Pensamento científico: estrutura de análise para todas as áreas do conhecimento

Desde que o pensamento científico entrou no ensino básico, na segunda metade do século XIX, ele vem promovendo o desenvolvimento de uma série de competências. Atualmente com a BNCC, um dos objetivos é estimular a curiosidade intelectual e ajudar a estrutura do pensamento em hipóteses e objetivos, assim como ocorre na produção científica

Seria um equívoco afirmar que a inserção do pensamento científico nas escolas é uma estratégia deste século, uma vez que o ensino básico se apropria de aspectos do pensamento e do fazer científico desde o século XIX. Para tornar possível entender qual foi o caminho percorrido para que esses aspectos se convertessem em um dos pilares da Base Nacional Comum Curricular (BNCC) de um país tão grande e plural como Brasil, farei um breve histórico.

A ideia de introduzir aspectos do pensamento científico e das práticas da ciência no ensino básico tem início na segunda metade do século XIX, em conjunto com a defesa da adoção de atividades experimentais na educação. A vivência da ciência experimental em laboratórios escolares permitia aos alunos experienciar características próprias da ciência como a autonomia de pensamento, a elaboração de generalizações, a criatividade e o tratamento de dados reais, atribuindo aos estudantes um papel mais ativo na construção de seu conhecimento escolar. 

Já no início do século XX houve uma forte mudança de perspectiva das práticas científicas na escola em razão dos avanços tecnológicos e científicos alcançados e que alteraram significativamente os meios de produção, as novas tecnologias nos meios de comunicação, a medicina e diversas outras áreas. Assim, este período caracteriza-se por uma mudança no âmbito das práticas científicas escolares, que passaram a enfocar mais os valores sociais e coletivos e menos os valores individuais e intelectuais. Sob a influência dessas mudanças, o filósofo John Dewey e diversos outros pesquisadores defendiam um ensino básico pautado na investigação e focado no desenvolvimento de habilidades para a resolução de problemas específicos com significado social.
Já no Brasil, para a educação, a década de 1980 ficou marcada pela adaptação do ensino básico às exigências do mercado, com o objetivo de formar mão de obra qualificada em razão do forte processo de industrialização sofrido no país.

Esta breve revisão dos séculos passados evidencia como os diferentes contextos sociais e históricos, além das necessidades geradas por eles, relacionam-se com o ensino e as práticas de sala de aula. 

Neste contexto surgem diversos documentos oficiais com o objetivo de inovar as diretrizes da educação básica brasileira na direção de uma educação que seja preparadora básica para o trabalho e o exercício da cidadania, de maneira a desenvolver no indivíduo a formação ética, a autonomia intelectual e o pensamento crítico. Os novos documentos oficiais propõem o desenvolvimento de competências gerais indicando uma extrapolação do ensino tradicional, pela possibilidade de formação de uma cultura científica escolar, com o estabelecimento de relações mais sólidas com o contexto social, histórico e tecnológico e com a compreensão da dinâmica entre desenvolvimento científico e o homem. 

Ao passo que as relações entre ciência e sociedade mudaram, os objetivos acerca do ensino também o fizeram. Sendo assim, o pensamento científico traz à luz práticas próprias da ciência que se valem como abordagens didáticas para o desenvolvimento de diversos componentes curriculares. Do grande conjunto de práticas próprias da ciência, a investigação é a prática que traz diversos elementos passíveis de extrapolar as ciências da natureza para todas as outras áreas do conhecimento. Dentre esses elementos, destacamos: situações-problema a serem analisadas, a elaboração de hipóteses, possíveis coletas e/ou interpretações de dados, além da análise e da comunicação de resultados

Os elementos destacados acima fazem parte das práticas da ciência que podem ser alocadas em diversas disciplinas escolares por meio de uma abordagem investigativa, já que a investigação em sala de aula deixou de ser exclusivamente a operacionalização e reprodução de experimentos em laboratório, ganhando um significado mais amplo e possibilitando a relação entre sujeito, ambiente, contexto social, polícia, entre outros elementos. 

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Uma ideia estruturada e posta à prova

A proposição de um problema ou de uma situação-problema é a porta de entrada para que a investigação ocorra em sala de aula. Isso representa um convite que incentiva os estudantes a olharem para problemas do mundo elaborando estratégias e planos de ação. O processo de resolução de um problema a partir de uma abordagem investigativa pretende levar o aluno e a aluna a ultrapassar o apenas conhecer e compreender conhecimentos e conceitos já sistematizados, também libertando-o(a) para possibilidades de uso de sua criatividade, uma vez que a criatividade é considerada, por muitos pesquisadores, um fenômeno multidimensional. 

Os aspectos que estimulam a criatividade são de natureza social, cognitivos, afetivos, ambientais de alta relevância para o indivíduo e vão ao encontro dos aspectos que permeiam as práticas investigativas para a resolução de problemas abertos ou de situações-problema. Além disso, a abordagem investigativa no ensino básico promove e instiga o trabalho em conjunto entre os alunos e entre os alunos e o professor, colocando o estudante como protagonista durante o processo investigativo. 

Outro ponto relevante desta estratégia pedagógica está no estímulo à curiosidade intelectual de estudantes e em muni-los com metodologias adequadas para a construção de um conhecimento bem estruturado. Para além do pensamento científico, crítico e criativo, essa competência também colabora com a tão necessária autonomia do indivíduo. Conhecimentos prévios começam como ideias, se transformam em hipóteses e terminam como uma certeza baseada em um estudo minucioso das características, dos conceitos e das particularidades de um saber. Em uma era de desinformação, com quantidades enormes de notícias que disputam a nossa atenção a todo segundo e o perigo das fake news nas tomadas de decisão no dia a dia, estudantes que aprendem por meio do desenvolvimento desta e das demais competências terão uma visão mais plural, holística e sólida de como o mundo ao seu redor é construído.

Ademais, e como destacado aqui, essa competência não compete única e exclusivamente às disciplinas de Ciências do Ensino Fundamental ou Física, Química, Biologia e Matemática do Ensino Médio. Estudantes têm a possibilidade de se aproximar de uma visão científica que perpassa todas as áreas do conhecimento e está na base dos saberes que fazem parte do processo de aprendizagem de toda e qualquer escola. É, portanto, uma aproximação de um processo acadêmico de construção do conhecimento, calcado em bases sólidas desenvolvidas ao longo de séculos de pesquisa, testes, elaboração de hipóteses e busca de comprovações e soluções. Sendo assim, lançar um olhar sobre uma ideia e submetê-la à investigação aqui proposta é também um processo de análise crítica de sua validade. 

Estas características da abordagem investigativa vêm, de maneira harmônica, ao encontro da segunda competência geral elencada pela BNCC. Esta competência, então, tem como premissa práticas investigativas que pretendem levar o aluno a ultrapassar o mero conhecer e compreender conhecimentos e conceitos já sistematizados e consolidados. A investigação pode servir de estratégia para que haja em sala de aula o confronto de ideias e perspectivas por meio da linguagem e da argumentação, fomentando a criticidade e a criatividade dos estudantes na resolução de problemas atuais.

* Mayara Palmieri é licenciada em Física pela Universidade de São Paulo (IFUSP) e mestre em Educação também pela Universidade de São Paulo (FEUSP), na área de Ensino de Física por Investigação, sob a orientação da Professora Doutora Lúcia Sasseron. Lecionou Física e Matemática na rede estadual de educação e atualmente é professora de Física para o Ensino Médio na rede particular de ensino. É editora de conteúdo da Geekie no time de Ciências da Natureza.

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