Combinado pode sair caro, sim

Nossa vida é feita de regras e é na escola que nos deparamos com as primeiras, algumas mais restritivas outras menos. Não sou contra regras, mas sim contra (e muito) a não explicação delas – o famoso “Faça o que eu mando!” sem perguntar o porquê

Suponha que determinada escola tenha como regra que todo o corpo de estudantes deve entrar em seus domínios trajando luvas. Norma absurda? Talvez, mas, no ato da matrícula, familiares são informados disso, assinam um termo de responsabilidade e se comprometem a sempre enviarem as crianças e adolescentes para as aulas com as mãos cobertas. Antes de o ano letivo começar, é enviado para as residências das famílias um lembrete da obrigação. 

Primeiro dia de aula e um fiscal está na porta da escola olhando se todo mundo está usando luvas. Ali, uma criança chega com as mãos envoltas em panos. A família chegara da viagem de férias na véspera e não tivera tempo de comprar as benditas luvas. Tudo bem! As mãos estão cobertas, e essa é a regra. Todo mundo reunido no pátio, e o diretor reitera a regra, afirmando que, diariamente, haverá pessoas fiscalizando, mas que todos eram responsáveis por zelar pela norma escolar de não mostrar as mãos.

Eis que num dia quente lá por meados de maio, um jovem resolve tirar as luvas porque estava com calor. “Meu jovem, por que você tirou as luvas?”, pergunta um fiscal já com ar inquisitório. “Porque está muito quente”, responde o jovem que ainda completa: “Além do mais, essa é uma regra sem sentido. Por que nós temos de usar luvas?”. “Porque é a regra”, explica o fiscal. “Mas, por que a regra existe?”. “Para ser cumprida”. “Mas, por quê?”. Esse é um diálogo que nunca terá fim.

O que as escolas não fazem com suas regras

Toda escola tem suas regras. Se elas fazem sentido ou não, é outra história, mas elas existem, precisam ser respeitadas e sempre há quem as fiscalize e quem puna, caso não sejam cumpridas. O que há em poucas escolas é a explicação das regras. Existe certa ilusão coletiva de que crianças e adolescentes entenderão no futuro o motivo de haver esta ou aquela norma, como se não fossem incapazes de compreender no presente a razão de existirem determinados tópicos no estatuto escolar. Na minha experiência em escolas, seja como aluno, seja como professor, tive de enfrentar algumas regras que, até hoje, mesmo depois de “grande”, não consegui entender. Seguem alguns exemplos:

  • não pode responder prova com caneta vermelha;
  • não pode sair para beber água ou ir ao banheiro no meio da aula;
  • meninos não podem ter cabelo grande;
  • meninas não podem usar brincos pendurados;
  • é proibido usar boné ou chapéu na sala.

Esses são só alguns exemplos que eu tive de enfrentar. É claro que há regras que, à época, eu não entendia, mas hoje entendo, como “não pode correr quando passar na frente de uma sala em aula”. Isso tira a atenção das pessoas, além de ser um risco para quem corre em um corredor estreito. O que me incomodava (e talvez ainda me incomode um pouco) é a falta de entendimento da regra. Se alguém tivesse chegado para mim e me explicado, muito provavelmente eu teria entendido; entretanto, o que ocorria era apenas uma repreensão ríspida, geralmente aos gritos, dizendo “é proibido correr aqui” ou “lugar de correr é no pátio”. “Mas, eu estou no CORREdor”, pensava eu, já prevendo meus estudos linguísticos.

Os combinados que valem a pena

Não sou contra regras. Seria muita irresponsabilidade da minha parte dizer que as crianças e jovens que frequentam escolas já vêm de casa com uma política moral digna de exemplo. Porém, sou contra não explicar as regras. Sou contra apenas dizer que isso é assim e pronto.

Nas disciplinas eletivas recomendadas pela Geekie, docentes recebem uma formação, na qual se ensina a levantar com a turma alguns combinados, os quais podem variar de turma para turma. Um combinado de escuta ativa, por exemplo, pode exigir que todos façam silêncio. Para isso, a pessoa que facilita a discussão, em geral o professor ou a professora, levanta a mão indicando que precisa de atenção. Quem vê a mão levantada, se cala e também levanta a mão, até que todos estejam com as mãos levantadas e o silêncio esteja estabelecido. Isso precisa estar combinado com antecedência e pode ser de grande ajuda para a turma e para a condução da aula.

Quando a regra é explicada, fica muito mais fácil de ser respeitada; quando ela é imposta, é muito mais desejável descumpri-la, especialmente quando ela não faz o menor sentido. Recentemente, vi uma notícia sobre o estudante DeAndre Arnold, prestes a se formar em uma escola do Texas, nos Estados Unidos, mas estava sendo impedido de participar da sua cerimônia de formatura se não cortasse seus cabelos compridos e com dreads. Negro e descendente de latinos (sua família é de Trinidad), ele explicou que faz parte de sua cultura, mas a escola ficou irredutível. Qual a razão da regra? Ninguém explicou, apesar da comoção nacional.

Em geral, quem participa da construção da regra tem muito mais afinco em cumpri-la. Se estudantes não podem participar da construção dos combinados, que ao menos sejam explicadas as razões pelas quais as normas foram criadas e quais as possíveis consequências práticas (e não as punições) caso elas não sejam obedecidas. Dessa maneira, a escola será um ambiente muito mais lógico para quem a frequenta e os combinados serão de grande valor (bem caros) para todo mundo, e não apenas para um conjunto de pessoas que só quer reproduzir as imposições do passado.

Selecionei um vídeo que represente bem o que quis dizer neste texto. Veja:

* Érick Nascimento é Gerente editorial do Geekie One, formado em Letras pela UFC e tem mestrado em Literatura Comparada pela mesma instituição. Após anos de experiência na sala de aula, na qual atuou desde o Ensino Infantil até o Ensino Superior, tornou-se coordenador pedagógico-editorial em um sistema de ensino. 

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