Para Carlos Nepomuceno aprendizagem por problemas é o caminho da “uberização”

Jornalista de tecnologia e Doutor em Ciências da Informação fala sobre a tendência que enxerga para a administração, a comunicação e a educação: a “uberização”. Segundo o especialista, as escolas de hoje não estão mais formando estudantes para a realidade que eles encontrarão fora da escola.

“Se na atual organização educacional se entra num horário, tem um local específico, hora para o lanche, turma, sinetas, professor, caderno, prova, avaliação; Na organização em que vai trabalhar também terá horário, um local específico, hora para o lanche, turma, ponto, gerente, caderno, metodologia, avaliação.” É preciso rever essa formação para as escolas se adequarem à tendência da uberização.

Essa é uma consideração do jornalista de tecnologia e Doutor em Ciência da Informação pela Universidade Federal Fluminense, Carlos Nepomuceno. Ela foi feita em um programa no YouTube no qual ele reforça a importância de entender que a Educação é forma e não conteúdo. O argumento é usado para apresentar a ideia de que a escola precisa se reformatar. O objetivo deste movimento é uma educação que forme estudantes que sejam hábeis em trabalhar com problemas, em novas organizações e de novas formas, muito diferentes daquela com a qual educação tradicional trabalha há décadas.

Nepomuceno foi um dos palestrantes no 12º Congresso Rio de Educação, promovido entre os dias 23 e 24 de agosto pelo Sindicato dos Estabelecimentos de Ensino do Rio de Janeiro (Sinepe-RJ). Em sua apresentação, com o tema “Futuro digital: por que a educação vai realmente mudar?”, o doutor em ciências da Informação apresentou o conceito de “uberização”. Esta, segundo ele, é uma nova forma de organização da administração e da comunicação que descentraliza o comando sobre o conteúdo. É sobre este assunto e como ele dialoga com a educação que Nepomuceno conversou com o InfoGeekie.

Para o especialista, o caminho para a escola se adaptar à tendência da uberização é a aprendizagem baseada em problemas. Para ele, os projetos são instrumentos necessários, mas saber resolver problemas e encontrar caminhos “com as próprias pernas” é uma capacidade que estudantes precisam desenvolver durante a educação básica.

Confira a entrevista:

InfoGeekie: Ao debater a diferença entre digitalização e uberização, o senhor define este termo como uma tendência na qual o comando e controle sobre o conteúdo é feito na forma de curadoria, de maneira mais personalizada. Pode nos explicar essa questão?

Carlos Nepomuceno: Primeiro, vamos trabalhar com o conceito. Estamos vivendo uma revolução civilizacional cujo fator causante é o aumento populacional de um para sete bilhões de pessoas no planeta em 200 anos e de 30 para 210 milhões de brasileiros nos últimos 120 anos. Estamos vivendo, portanto, uma crise demográfica na qual os modelos de comunicação e de administração que temos hoje na sociedade ficaram obsoletos. Conseguimos entregar atualmente quantidade, mas sem qualidade; ou qualidade sem quantidade. Isso não tem haver com educação; estou falando das áreas de saúde, governo, direito, alimentação. Em todas essas áreas nós temos um problema que estou chamando de “qualidade exponencial”, nós precisamos criar essa “qualidade exponencial”. Estamos revendo as Ciências Humanas e refazendo o papel da demografia, da mídia e das tecnologias na sociedade. Percebendo que os modelos de administração e de comunicação são relacionais e que quando a gente vai aumentando a população, precisamos dar um upgrade no modelo social geral, inclusive na educação.

Temos, então, o fator causante, que é o aumento da população, e o consequente é a necessidade de descentralização. Isso significa aumentar a opção do cidadão consumidor para ele ter mais ações, decisões e ofertas personalizadas que caibam no bolso dele. Este é o grande objetivo do que estamos passando neste novo século. Neste processo, temos três etapas que já são possíveis de visualizar. A primeira, que está bem ativa e que as organizações tradicionais já estão enxergando e trabalhando sobre, é a digitalização. Esta é a passagem por aplicativos. No Congresso Rio de Educação, por exemplo, pude ver que existem aplicativos para controle da escola e visualização dos boletins pelas famílias.

O segundo fenômeno é a “uberização”, que é um novo modelo de comando e controle no qual é possível perceber melhor a questão da “qualidade exponencial”. Exemplos são o AirBNB, o próprio Uber e Mercado Livre. Já o terceiro movimento, que está ainda na fronteira desse novo século, que é o “block chain”. Este é o caso do BitCoin e de alguns serviços na área de transporte. Esse movimento está tentando superar as plataformas centralizadas do YouTube e do Uber.

InfoGeekie: Como esse conceito da uberização pode ser aplicado na Educação?

Quando falamos de Educação, é preciso que ela é condicionada pelas mídias. Hoje temos uma educação que, conjunturalmente e de forma secular, passou de oral para a oral-escrita. Com a chegada do digital é como se tivéssemos inserido um novo corpo na sociedade com uma nova coluna vertebral. Essa nova coluna, que é o digital, permite uma nova estrutura ou uma nova conjuntura na Educação. Não estou aqui falando de uma nova estrutura que apenas insere a tecnologia na sala de aula, falamos de um novo ciclo da educação. 

Aqui ainda é preciso considerar o papel da educação na sociedade. Muitas pessoas acreditam que a educação é conteúdo. O amadurecimento dessa visão considera que a educação é forma. O formato que a escola hoje tem é de preparação do jovem para que ele não estranhe a empresa na qual ele ou ela vai trabalhar. Na escola o jovem tem horários definidos, com professores falando o que é certo e errado; quando ele sai da escola e entra no mercado de trabalho também terá horários definidos e um superior dizendo o que é certo ou errado. Neste cenário, o conteúdo é dado para o aluno para que ele possa entender o passado do mundo e trabalhar neste background cultural. 

O problema é que neste novo século as organizações estão sendo reformatadas: não há mais tempo e espaço e o ciclo de inovação é muito mais rápido. É preciso preparar os jovens para esse novo ambiente e essas novas organizações que, embora ainda sejam incipientes, serão hegemônicas no futuro. É preciso, então, formatar o jovem para ele saber trabalhar em plataformas, para ter independência de aprendizado, para aprender a aprender, para trabalhar em cima de problemas e não mais com assuntos; não ter tempo e lugar; não ter um “gerente” coordenando suas atividades. Estamos caminhando para sistema uberizado, com o que especialistas chamam de microempregados, no qual o modelo de organização será distribuído. O jovem tem que se preparar para isso. Essa, na minha visão, é a aposta que a educação precisa fazer.

Temos, portanto, um novo modelo de comando e controle. Eu diria que estamos passando da civilização oral-escrita para a oral-escrita-digital. Estamos saindo de um modelo de comunicação e administração dos mamíferos – que é sonoro e exige a interpretação de um líder-alfa para que as decisões sejam tomadas -, para um modelo que é o das formigas ou dos insetos – que é a linguagem dos rastros, no qual a decisão é tomada a partir da reputação digital dos serviços e produtos. Estamos entrando em uma nova civilização e a educação precisa incorporar essas possibilidades para resolver o problema fundamental, que é fazer uma educação de qualidade para uma quantidade. Este é o modelo educacional no qual o aluno entra com um problema e caminha com suas próprias pernas através das reputações, dos algoritmos, das inteligências artificiais, da participação das pessoas. Ao caminhar, ele tem capacidade de resolver o problema. É aí que teremos a qualidade na quantidade e quantidade com qualidade.

InfoGeekie: Considerando que os estudantes de hoje são nativos digitais, é possível que a necessidade de mudança do modelo de escola atual venha “de baixo para cima”, do estudante para a gestão, como uma demanda da nova geração?

Nepomuceno: O jovem já está preparado para o digital e tem facilidade para trabalhar nas telas. Porém, o problema é que ele não consegue perceber qual é a formação que ele precisa ter para trabalhar bem nessas telas. O educador precisa prepará-lo pensando em formas com as quais os estudantes se sintam confortáveis neste novo ambiente. Mas isso não está acontecendo. O jovem que entra no mercado de trabalho não foi preparado para trabalhar com problemas. Além disso, eles precisam fazer Enem e vestibulares. Isso acarreta que eles vivem em um ambiente totalmente descentralizado, mas que ainda tem um centro que exige que ele aprenda conteúdos específicos. Esse jovem de hoje está em conflito e vive uma crise subjetiva, afinal, ele vive entre dois mundos: aquele da educação formal que não está preparando ele para o outro, o que está chegando com mais força, do mercado de trabalho com novos modelos de organização. Logo, a formatação que ele precisa é outra. Os jovens estão se virando, na maneira que for, mas não há educadores preparando eles para esse processo. Há educadores mais resistentes, mas quando pensam no novo, sempre pensam em uma forma de manter a estrutura de comando e controle, porém nunca em uma nova forma. Essa mudança, no entanto, precisa ser acelerada. É preciso de uma nova estrutura de comando e controle na educação.

InfoGeekie: Por onde esse movimento de “uberização” da educação começa? 

Nepomuceno: A ideia, no Brasil, é justamente ter uberização para termos qualidade na quantidade e vice-versa. O problema nosso é que somos importadores de conceitos e são importações de países que não têm nosso problema exponencial, que é educar milhões de pessoas com qualidade.

Esse movimento começa, primeiro com a formação de educadores do que realmente está acontecendo, qual é o desafio e demanda. Feito isso, criação de áreas de inovação disruptiva para experimentar a curadoria educacional. E, a partir daí, criar modelos para disseminação em áreas separadas. No novo modelo, que não necessariamente será chamado de escola, mas sim de ambientes educacionais, serão diferentes e incompatíveis do que temos hoje.

InfoGeekie: Como o senhor enxerga a adaptação deste processo para as escolas da educação básica? Ao falar sobre este assunto com educadores, conseguiu perceber quais são os principais receios e desafios que pautam essa mudança? Aliás, o processo passa necessariamente por uma mudança de mentalidade na sua opinião?

Nepomuceno: As empresas criam o modelo de uberização do zero. Acredito que estudantes precisam ter acesso a computadores e possam acessar as zonas de inovação. 

O diagnóstico do que está acontecendo ainda é muito precário e para poucas pessoas. Quando se fala em educação no futuro, a maioria pensa em colocar tecnologia nova em escola velha. A primeira coisa que precisamos fazer é levar a discussão para educadores para que eles possam ter uma visão mais apurada desse cenário e a partir daí entender qual é a questão.

Esse problema passa, sim, pela questão da mentalidade. A nossa mentalidade educacional hoje foi toda estruturada em cima de um patamar de complexidade demográfica e uma mídia específica, com um modelo de educação específica. Porém, precisamos mudar desse modelo para um novo, completamente diferente que é disruptivo e incompatível com o atual. Essa é a maior disrupção de nossa história, entendo a dificuldade de educadores, porém, este é o desafio da geração. 

InfoGeekie: Em nossa conversa, o senhor mencionou que coordena um grupo de estudos sobre este cenário novo sobre o qual discutimos. Que grupo é este?

É o Grupo de Educação da Escola de Pensamento Bimodal, no WhatsApp. Nele, dividimos conhecimentos e compartilhamos nossas experiências e descobertas. O acesso ao grupo é gratuito e pode ser feito pelo WhatsApp com o número (21) 99608-6422.

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