam saber que os alunos possuem ritmos biológicos diferentes. “Isso também deveria ser pensado no âmbito da personalização do ensino”, afirma. Ao contrário do que muitos acreditam, nem sempre horário tardio para dormir e despertar de uma criança ou adolescente está associado à falta de limites.

‘Os alunos aprendem de maneiras diferentes e com ritmos diferentes. Mas quando se pensa nas diferenças temporais, as pessoas não conseguem enxergar da mesma maneira’

Existe uma área da biologia que é responsável por estudar e mostrar essas diferenças temporais a partir de uma influência genética. Conforme aponta a cronobiologia, cada pessoa tem um tempo diferente. Um aluno considerado matutino, por exemplo, apresenta preferência por acordar cedo e sente mais disposição nesse período. Já para um vespertino, é difícil levantar nas primeiras horas do dia. “Isso faz parte da organização dos relógios biológicos desses alunos”, afirma o pesquisador.
Muitas escolas acreditam que as crianças e adolescentes conseguem se acostumar a dormir e acordar cedo. Porém, o doutor em neurociências afirma que um aluno vespertino nunca vai mudar o seu comportamento natural. “Ele vai conseguir se ajustar porque o nosso sistema nervoso é plástico. Ele vai até dormir mais cedo, só que toda vez que tiver a oportunidade, vai expressar a sua preferência em deitar e acordar mais tarde”, explica.

Nova grade

A escola deveria apresentar opções de horários para atender tanto aos alunos matutinos quanto aos vespertinos, conforme aponta Louzada. Durante a segunda reunião da Rede CpE, que aconteceu na última segunda-feira (27), na sede do Instituto Ayrton Senna, em São Paulo, o doutor em neurociências apresentou uma ideia do que seria um modelo de escola ideal. Essa proposta sugere um horário de atividades comum entre os alunos, das 9 às 12 horas, e a opção de escolher entre as outras aulas no período das 7 às 9 horas ou das 13 às 15 horas.
“Dormir e reorganizar os horários escolares para respeitar essas preferências não gera custos. Existe um preconceito por trás disso e uma ideia de que todo mundo consegue se adaptar.” No entanto, antes de fazer qualquer alteração nos horários, o pesquisador diz que é necessário consultar professores, alunos, pais e a comunidade em geral. “Dentro da realidade e a proposta pedagógica da escola, você começa a discutir como seria esse modelo. O que eu estou propondo é apenas um exemplo de como se poderia ser feito”, afirma.
Não restam muitas dúvidas de que o descanso é importante antes de um aprendizado, já que os efeitos de privação de sono podem reduzir a capacidade de atenção e provocam alterações de humor. “O dormir antes talvez seja mais evidente e mais fácil de observar”, comenta Louzada. No entanto, as pesquisas das últimas décadas também passaram a considerar o papel do sono depois de aprender, ou até mesmo durante os pequenos cochilos, chamados de sesta.

Experimento e espaço para a sesta

Uma pesquisa desenvolvida no Laboratório de Cronobiologia Humana da Universidade Federal do Parará investigou o sono durante o intervalo de uma atividade (http://journals.plos.org/plosone/article?id=10.1371/journal.pone.0084342). Um grupo de estudantes foi convidado a jogar o game Speedy Eggbert, que envolve a resolução de problemas em diferentes níveis. Entre as fases do jogo, uma parte do grupo foi colocada para dormir durante uma hora e meia. Os resultados mostraram que 12 participantes, entre os 14 que dormiram, conseguiram resolver o desafio. No grupo que ficou acordado, esse número caiu para sete, de 15 indivíduos.
O doutor em Neurociências defende que, pelo menos até os 6 ou 7 anos, a escola tenha um espaço dedicado para a sesta. “As crianças vão fazer opção se querem dormir ou ficar acordadas. Algumas não sentem mais a necessidade da sesta por conta do amadurecimento do sistema nervoso. Mas precisamos permitir que as crianças durmam.”
Confira aqui um questionário para identificar preferências matutinas ou vespertinas (http://www.temponavida.com/gmdrb/gmdrb/Cronotipo.html)




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