Planejamento reverso: o que é e como aplicar na sala de aula

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Banner do Circuito Geekie sobre planejamento reverso.

planejamento reverso coloca o estudante no centro do processo e valoriza a intencionalidade pedagógica, a construção de conhecimentos significativos e o “saber fazer”. Em vez de partir do conteúdo do livro didático, o professor parte do que espera que a turma compreenda ao final do percurso.

A aprendizagem por habilidades e competências da Base Nacional Comum Curricular (BNCC) requer novos conhecimentos e estratégias diferentes do modelo tradicional de ensino. Nesse contexto, o planejamento pedagógico pode ser feito de outra maneira, a partir dos objetivos que se espera que os(as) estudantes alcancem ao longo da aprendizagem.

Para falar sobre os desafios desse instrumento essencial no trabalho do(a) professor(a), o 5º Circuito Geekie promoveu a oficina online “Planejamento reverso e a aprendizagem por habilidades e competências”, com Vivyane Curalov, consultora pedagógica da Geekie.

O encontro contou com o diretor Haroldo Queiroz e a coordenadora pedagógica Sandra Castro, do Colégio Santa Maria Minas – Coração Eucarístico, de Belo Horizonte (MG), além da participação de educadores pelo chat do YouTube.

Neste texto, você vai entender o que é o planejamento reverso, como ele se diferencia do modelo tradicional e quais são as suas três etapas na prática, com os exemplos e as reflexões que surgiram nessa oficina.

O que é planejamento reverso

O planejamento reverso é uma metodologia de planejamento de aulas que começa pelo fim. O professor define primeiro o que quer que os estudantes compreendam, depois decide como vai avaliar essa compreensão e, só então, planeja as experiências de aprendizagem que levam até lá.

A lógica se inverte em relação ao modelo tradicional, que costuma partir do sumário do livro didático. Aqui, o ponto de partida é o objetivo de aprendizagem, não o conteúdo a ser “vencido”.

A metodologia foi sistematizada pelos educadores norte-americanos Grant Wiggins e Jay McTighe, na obra Planejamento para a compreensão. A proposta central é diferenciar o saber do compreender: mais do que reproduzir um conteúdo na prova, o estudante precisa aplicar o conhecimento em contextos variados da vida real.

Planejamento reverso e planejamento tradicional: qual a diferença

A principal diferença está no foco. O planejamento tradicional é centrado no professor e no conteúdo: parte da escolha do livro didático, segue para a ementa e termina nas provas.

Já o planejamento reverso é centrado no estudante e na aprendizagem. Ele parte das metas que a turma precisa alcançar e, a partir delas, define quais conteúdos são relevantes, como avaliar e quais atividades aplicar.

Na prática, isso muda a postura da turma. Como os estudantes sabem desde o início quais perguntas aquele conteúdo busca responder, eles assumem uma postura investigativa e ganham mais protagonismo no próprio aprendizado.

Foi justamente esse deslocamento do foco, do conteúdo para a compreensão, que guiou a discussão da oficina do Circuito Geekie. A seguir, os pontos que Vivyane Curalov e os educadores convidados trouxeram sobre como aplicar a metodologia no dia a dia.

Como estamos planejando nossas aulas?

Vivyane propôs uma reflexão sobre como os(as) professores(as) estão planejando suas aulas, principalmente no cenário de retomada das atividades presenciais. “Mais do que nunca é o momento de articular o planejamento com a equipe e compartilhar desafios para pensarmos juntos na aprendizagem”, afirmou. Ela apresentou uma frase do professor José Carlos Libâneo, que destaca a intencionalidade do processo e o foco na aprendizagem:

“O processo de ensino é o conjunto de atividades organizadas pelo(a) professor(a), visando alcançar determinados resultados, no qual a sua condução requer uma ‘compreensão clara e segura do processo de aprendizagem.'”

A consultora pedagógica retomou a obra que dá base à metodologia, Planejamento para a compreensão: Alinhando currículo, avaliação e ensino por meio do planejamento reverso, de Grant Wiggins e Jay McTighe, publicada no Brasil pela editora Penso (2019). “O planejamento para compreensão coloca no centro do processo o(a) estudante, e não o cumprimento do livro didático ou da apostila. E mostra a importância da intencionalidade, trazendo provocações como ‘Quais são nossos objetivos como educadores e educadoras?’, ‘Quais experiências queremos trazer para os(as) estudantes?’ e ‘O que esperamos que eles(as) compreendam a partir dessa atividade?'”

Ela explicou que, em consonância com essas ideias, está a BNCC, que trouxe maior clareza de onde se quer chegar, ou seja, dos objetivos de aprendizagem. Para ilustrar, reproduziu uma frase do autor Cipriano Carlos Luckesi:

“O ser humano age em função de construir resultados. Para tanto, pode agir aleatoriamente ou de modo planejado. Agir aleatoriamente significa ‘ir fazendo as coisas’, sem ter clareza de onde se quer chegar; agir de modo planejado significa estabelecer fins e construí-los através de uma ação intencional.”

Segundo ela, um ponto central da obra de Wiggins e McTighe é a diferenciação entre saber e compreender. “É diferente criar um planejamento que vai ter como eixo central o conteúdo ou a compreensão. É a compreensão que traz significado para o(a) estudante e permite que ele(a) aplique o conhecimento em diversos contextos.”

“A aprendizagem que não penetra na essência do que é vital em relação às ideias produz aulas abstratas, alheias e desinteressantes”, disse Vivyane, citando mais uma frase de Wiggins e McTighe.

As 3 etapas do planejamento reverso

O plano de aula em 3 etapas é uma metodologia para estruturar as práticas de ensino e aprendizagem nas aulas e para criar evidências a fim de medir se os objetivos de aprendizagem foram alcançados. Ele consiste em:

  1. Identificar os resultados desejados
  2. Determinar as evidências aceitáveis
  3. Planejar experiências de aprendizagem
Tabela das 3 etapas do planejamento reverso: objetivos, evidências e experiências de aprendizagem.

Na oficina, Vivyane percorreu cada uma dessas etapas com um exemplo prático, partindo de uma habilidade da BNCC do 7º ano, da área de Ciências da Natureza:

EF07CI09: Interpretar as condições de saúde da comunidade, cidade ou estado, com base na análise e comparação de indicadores de saúde (como taxa de mortalidade infantil, cobertura de saneamento básico e incidência de doenças de veiculação hídrica, atmosférica entre outras) e dos resultados de políticas públicas destinadas à saúde.

1ª etapa: identificar os resultados desejados

A primeira etapa consiste em traçar com clareza os objetivos: o que queremos que os(as) estudantes alcancem a partir da aprendizagem? Alguns verbos auxiliam nessa definição, como identificar, relacionar, sintetizar, resumir e interpretar. No exemplo, os objetivos poderiam ser compreender os conceitos essenciais sobre nutrição, reconhecer os elementos de uma dieta balanceada e refletir sobre os próprios padrões alimentares.

Em seguida, perguntas essenciais ajudam a pensar sobre a questão, como “Você se alimenta de forma saudável?” e “Como é possível que uma dieta saudável para uma pessoa possa ser insalubre para outra?”

2ª etapa: determinar as evidências aceitáveis

Para determinar as evidências de aprendizagem aceitáveis, é fundamental que a avaliação seja feita ao longo do processo, de forma contínua. “A ideia é trabalhar com evidências que vão ajudar a entender o quanto os(as) estudantes estão sabendo, e não esperar o final do semestre para avaliá-los(as). É uma mudança de mindset, de cultura”, pontuou a consultora. Entre essas evidências estão pesquisas, vídeos, projetos, desenhos e esquemas feitos pelos(as) alunos(as).

Vivyane destacou que uma ferramenta interessante nesse sentido é a rubrica de avaliação, que ajuda os(as) alunos(as) a entenderem o que se espera deles(as). Ela pode ser preenchida tanto pelos(as) estudantes quanto pelo(a) professor(a) para coletar as evidências de aprendizagem.

3ª etapa: planejar as experiências de aprendizagem

Na terceira etapa, a partir dessas evidências, ocorre o planejamento das experiências de ensino e aprendizagem. No exemplo, isso incluiria apresentar os conceitos sobre os grupos alimentares, revisar as recomendações do Ministério da Saúde, aprender sobre as necessidades humanas diárias de cada tipo de alimento, realizar entrevista com uma nutricionista e usar um capítulo do livro didático.

Como é importante que essas experiências sejam significativas para os(as) estudantes, podem ser usadas metodologias ativas, como rotação por estações, trabalhos em grupo e sala de aula invertida.

“Começamos então refletindo sobre os objetivos, depois pensamos nas evidências e, por fim, chegamos nas práticas pedagógicas: quais sequências de aprendizagem vou usar, ou seja, como vou apoiar os(as) estudantes para se engajarem, se desenvolverem e demonstrarem as grandes compreensões”, sintetizou Vivyane.

Ciclo do planejamento reverso ligando objetivos de aprendizagem, evidências e práticas pedagógicas.

De acordo com ela, os(as) professores(as) devem se questionar sobre o que os(as) estudantes saberão fazer a partir desse conhecimento. “Deve ser um aprendizado não só para fazer a prova ou passar no vestibular, mas um saber fazer, um saber para a vida. Esta é a grande provocação: estou planejando para ele(a) saber ou para compreender, viver e atuar neste mundo?”

Planejamento, flexibilidade e novas maneiras de educar: a experiência de uma escola

O Colégio Santa Maria Minas – Coração Eucarístico, em Belo Horizonte (MG), escola parceira da Geekie, tem inovado nas suas práticas e processos pedagógicos. “Sempre nos incomodou, mas por muito tempo usamos os índices dos livros didáticos que adotávamos como matriz de planejamento”, disse Sandra Castro, coordenadora pedagógica do 9º ano do Ensino Fundamental ao 3º ano do Ensino Médio.

“Saber aonde se quer chegar com o(a) aluno(a), traçar o caminho que será percorrido e ter a liberdade de organizar o currículo de acordo com aquilo que acreditamos e planejamos tem nos encantado.” Segundo ela, esse tipo de planejamento também dá a liberdade de fazer coisas diferentes no meio do caminho, como incluir atualidades.

Haroldo Queiroz, diretor do Colégio Santa Maria Minas, reforçou a importância de haver flexibilidade no planejamento e no professor, para enriquecer as aprendizagens. “Planejamento não são ‘trilhos’, mas ‘trilhas’ que podemos mudar durante o percurso se temos clareza dos nossos objetivos”, acrescentou a educadora Juliana Rita Magalhães, pelo chat da oficina no YouTube.

Na relação com as famílias, o diretor salientou ser comum que elas cobrem a escola a partir das experiências de ensino que tiveram e, por isso, é fundamental trazê-las para perto e mostrar, com transparência, qual é o objetivo dessas novas maneiras de educar, em que o aprender é mais importante que o ensinar. “A comunidade estudou em outra perspectiva, mas precisa entender as mudanças para nos ajudar a construir essa nova educação.”

“Precisamos considerar também que os familiares não têm nenhuma obrigação de entender toda essa mudança que está acontecendo na educação, então cabe à escola trazer essas informações e o que pretende. Tivemos resistência na escola, e uma das formas que encontramos para começar a vencer isso foi uma reunião com os pais, quando introduzimos a Geekie, chamada ‘Ventos da mudança’, já pensando também no Novo Ensino Médio”, explicou Sandra. “Precisamos cuidar da formação das famílias nesse sentido. Quando elas compreendem, elas se entusiasmam.”

Somos todos(as) aprendentes

Além das famílias, cabe à gestão da escola trabalhar essa mudança de paradigma também com os(as) professores(as). A educadora Nivia Carvalho, que também interagiu pelo chat, contou que fez uma formação recentemente com docentes que, assim como ela, tiveram uma educação tradicional.

Na hora de realizar uma dinâmica mais “mão na massa”, percebeu certa dificuldade: “Somos resultado de uma geração que estudava pela memorização, somente para fazer provas. Hoje, novas formas de aprender e ensinar exigem autonomia, participação, colaboração, enfim, habilidades que não tivemos oportunidade de desenvolver. Mas estamos aqui aprendendo, somos aprendentes”, comentou.

Para Haroldo, cabe à gestão incentivar a autonomia e o protagonismo dos(as) professores(as), que muitas vezes pautam o seu processo de ensino na forma como o tiveram na escola e na universidade. “Os(as) gestores(as) devem dar segurança para que os(as) docentes possam experimentar e fazer diferente. Se não, continuaremos reproduzindo a escola do século XIX e de antes da pandemia que precisamos transformar”, declarou.

“Precisamos trocar o pneu com o carro andando. Criar espaços temporais e de segurança emocional para que os(as) educadores(as) possam realizar essas ‘aventuras pedagógicas’ e experimentar o novo, se dar permissão para aprender fazendo. Muitos adultos e educadores(as), e o próprio modelo escolar, têm problemas com o erro”, afirmou o diretor.

“É preciso liberdade para os(as) professores(as) aprenderem. Já que temos que ensinar para os(as) alunos(as) aprenderem com o erro, os(as) professores(as) precisam ser livres para experimentar e errar também”, completou Nivia Carvalho, pelo chat. “É uma situação complexa. Como as famílias entenderiam o erro de um(a) professor(a)? É uma mudança de mindset do ecossistema escolar como um todo”, ponderou Haroldo.

Vivyane ressaltou que o planejamento também parte dos grandes objetivos da comunidade escolar. “Ter isso alinhado e mostrar para as famílias que somos uma comunidade de aprendentes é muito importante. Isso poderia ser incluído no projeto político-pedagógico da escola, por exemplo?”, provocou a coordenadora.

Planejamento reverso e o apoio da tecnologia

Sustentar essa mudança de cultura no dia a dia, como discutiram os educadores da oficina, pede acompanhar de perto como cada estudante avança. É aí que a tecnologia entra como aliada do professor: com dados de aprendizagem em tempo real, fica mais simples identificar quem já compreendeu e quem ainda precisa de apoio antes da próxima etapa.

Essa leitura contínua conversa com a segunda etapa do planejamento reverso, a das evidências. Em vez de esperar a prova final, o(a) professor(a) enxerga o progresso ao longo do caminho. A aprendizagem adaptativa segue essa lógica: o conteúdo se ajusta ao ritmo de cada estudante, respeitando os diferentes pontos de partida da turma.

O uso de inteligência artificial como apoio também amplia o alcance dessa personalização, incluindo recursos que adaptam questões para estudantes neurodivergentes, sempre sob a condução do educador.

Como começar a aplicar o planejamento reverso

Não é preciso transformar todo o currículo de uma vez. A recomendação de quem já usa a metodologia é começar pequeno: escolha uma única aula ou atividade, aplique as três etapas e observe o resultado antes de ampliar para sequências maiores.

O ponto de virada não está em ter mais recursos, e sim em inverter a pergunta inicial. Antes de pensar no conteúdo, defina o que a turma precisa compreender e como você vai perceber que ela chegou lá.

Se a sua escola quer apoiar os(as) professores(as) nessa mudança, com dados que sustentam decisões pedagógicas e formação continuada, conheça as soluções da Geekie e fale com um especialista!

Perguntas Frequentes (FAQ)

O que é planejamento reverso?

Planejamento reverso é uma metodologia de planejamento de aulas que parte do objetivo de aprendizagem, e não do conteúdo. O professor define primeiro o que os estudantes precisam compreender, depois como avaliar essa compreensão e, por último, as experiências de ensino que levam até esse objetivo.

Quais são as 3 etapas do planejamento reverso?

As três etapas do planejamento reverso são: identificar os resultados desejados (os objetivos de aprendizagem), determinar as evidências aceitáveis (como avaliar de forma contínua) e planejar as experiências de aprendizagem (as atividades e metodologias que conduzem ao objetivo).

Qual é o principal objetivo do planejamento reverso?

O principal objetivo do planejamento reverso é garantir que o estudante compreenda de verdade, e não apenas memorize conteúdo para a prova. Ao começar pelos resultados esperados, a metodologia mantém o foco no “saber fazer” e na aplicação do conhecimento na vida real.

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