Para Maria Inês Fini, cognitivo e socioemocional precisam caminhar juntos

Fundadora da Faculdade de Educação da Unicamp e ex-presidenta do INEP, Maria Inês Fini afirma que as novas demandas sociais fizeram e fazem a escola reconhecer que informação não é conhecimento e que o socioemocional precisa ser trabalhado na educação básica

Ao longo das palestras do congresso da Bett Educar 2019, a Base Nacional Comum Curricular (BNCC) estava presente em quase todas as discussões a respeito da educação básica brasileira. As mudanças que as diretrizes da base provocaram e provocarão na rotina da comunidade escolar é ainda centro do debate. As palestras que têm “BNCC” no nome sempre estão lotadas de gestores e gestoras atentos às experiências e ensinamentos. Representantes de muitas escolas ouvem atentos os especialistas explicando e opinando as possibilidades e cuidados que eles precisam ter na revisão de seus projetos político-pedagógicos e adequação às diretrizes.

Este é o cenário atual do debate educacional brasileiro. As escolas que já se adequaram à base, compartilham suas experiências com aquelas que ainda estão caminhando neste processo. Alguns pontos, contudo, continuam gerando dúvidas e inseguranças de educadores e educadoras: como os docentes vão se preparar para este cenário? O que gestores e gestoras podem fazer para apoiar a formação continuada da equipe educadora de sua escola? Como ficam as avaliações de dentro e de fora da escola?

Para responder algumas dessas dúvidas, o InfoGeekie entrevistou Maria Inês Fini, ex-presidenta do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (INEP), órgão responsável pelo Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), e fundadora da Faculdade de Educação da Unicamp. Referência em currículo e avaliação no Brasil, Maria Inês ressaltou que as mudanças da sociedade imputam um novo cenário para a educação. Na opinião da educadora, a BNCC fez “de maneira magistral” a organização de todas as necessidades de formação dos aprendizes do século XXI. Segundo ela, a base apresenta referências claras e cientificamente fundamentadas para a orientação dessa transformação do currículo, da formação de professores e dos sistemas de avaliação para a formação integral do indivíduo.

Maria Inês será um dos destaques do congresso da Bett Educar 2019 no último dia do evento, 17 de maio. Sua fala será sobre “Avaliações por competÊncia no contexto da BNCC” e está agendada para acontecer no auditório 1, às 10h. A Bett Educar, maior feira de educação da América Latina, está aberta e com entrada gratuita para visitantes no Transamérica Expo Center, no bairro Santo Amaro, em São Paulo. A Geekie está com seu espaço na quadra C150 com experiências e formações exclusivas do Geekie One (confira nossa programação aqui).

Confira a entrevista com Maria Inês Fini:

InfoGeekie: Antigamente a memória e os aspectos cognitivos eram as capacidades e dimensões humanas mais valorizadas na educação. Hoje, contudo, temos a previsão de uma formação baseada em uma gama de competências e habilidades maiores com a BNCC. Esses diferentes focos ao longo do tempo são reflexo das demandas que a sociedade coloca para os indivíduos? Por que só agora a educação passa a considerar aspectos socioemocionais e competências que se distanciam mais do cognitivo para formar um estudante integral?

Maria Inês: No modelo de ensino tradicional, a memória era a capacidade humana mais valorizada na educação. Entre outros objetivos, a escola formal tinha a função de transmitir a herança cultural às novas gerações, que deviam armazená-la na memória. Os processos cognitivos envolvidos na transformação desse conhecimento acumulado na memória em ações e intervenções na realidade, mediados por processos cognitivos mais complexos do que só lembrar, não faziam parte do ideário educacional. A discussão em torno de um conceito mais abrangente de aprendizagem, iniciado na década de 1980, ganha expressão mundial nas Conferências Internacionais de Educação, a primeira delas na Tailândia em 1990. Nosso primeiro Plano Nacional de Educação (PNE), a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB), os Parâmetros Curriculares Nacionais, a reforma do ensino médio de 1998, o Cadastro Nacional de Cursos Técnicos, a Matriz do Sistema de Avaliação da Educação Básica (SAEB), do Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM) e do Exame Nacional para Certificação de Competências de Jovens e Adultos (Encceja) já apontavam para esse conceito mais abrangente inclusive usando o conceito e a nomenclatura de competências e habilidades.

As novas demandas sociais, oriundas, em parte da revolução democrática da microeletrônica em nossa vida cotidiana, fez e faz a escola reconhecer que informação não é conhecimento e que as informações de toda natureza e formato estão disponíveis para todos numa velocidade de atualização que a escola precisa acompanhar, mas para isso tem que mudar. A evolução da sociedade evidenciou para todos a necessidade de termos uma escola que pudesse atender a todos em suas singularidades.

O conceito de educação integral (não em tempo integral), faz sobressair outros aspectos do desenvolvimento humano que não era tematizado como aspecto da aprendizagem e desenvolvimento das crianças e jovens, afinal todos os alunos, ao aprender, desenvolveram muitas e variadas emoções e ao pertencer a um grupo na sala de aula, no time da escola, no grupo do teatro, etc., estava desenvolvendo sua sociabilidade. Entretanto cumpre esclarecer que não há nem abandono nem distanciamento de processos cognitivos, ao contrário, são eles  competências e habilidades associados aos objetos de conhecimento, que estruturam a BNCC.

Então, o que a nossa BNCC faz, de maneira magistral a meu ver, é organizar tudo isso, numa referência clara e cientificamente fundamentada, de tal forma que pode e deverá orientar os currículos escolares, a formação de professores e os sistemas de avaliação, todos na perspectiva da educação integral.

InfoGeekie: O fato de a base normatizar uma continuidade no desenvolvimento de competências ao longo dos anos e séries da Educação Básica traz uma maior verticalização do processo de aprendizagem ao longo do tempo de formação dos estudantes?

Maria Inês: A seriação, nós já tínhamos como organizadora do currículo, embora, surjam hoje outras modalidades interessantes de organização, sejam em ciclos, sejam em módulos, a vantagem de termos uma indicação clara do processo de construção do conhecimento ao longo dos anos, facilita e muito a organização curricular e o trabalho cooperativo dos professores.

Para os estudantes, só haverá vantagem no desenvolvimento do currículo com essa verticalização organizada, respeitando a própria construção do corpo conceitual dos conhecimentos nas diferentes áreas vinculadas ao real potencial de desenvolvimento de suas estruturas cognitivas e socioemocionais.

InfoGeekie: Há uma previsão de que mais de 80% das profissões de 2030 ainda não existem. Os alunos de hoje, que devem se formar no Ensino Superior na década citada, estarão preparados mesmo se este cenário futuro for mais ou menos disruptivo em relação às previsões feitas?

Maria Inês: A escola brasileira precisa enfrentar esse desafio, seja de educação básica ou de ensino superior. Os estudantes precisam desenvolver estruturas para aprender sempre, aprendendo na escola a resolver problemas de múltiplas e crescentes dificuldades, todo eles devidamente contextualizados. Ao invés de sala de aula invertida precisamos ter a escola toda invertida porque são as demandas sociais de múltiplas naturezas que apresentam para as escolas a possibilidade de favorecer aos alunos e alunas a aplicação dos princípios e conceitos das Ciências, da Arte e da Filosofia, para a solução de problemas reais e atuais.

As metodologias ativas, o protagonismo dos alunos, o desenvolvimento da autonomia e a habilidade de trabalhar em diferentes grupos, comunicando-se e compreendendo não só o que lê, mas o que circula em todas as formas de linguagem no mundo do trabalho farão nossos jovens habilitados a esse mundo que não podemos prever.

InfoGeekie: Ainda pensando nessa formação e nessa transformação que a BNCC imputa à Educação Básica, quais serão os benefícios para a sociedade brasileira (como nação) por ter estudantes formados a partir de uma visão mais complexa sobre o ser humano?

Maria Inês: Uma sociedade mais justa, mais solidária e com desenvolvimento social, científico e tecnológico capaz de alavancar o desenvolvimento social e econômico do Brasil, com distribuição mais justa de riquezas para que possamos viver numa cultura de paz.

InfoGeekie: Como a avaliação pode ser entendida a partir da base? Quais são as mudanças que podem e/ou devem acontecer com esse novo cenário?

Maria Inês: Tenho dito e repetido que quem manda na avaliação é o currículo e não o contrário. Com referências curriculares nacionais claras, elas servirão para o ajuste das referências das avaliações, sejam elas em larga escala ou as processuais e formativas. Sempre lembrando que a Base não é Currículo e que as matrizes de avaliação são um recorte do currículo.

InfoGeekie: Pode haver alguma tensão entre o modelo avaliativo que a base propõe e o que acontece com as avaliações externas que tendem a ser mais tradicionais? Qual é a agenda atual dessas revisões das avaliações externas frente à BNCC?

Maria Inês: As equipes técnicas do INEP (Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira), acompanharam os passos de elaboração da BNCC e a presidente fazia parte do Comitê Gestor. O Conselho Nacional deu ao INEP o prazo de dezembro de 2018 para ajustarmos as referências de avaliação do ensino fundamental.

Para o SAEB, os ajustes foram feitos e disponibilizados no portal do INEP.

Mais do que isso, a avaliação da alfabetização foi prevista para o segundo ano em 2019 e também a inclusão das Ciências. A equipe do ENEM acompanhou os desdobramentos da discussão da reforma do Ensino Médio e a finalização da Base desse nível de ensino e já tem bem adiantada uma reflexão com ajuda de especialistas para uma proposição de modelo para um novo ENEM.

Esse esforço precisa ser incentivado e continuado com liderança competente.

InfoGeekie: Os professores e as professoras têm formação necessária para trabalhar com as avaliações por competências que a BNCC exige? Deverá haver alguma reestruturação dos cursos de Pedagogia e licenciaturas em geral para adequar a formação dos docentes à essa nova realidade?

Maria Inês: Os professores atualmente em exercício, em sua expressiva maioria, não tiveram em sua formação inicial, oportunidades de desenvolver as competências profissionais necessárias para ajustar sua atuação às demandas não só da BNCC, mas da própria sociedade e do mundo do trabalho que requerem renovação de metodologias, de objetivos e consequentemente nova estruturação de seus cursos de formação com vistas à modernidade e à inovação.

O Ministério da Educação enviou ao Conselho Nacional de Educação, em dezembro de 2018, uma proposta de Base Nacional de Formação de Professores articulada à BNCC, afinal o professor precisa aprender, minimamente, o que os alunos têm o direito de aprender, além de novas formas de ensinar e se aprimorar sempre.

No início de 2019, o MEC solicitou ao CNE (Conselho Nacional de Educação) que devolvesse a proposta para os devidos ajustes e até este mês de maio de 2019, ainda não havia sido restituído.

InfoGeekie: As avaliações por competência, para adequação à BNCC, requerem uma mudança de mentalidade e postura dos professores e professoras? Se sim, quais são os melhores caminhos para um gestor escolar incentivar e promover essa mudança?

Maria Inês: Creio que o gestor deveria oportunizar aos seus professores e professoras uma boa compreensão da Base Nacional Comum Curricular. É fundamental uma mudança na dinâmica organizacional dos espaços pedagógicos da escola. Os professores precisam compreender os princípios e valores envolvidos nos fundamentos da BNCC além de seus conceitos estruturante, principalmente os de: currículos referidos à competências e habilidades associados aos objetos de conhecimento; dinâmica do desenvolvimento socioemocional de crianças e jovens; competências transdisciplinares que envolvem a compreensão da organização de currículos em áreas de conhecimento; protagonismo juvenil; entre outros. A universidade brasileira ainda precisa ser sensibilizada para esse compromisso.

Mas não basta dizer o que o professor precisa. É fundamental que sua carreira, sejam incluídos espaços de formação continuada.

Leia mais entrevistas e a cobertura da Bett Educar 2019:

Compartilhe
Compartilhar no facebook
Compartilhar no twitter
Compartilhar no linkedin
Compartilhar no pinterest
Bitnami