Educação 4.0: o futuro é agora

Em seu novo artigo, Glauci Oliveira, designer pedagógica na Geekie, fala sobre a Educação 4.0 e a importância da intencionalidade pedagógica no uso de qualquer ferramenta em sala de aula

Como já chegamos na versão 4.0 da educação se nem vimos as demais passarem? Quais são as novidades dessa versão? Estamos falando de uma educação totalmente disruptiva em comparação ao que praticamos hoje, ou só estamos adicionando novos aplicativos a uma versão que já existe há décadas?

As respostas para todas as perguntas anteriores estão na frente de nossos olhos. Enquanto você lê esse artigo, seus dados de uso são registrados e enviados para diversas empresas responsáveis por armazená-los e distribuí-los às indústrias interessadas. O seu essencial assistente de bordo, como o Waze, que está sempre disponível para te indicar o melhor caminho, com as melhores rotas, para o lugar que você desejar ir, no momento que você quiser ir, também faz o mesmo com os seus dados. Não muito diferente da funcionalidade de ambos, temos os serviços de streaming que parecem conhecer com precisão suas preferências e gostos dentre milhares de séries e filmes disponíveis.

É a famosa Big Data e a Inteligência Artificial trabalhando em conjunto para te dar o que você deseja no momento em que você precisa – é o poder da personalização. Esses exemplos são apenas uma pequena parcela de como essas novas tecnologias já fazem parte das nossas vidas. O futuro é agora e já faz parte do nosso cotidiano.

Para além desses recursos tecnológicos, as inovações da Indústria 4.0, justificando a origem do termo “Educação 4.0”,  formam juntamente com a Internet das Coisas, a robótica e a nanotecnologia, os pilares das inovações tecnológicas do século XXI. Assim, o marco não é apenas industrial ou tecnológico, mas também social, e por tanto, educacional.

Quais os impactos dessas novas tecnologias para a educação?

Como uma das mais importantes instituições sociais das civilizações atuais, a escola não está imune às inovações tecnológicas. Não por sua capacidade de rápida modernização, pois sabemos que educamos crianças do século XXI com metodologias do século XIX. Mas sim pelas mudanças que as novas tecnologias geram nos seres humanos que compõem a comunidade escolar, em especial na figura de estudantes.

Martha Gabriel, um dos principais nomes no cenário de inovação tecnológica brasileiro, afirma que a medida em que a tecnologia muda, assim também nós nos modificamos como seres humanos, tanto em termos biológicos, como cognitivos e comportamentais. Segundo a autora de “Eu, Você e os Robôs”, “Os processos mentais que realizamos com o uso das novas tecnologias demandam novas conexões neurais, processos cognitivos que são cada vez mais complexos, à medida em que o mundo vai tornando-se igualmente complexo e imprevisível.” Novas formas de pensar agregam novas formas de interação e, por isso, demandam novas habilidades. Não à toa, em 2001, Prensky já chamava de “nativos digitais” as crianças nascidas na era dominada pelas Tecnologias Digitais da Informação e da Comunicação (TDIC).

Dentre as maiores demandas sociais, incluindo o mundo do trabalho, está a necessidade de um capital humano capaz de pensar criticamente e de forma sistêmica, em meio a era das pós-verdades e fake-news que insistem em desafiar a verossimilhança científica. Assim, a inteligência deixa de ser uma medida baseada em testes de QI unicamente, e passa a assumir múltiplas dimensões, em torno da capacidade de projetar e resolver problemas.

Dessa forma, um dos principais impactos das novas tecnologias para a instituição escolar está nas novas necessidades dos e das estudantes, na forma diferente que costumam pensar e na grande afinidade que eles possuem quanto às tecnologias que permeiam a cultura digital. Nossos e nossas estudantes já mudaram, por isso, não podemos insistir nos mesmos métodos de ensino e aprendizagem. Há uma forte necessidade de inovação educacional, não apenas em termos de acesso tecnológico, mas também didático. O que nos leva a pensar em um outro importante impacto das novas TDIC para a educação: a forma que ensinamos e como esperamos que nossos e nossas estudantes aprendam.

Tecnologia educacional sem intencionalidade pedagógica é mero modismo

Apesar de ser um lançamento das últimas duas décadas, a versão 4.0 da educação tem raízes num passado não tão distante, e que ainda se faz presente: o desafio da escola em inovar. Essa necessidade de inovação, no entanto, não acontece com a simples adesão de softwares e tendências do mercado da educação. A inclusão de novos recursos tecnológicos sem que haja uma real intenção pedagógica tornará a mais sofisticada plataforma de ensino em algo inútil e sem sentido. No fim, será dinheiro e tempo jogados fora. Por isso, o maior recurso que dispomos em termo de inovação são as pessoa e suas habilidades de fazer um uso consciente e criativo das tecnologias e dos dados gerados por estas.

No contexto escolar, é esperado de docentes, gestores e gestoras a capacidade de atribuir valor, sentido pedagógico, às ferramentas tecnológicas que a escola dispõe ou venha a adquirir. É seguro afirmar, portanto, que os impactos das novas tecnologias para a escola não estão apenas na figura de estudantes, mas também dos professores e professoras, que passam a ser responsáveis por propiciar situações de ensino e aprendizagem mais ativas e colaborativas, que permitam o uso consciente e intencional das tecnologias bem como das informações que elas transmitem.

Por isso, é cada vez mais frequente ouvirmos falar de metodologias ativas, com foco no desenvolvimento de habilidade e competência do século XXI, quando falamos de educação 4.0. No fim, o que todos estão falando é: dado o contexto atual de desenvolvimento tecnológico, a escola tem como desafio formar cidadãos capazes de trabalhar colaborativamente e criticamente no desenvolvimento de seus projetos individuais, sociais e profissionais, tendo a tecnologia e os processos tecnológicos como ferramentas que permeia m e mediam o desenvolvimento dos(das) estudantes.

Referências usadas neste artigo e para aprofundar os conhecimentos:

  • PERNSKY, Marc. Digital Natives, Digital Immigrants Part 1: On the Horizon, Vol. 9, N: 5. 2001
  • PASSARELLI, Brasilina. Os Nativos Digitais no Brasil. 2014
  • BACICH, Lilian, MORAN, José. Metodologias Ativas para uma Educação Inovadora. 2017


*Glauci Oliveira é licenciada em Ciências Biológicas pela UFRPE e Macquarie University, mestranda em Educação pela Faculdade de Educação da USP (FEUSP), dentro da área de Letramento Científico, Matemático e Tecnológico, sob orientação do Professor Agnaldo Arroio. É integrante do projeto Desenvolvimento Educacional de Multimídias Sustentáveis (DEMULTS), que tem como principal objetivo estimular o uso das Tecnologias de Informação e Comunicação no âmbito escolar, por meio de metodologia participativas. Na Geekie atua como designer pedagógica do Geekie One.

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