Desenvolver competências da BNCC viajando pelo mundo para conhecer novas culturas

Desenvolver as competências da Base Nacional Comum Curricular (BNCC) pode ser feito sem sair da sala de aula, como fez a professora Samantha ao conectar escolas com um programa de bate-papo por vídeo

Sabemos que uma das funções social da escola é a expansão do repertório cultural dos estudantes. Conhecer novas culturas te faz repensar ou reafirmar hábitos, valores e sua própria visão de mundo. Além disso, a empatia e o respeito às diferenças são desenvolvidos de forma única quando nos deparamos com outras formas de pensar e de viver. Dentre as dez competências da BNCC, o “repertório cultural” e a “empatia” estão presentes. As dez competências da BNCC foram definidas tendo em vista os direitos éticos, estéticos e políticos presentes nas Diretrizes Curriculares Nacionais e dos conhecimentos, habilidades, atitudes e valores essenciais para a vida no século XXI (Movimento pela Base, 2018)

A BNCC considera a competência do repertório cultural como a capacidade de “valorizar as diversas manifestações artísticas e culturais”. Dentre as dimensões dessa competência, estão a identidade e diversidade e cultural, que contemplam o senso de identidade, o acolhimento às diferentes culturas, a valorização das identidades e o reconhecimento dos desafios que envolvem viver em sociedades culturalmente diversas. 

Já a competência nove (empatia e colaboração) é entendida como a capacidade de “exercitar a empatia, o diálogo, a resolução de conflitos e a cooperação”. A dimensão da empatia envolve a valorização da diversidade, por meio da interação e aprendizado com outras culturas, como forma de combater preconceitos das mais diferentes formas.

Não precisamos ir muito longe para perceber a importância de desenvolvermos tais competências da BNCC. Cotidianamente, nos deparamos com casos de intolerância, seja ela política, religiosa, racial, sexual, social e cultural. Vivemos numa sociedade permeada pela falta de empatia e respeito à diversidade e nossa aposta é que nosso presente e nosso futuro podem ser diferentes se oportunizarmos às crianças e adolescentes a possibilidade de ultrapassar esses muros. 

Competências da BNCC: que a escola pode fazer sem sair do lugar?

Defendemos que o primeiro lugar em que a escola deve valorizar a diversidade é dentro do seu território, reconhecendo nela suas diferenças e construindo, a partir delas, aprendizados significativos. Mas podemos ir além dos muros da escola, colocando nossos alunos e alunas em contato com outros estudantes que têm estilos de vida diferentes e, por isso, fascinantes. 

Contudo, nem sempre é fácil oportunizar essas vivências aos estudantes. Seria um sonho poder reunir nossa turma em uma excursão pela América do Sul, para que eles conheçam e convivam com culturas e visões de mundo distintas. Mas sabemos que tal prática é inviável. Porém, como podemos extrair esse conceito e viabilizar essas aproximações? A professora Samantha Oliveira encontrou uma forma simples e de custo praticamente zero.

Professora Samantha Oliveira na certificação da Microsoft Educator

Samantha é professora de inglês há 18 anos e sempre foi entusiasta do uso das tecnologias digitais na sala de aula, desde as lousas interativas até os jogos e atividades online. Porém, ainda se sentia insatisfeita com esse uso “passivo” dos recursos digitais, muitas vezes condicionado à própria estrutura física das escolas. 

Além de sua paixão por tecnologias inovadoras, Samantha sempre se questionou de que forma poderia ajudar seus alunos e alunas a despertarem ainda mais o gosto pelo aprendizado da língua inglesa. Afinal, aprender uma língua é também aprender uma nova cultura (no caso do inglês, muitas novas culturas) e esse fator, por si só, era altamente engajador. 

Em suas pesquisas, Samantha conheceu um projeto chamado Skype in the Classroom, uma iniciativa da Microsoft que visa aproximar professores e salas de aula de diferentes lugares do mundo. Os professores fazem o primeiro contato por uma plataforma online e gratuita e agendam esse encontro entre as salas de aula. A motivação para esse encontro pode ser simplesmente uma aproximação cultural, mas também uma temática de interesse das duas turmas. O que define a estratégia é o planejamento pedagógico do professor para essa aula.

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Sim ou não: descoberta de culturas e conhecimento de mundo

Samantha começou com atividades simples, como o projeto Mystery Skype, que visa colocar duas turmas em contato sem saber a origem de cada uma. O objetivo é que as turmas façam perguntas fechadas, do tipo “sim” ou “não” para adivinhar de onde são os outros estudantes. Apenas numa atividade simples como essa, os alunos e as alunas praticam a língua, habilidades de geolocalização, repertório cultural, conhecimento de mundo e habilidades de comunicação e colaboração. Após a etapa da adivinhação, a professora possibilita aos estudantes trocarem conhecimento sobre suas culturas, identificando pontos em comum e aspectos distintos, desde horário escolar, hábitos alimentares dentre outras rotinas. Em outros casos, os alunos e alunas aprofundam aspectos sociais do país, visando aprender sobre como outras culturas lidam com os preconceitos e com a diversidade. 

Projetos sem paredes: conectando Brasil e Portugal

O próximo passo de Samantha foi envolver o uso do Skype em projetos. Em parceria com a professora de História Marilda Flores, docente de uma escola estadual do Rio de Janeiro, Samantha colocou crianças de Brasil e Portugal para conversarem sobre a chegada dos portugueses no Brasil no ano de 1500. Para isso, tiveram a participação da professora portuguesa Manuela Baptista. Como resultado dessa ação, os estudantes produziram uma apresentação online colaborativa e conversaram via Skype para retratar seus pontos de vista sobre esse fato histórico. Samantha retrata que mesmo os estudantes que ainda não estavam tão engajados na produção do conteúdo online tiveram uma reação totalmente diferente quando viram os seus amigos portugueses no telão do auditório do colégio.

Samantha não parou por aí! Depois dessa primeira experiência, segue se conectando com educadores ao redor do mundo e sua iniciativa foi reconhecida pela Microsoft, como professora influenciadora para o uso do Skype na educação (Skype Master Teacher Brasil). Seus alunos e alunas já trabalharam em conjunto com estudantes do Canadá, Colômbia, Vietnam, EUA, Índia e muitos outros países.

Soluções simples como essa podem fazer toda diferença no engajamento dos estudantes no seu aprendizado. 

* Samantha Oliveira é professora de inglês na rede privada há 18 anos e há 1 realiza projeto voluntário com o skype em uma escola Estadual em sua cidade. Possui certificação ECPE e TKT CLIL e módulo 2 (certificação para professores de língua inglesa). Trabalha atualmente com educação infantil e em curso de idiomas. É Microsoft Certified Educator e Skype Master Teacher.  Contato: samanthaberredo31@gmail.com

* Julci Rocha é Mestre em Educação: Currículo (PUC/SP) pós-graduada em gestão educacional, design educacional e educação inovadora: didáticas, tecnologias, design e autoria Licenciada em Letras pela USP. Atua na formação inicial e continuada na educação desde 2008. Tem experiência em consultoria e gestão de programas inovadores em redes públicas e privadas, envolvendo inovação curricular, metodologias ativas, cultura maker, multiletramentos e integração das tecnologias digitais nas práticas pedagógicas. Atuou em instituições importantes como Instituto Paulo Freire, Fundação Lemann e Microsoft. Hoje é Fundadora e Diretora da Redesenho Educacional, assessoria que apoia escolas, líderes e professores brasileiros a inovar, com foco em inovação curricular, por meio das tecnologias digitais, metodologias ativas e aprendizagem criativa. Também é professora de Pós-Graduação do Instituto Singularidades e autora de material didático para o Grupo Santillana e SESI. Contato: julci@redesenhoeducacional.com.br 

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