Pensamento Computacional: um convite para a reinvenção da sala de aula e seu desenvolvimento em contextos educacionais

Estreiante no InfoGeekie, o editor de conteúdo da Geekie, Eliel Constantino da Silva, compartilha suas experiências sobre como é possível implantar o pensamento computacional em dinâmicas e rotinas ativas

Sempre quando leio ou ouço algo sobre robôs ou Inteligência Artificial (IA), reflito sobre o avanço tecnológico no qual a sociedade em que vivemos está imersa e em como estamos preparando as pessoas para viverem nessa sociedade.

É bem verdade que o avanço tecnológico tem moldado e condicionado a forma de pensar e agir dos seres humanos. Olhe à tua volta e pense em como a tecnologia tem automatizado ações que antes você fazia manualmente, tem otimizado o teu tempo, tem te conectado às pessoas, tem te permitido realizar e contratar diversos serviços.

O fato é que hoje já existem robôs atuando em determinados segmentos como, por exemplo, o robô Ross que é o primeiro advogado criado por Inteligência Artificial nos EUA e o ELI, primeiro robô assistente de advogados do Brasil.

É inaceitável, portanto, continuarmos assumindo uma postura de meros consumidores dos avanços tecnológicos, ficarmos à margem desses avanços observando-os ou ainda, não permitindo que aqueles que estão em formação adquiram competências e habilidades que lhes darão escopo para intervir de modo crítico e consciente nessa sociedade em constante transformação tecnológica.

Em minhas vivências em processos de ensino e aprendizagem e em ambientes de formação, em serviço, de professores e professoras, tenho realizado ações para promover e incentivar uma cultura de desenvolvimento do pensamento computacional em contextos educacionais visando a formação de todos os envolvidos para intervirem e atuarem criticamente nessa sociedade imersa no avanço tecnológico e para fazerem uso das contribuições desses avanços para a produção de conhecimento científico.

Mas, o que é pensamento computacional?

[É] um conjunto de processos de pensamentos que desenvolvemos para resolver um determinado problema de forma que busquemos reconhecer padrões, realizar decomposição do problema em partes menores, realizar um raciocínio algorítmico e abstrato, que podem nos ajudar a pensar em novas ideias à medida que conexões vão surgindo nesse desenvolvimento (SILVA, 2018, p. 15)

Veja esse vídeo (“Como ensinar linguagem de programação para uma criança”), que exemplifica a conceituação do termo pensamento computacional apresentado.

De modo resumido, podemos dizer que é a ideia computacional que utilizamos para resolver problemas, conceituar, pensar, gerenciar nossas vidas, comunicar e interagir com outras pessoas (WING, 2006). Seu desenvolvimento envolve habilidades como “a capacidade de ler, interpretar textos, bem como, compreender as situações reais propostas nos problemas e transpor as informações destas situações para modelos matemáticos, científicos ou sociais” (MESTRE et al., 2015, p. 1283).

As experiências práticas: desenvolvendo criticidade e reflexão

Algumas experiências têm me levado a reflexão da importância do desenvolvimento do pensamento computacional no contexto educacional. Vou relatar, de modo sucinto, duas experiências:

A primeira foi com estudantes dos anos finais do Ensino Fundamental em parceria com a professora especialista Ana Maria Soares e a professora doutora Sueli Liberatti Javaroni, em que observei que o desenvolvimento do pensamento computacional em aulas de conteúdos matemáticos contribuiu com a formação de conceitos matemáticos desses estudantes e os tornaram sujeitos ativos no processo de aprendizagem (veja mais detalhes nas dicas de leitura e na referência 2 de obras citadas)

A segunda foi em um espaço de formação interdisciplinar com professores das áreas de Linguagens e Códigos, Ciências Humanas, Ciências da Natureza e Matemática, juntamente com professores e pesquisadores parceiros (as professoras doutoras Sueli Liberatti Javaroni e Maria Teresa Zampieri e os professores Pedro Souza, Leandra dos Santos e Blenda Siqueira), em que o intuito era promover uma reflexão e mobilizar conhecimentos referentes ao desenvolvimento do pensamento computacional nas ações pedagógicas de cada professor com o objetivo de criar um ambiente de aprendizagem onde o estudante possa interiorizar conhecimentos científicos, desenvolver sua criticidade e reflexão através da interação com seus pares por meio de ações dialógicas.

Um dos resultados dessa ação foi uma aula interdisciplinar de Geografia, que envolveu conceitos matemáticos, em que o desenvolvimento do pensamento computacional mobilizou os estudantes de modo que as habilidades desenvolvidas foram para além daquelas relacionadas ao conhecimento científico das duas disciplinas curriculares envolvidas.

Com essas e outras ações tenho refletido que pensar no desenvolvimento do pensamento computacional no contexto educacional exige uma reinvenção da sala de aula e da postura do professor e da professora no processo de mediação da aprendizagem de estudantes. Essa reinvenção da sala de aula corresponde à utilização de materiais que possibilitem essa a transformação, metodologias e dinâmicas que rompam com o modelo usual do processo de aprendizagem, de modo que o estudante possa se tornar um sujeito ativo, crítico e reflexivo nesse processo, promovendo uma organização e reestruturação curricular que atenda uma nova geração de estudantes imersos em uma sociedade tecnológica, tornando-os aptos a intervirem nela.

Vamos ser agentes dessa reinvenção e disseminar a cultura de desenvolvimento do pensamento computacional em contextos educacionais?

Obras citadas

  1. MESTRE, P. A. A.; ANDRADE, W. L.; GUERRERO, D. S.; SAMPAIO, L.; RODRIGUES, R. S.; COSTA, E. J. F. Pensamento computacional: um estudo empírico sobre as questões de matemática do PISA. In: Congresso Brasileiro de Informática na Educação, 4, 2015, Maceió. Anais dos Workshops do Congresso Brasileiro de Informática na Educação. Maceió: CBIE, p. 1281, 2015
  2. SILVA, E. C. Pensamento computacional e a formação de conceitos nos Anos Finais do Ensino Fundamental: uma possibilidade com kits de robótica. 2018. 264 p. Dissertação (Mestrado em Educação Matemática) – Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho, Rio Claro, 2018.
  3. WING, J. M. Computational thinking. Commun. ACM, v. 49, n. 3, p. 33–35. 2006.

Dicas de Leitura:

  1. Pensamento computacional e atividades com robótica para a promoção da aprendizagem sobre o significado do resto da divisão euclidiana. Disponível em: <http://www.br-ie.org/pub/index.php/sbie/article/view/8041>.
  2. O Pensamento Computacional e a compreensão do conceito de congruência (módulo n) desenvolvido por duas estudantes. Disponível em: <http://cietenped.ufscar.br/submissao/index.php/2018/article/view/309>.

* Doutorando e Mestre em Educação Matemática pela Universidade Estadual Paulista (UNESP/Campus Rio Claro, Brasil). Licenciado e Bacharel em Matemática pela Universidade Estadual Paulista (UNESP/Campus Presidente Prudente, Brasil) e pela Universidade do Minho (Portugal), respectivamente. Membro do Grupo de Pesquisa em Informática, outras Mídias e Educação Matemática (GPIMEM/UNESP – Rio Claro) e membro do Grupo de Pesquisa Ensino e Aprendizagem como Objeto da Formação de Professores (GPEA/UNESP – Presidente Prudente). É autor de artigos publicados em periódicos nacionais e internacionais e capítulos de livros, editor de conteúdo matemático da Geekie, professor bolsista do Departamento de Educação Matemática da UNESP/Rio Claro e desenvolve pesquisas e ações de formação de professores relacionadas ao uso de tecnologias na Educação Matemática, com ênfase no Pensamento Computacional e Aprendizagem.

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