No dia 22 de agosto, comemoramos o Dia do Folclore. Para além do trabalho com lendas e cantigas populares, a data é uma boa oportunidade para explorar com os(as) alunos(as) a riqueza e a diversidade da cultura popular brasileira. O objetivo é mostrar que o folclore é algo vivo, produzido até hoje, e que faz parte do nosso dia a dia.
A abordagem da temática não deve se restringir à data comemorativa e pode acontecer ao longo de todo o ano letivo. Neste texto, você vai entender o que é folclore, de onde vem essa palavra, o que diz a BNCC sobre o tema e como explorá-lo em cada etapa da Educação Básica, da Educação Infantil aos Anos Finais do Ensino Fundamental.
O que é folclore e de onde vem essa palavra?
Folclore é o conjunto de manifestações artísticas, culturais, literárias, musicais e de saberes, superstições e tradições de um determinado povo, transmitidas sobretudo pela oralidade, de geração em geração.
Nayre Carolina Gomes Luz, mestre em História e editora de conteúdo do componente curricular para os anos iniciais do Ensino Fundamental da Geekie Educação, lembra que “folclore” é uma palavra traduzida do inglês folk (povo) e lore (saber). Assim, o termo se refere ao conjunto de manifestações de um determinado povo.
Essa etimologia tem uma origem bem datada: o termo folklore foi cunhado pelo pesquisador britânico William John Thoms, em uma carta publicada na revista The Athenaeum, em 22 de agosto de 1846. Não por acaso, essa é a data escolhida para o Dia do Folclore no Brasil, oficializada pelo Decreto nº 56.747, de 17 de agosto de 1965, em homenagem direta a essa origem.
A editora, que também já atuou como professora da rede pública de São Paulo, explica que, segundo a perspectiva de estudiosos do tema, o folclore apresenta um caráter dinâmico, já que pode sofrer adaptações e reelaborações para cumprir funções no presente.
“Ao demonstrar aos(às) estudantes que a cultura popular é viva e, portanto, está sempre sujeita à interação com o tempo e com a sociedade contemporânea, eles(as) podem sentir-se pertencentes a um determinado grupo social. E também serem sujeitos ativos da cocriação de uma determinada cultura que, apesar de apresentar uma tradição, também está sujeita a novas contribuições, numa relação dinâmica de reciprocidade”, afirma.
O folclore na BNCC e na Carta do Folclore Brasileiro
Ao mencionar conhecimentos historicamente construídos, assim como valorizar, fruir e participar de diversas manifestações artísticas e culturais, a Base Nacional Comum Curricular (BNCC) toca em pontos que se relacionam diretamente ao estudo da cultura popular e do folclore. Isso está presente nas competências gerais da Educação Básica:
-
Competência 1: Valorizar e utilizar os conhecimentos historicamente construídos sobre o mundo físico, social, cultural e digital para entender e explicar a realidade, continuar aprendendo e colaborar para a construção de uma sociedade justa, democrática e inclusiva.
-
Competência 3: Valorizar e fruir as diversas manifestações artísticas e culturais, das locais às mundiais, e também participar de práticas diversificadas da produção artístico-cultural.
“Ao discutir sobre a composição étnica da população brasileira ou explicar a realidade a partir de diferentes pontos de vista, é possível desenvolver nos(as) estudantes a capacidade crítica de compreensão do meio onde se vive”, exemplifica a editora. “E ao valorizar e participar de manifestações artísticas e culturais, os(as) alunos(as) também têm a possibilidade de sentirem-se pertencentes ao grupo social do qual fazem parte”, completa.
A Carta do Folclore Brasileiro
Muito antes da BNCC, a importância de trabalhar esses aspectos na escola já estava presente na Carta do Folclore Brasileiro, elaborada em 1951 a partir das discussões iniciadas por intelectuais como Mário de Andrade, Heitor Villa-Lobos e Câmara Cascudo.
O documento, revisto em 1995, previa:
-
Considerar a cultura trazida do meio familiar e comunitário pelo aluno no planejamento curricular, com vistas a aproximar o aprendizado formal e não formal;
-
Envolver os educadores de diferentes matérias em torno do folclore, considerando-o um amplo campo de ação para a prática da multidisciplinaridade.
Abordagens do folclore em diálogo com a vida dos estudantes
As manifestações populares são carregadas de história, memória e religiosidade, ressaltando a contribuição de diferentes povos e culturas que ajudaram a formar a nossa identidade.
“Essas lendas, cantigas e festas também mostram que existem diferentes maneiras de se relacionar com o meio em que se vive, possibilitando que os(as) alunos(as) possam exercer o respeito a outras culturas“, ressalta Nayre.
Exemplos práticos para a sala de aula:
-
Lenda do guaraná: Permite trabalhar aspectos da cultura de povos indígenas da Amazônia, como a religiosidade e a flora local.
-
Festa do Boi-bumbá: Apresenta a história das regiões Norte e Nordeste do Brasil e as estratégias encontradas por povos indígenas e africanos para manterem vivas suas tradições religiosas no período da colonização.
-
Migrações regionais: Possibilita explorar o deslocamento de pessoas da região Norte para outros estados e como a festividade do Boi-bumbá passou a integrar o calendário cultural de várias cidades.
-
Música erudita e popular: O maestro Heitor Villa-Lobos incorporou temas indígenas e folclóricos em suas obras clássicas na década de 1930, mostrando o diálogo entre a cultura popular e a erudita.
Como trabalhar o folclore em cada etapa da Educação Básica
1. Educação Infantil
O eixo norteador nessa etapa é a terceira competência geral da BNCC, focando na construção da identidade do estudante e no respeito às diferenças. A abordagem deve estar alinhada aos direitos de aprendizagem (conviver, brincar, participar, explorar, expressar e conhecer-se) e ao campo de experiência “o eu, o outro e o nós”.
“Trabalhamos cantigas de roda, musicalidade, brincadeiras, adivinhas e atividades artísticas para representar algo da cultura regional. Usamos textos curtos para contação de histórias para que entendam a origem da tradição passada de geração em geração”, conta Juliana Pavoni, pedagoga e editora de conteúdo na Geekie Educação.
2. Anos Iniciais do Ensino Fundamental
Nesse ciclo, o folclore é uma ferramenta de conhecimento da cultura popular brasileira e sua relação com a história e a memória de grupos sociais:
-
1º ano (História): No estudo sobre costumes locais, exploram-se festividades brasileiras e a noção de pertencimento a grupos sociais.
-
3º ano (História): Ao abordar a contribuição dos povos africanos, apresenta-se a origem da capoeira e seus instrumentos. Os alunos trabalham aspectos artísticos cantando a tradicional canção “Marinheiro só”.
-
4º ano (Artes): A análise das festas populares, como a Folia de Reis, permite investigar a relação com a religião cristã e a história de estados como Minas Gerais, Espírito Santo e Goiás.
3. Anos Finais do Ensino Fundamental
Na última etapa do Fundamental, o folclore aborda a formação social heterogênea do Brasil e a interculturalidade:
-
Habilidade EF06HI08: Permite identificar os aportes culturais e sociais dos povos originários do Brasil, mostrando que o folclore ganha diferentes nuances de acordo com a regionalidade.
-
Habilidade EF08HI20: Relaciona as estruturas sociais atuais aos legados da escravidão e discute a importância de ações afirmativas e processos imigratórios do século XIX.
10 Brincadeiras folclóricas para usar em sala de aula
Além de lendas e cantigas, as brincadeiras populares são uma porta de entrada acessível para o folclore. As mais conhecidas no Brasil incluem:
-
Amarelinha: Trabalha coordenação motora e sequência numérica.
-
Pular corda: Une ritmo, movimento e cantigas populares.
-
Cabra-cega: Desenvolve orientação espacial e confiança no grupo.
-
Passa-anel: Estimula a atenção e observação coletiva.
-
Boca de forno: Envolve regras, obediência e imaginação.
-
Corre-cotia: Trabalha agilidade e integração em roda.
-
Escravos de Jó: Cantiga de mão que desenvolve ritmo e memorização.
-
Pião: Permite discutir a confecção artesanal de brinquedos.
-
Bila (ou gude): Trabalha pontaria, cálculo de distância e regras.
-
Cirandas: Unem música, dança e roda, com variações regionais.
Essas brincadeiras não têm autoria conhecida e foram transmitidas oralmente. Propor que os estudantes pesquisem as versões utilizadas por suas famílias é uma forma simples de conectar o conteúdo à vivência da comunidade.
Conclusão
O folclore vai muito além de uma data no calendário escolar. É um material vivo que oferece à escola um caminho para unir currículo, identidade e afeto na mesma atividade.
Trabalhado ao longo de todo o ano letivo, o tema permite que cada etapa da Educação Básica encontre sua própria porta de entrada, seja pela brincadeira na Educação Infantil, pela festividade regional nos Anos Iniciais ou pela discussão sobre formação social nos Anos Finais.
O próximo passo é simples: escolha uma lenda, uma cantiga ou uma brincadeira da região da sua escola e pergunte às famílias como elas a conhecem. É nesse encontro entre currículo e comunidade que o folclore ganha sentido de verdade.
Quer levar o estudo do folclore e da cultura popular para a sua escola com um material didático que já integra a BNCC de forma prática e inovadora? Fale com um especialista da Geekie e descubra como o Geekie One pode transformar a rotina pedagógica da sua instituição.
Perguntas frequentes sobre o folclore (FAQ)
O que é folclore?
Folclore é o conjunto de manifestações culturais de um povo, como lendas, cantigas, danças, brincadeiras, festas, crenças e saberes, transmitidas sobretudo pela tradição oral, de geração em geração. A palavra vem do inglês folk (povo) e lore (saber), criada em 1846 pelo pesquisador britânico William John Thoms.
Como trabalhar o folclore em sala de aula?
O folclore pode ser trabalhado por meio de lendas, cantigas, danças e brincadeiras populares, sempre conectando o conteúdo à vivência dos(as) estudantes e às competências da BNCC. O ideal é não restringir o tema à data comemorativa de 22 de agosto e trabalhá-lo ao longo do ano, com abordagens diferentes para cada etapa da Educação Básica.
Quais são as brincadeiras folclóricas mais conhecidas?
Entre as brincadeiras folclóricas mais conhecidas no Brasil estão amarelinha, pular corda, cabra-cega, passa-anel, boca de forno, corre-cotia, escravos de Jó, pião, bila (ou gude) e cirandas. Muitas variam de nome e regra conforme a região do país.