Observação de aulas: como romper resistências e criar um ambiente de formação seguro e valioso para a equipe docente?

A observação de aulas é parte essencial de um ciclo formativo significativo; porém, pode causar desconfortos. Conheça algumas estratégias para entrar em sala de aula com transparência, apoio e encaminhamentos construtivos

Quando falamos de apoiar transformações profundas na trajetória da escola, pensamos em formar, orientar e acolher pessoas. Ainda que a tecnologia digital seja o ponto de partida ou mesmo uma importante norteadora deste processo de mudança, a Geekie entende que ela se torna significativa no momento em que conseguimos compreender e ajudar a desenvolver a escola naquilo que ela sonha para si mesma – ou seja, facilitando suas rotinas já existentes, trazendo abordagens e metodologias que complementem sua missão e valores, despertando olhares que solucionem desafios presentes. 

cta ebook dados e evidências

Para isso, além da plataforma, oferecemos uma jornada formativa que engloba a gestão escolar e a equipe docente. Neste cenário, a observação de aulas surgiu como uma estratégia tanto para alcançar este conhecimento profundo da realidade escolar, como com um caráter de formação contínua, que nos possibilitaria devolutivas mais específicas, contextualizadas e realistas para cada professora ou professor parceiro; tornando, portanto, nossos contatos muito mais valiosos para a prática docente. Encontramos, contudo, um contexto que pode soar bastante familiar à direção e coordenação pedagógica: equipes receosas, eventualmente relacionando a observação de aulas a um momento punitivo ou constrangedor, visando apontar falhas ou com poucas possibilidades concretas de crescimento. 

Abrir as portas da sua sala para a observação de aulas é de fato uma atitude de confiança e vulnerabilidade. Como tal, precisa ser planejada e articulada com respeito, visando sempre o bem-estar e o desenvolvimento da pessoa que está sendo observada. Portanto, podemos dizer que a primeira ação que sugerimos a você, responsável por formar sua equipe docente, é reconectar-se com o propósito desta prática: você está entrando na sala de aula pelos motivos certos? Você se sente comprometida(o) com o crescimento profissional daquela professora ou professor? Você tem hoje o equilíbrio e a abertura para acolher suas dúvidas, erros e pedidos de ajuda? Caso a resposta seja negativa, pode ser uma boa tirar alguns minutos para aguçar essas percepções.

Além do exercício acima, há uma série de estratégias e recursos mais palpáveis que podem apoiar a observação de aulas na sua escola – o convite é para ampliar seu repertório, provocar algumas novas conexões e, então, inserir na sua prática apenas aquilo que faz sentido dentro da sua realidade!

Antes da observação de aulas: como planejar?

Pense em preparar uma observação de aulas assim como se planeja uma aula ou sequência didática. Aqui na Geekie, isso significa começar pelo objetivo, delimitando o que espero da minha equipe docente e onde pretendo chegar. Ter um objetivo claro vai facilitar dois processos: primeiro, vai direcionar seu olhar na elaboração de um roteiro de observação e, em segundo, vai permitir que você explique com clareza à equipe o porquê de estar assistindo suas práticas. 

A elaboração do roteiro pode seguir formatos diversos de acordo com a sua necessidade. Nós aplicamos um roteiro baseado em rubricas avaliativas, descrevendo níveis de habilidades e proficiências em alguns temas centrais. Por exemplo:

Experiência de aprendizagem versus Maturidade de uso.

A vantagem da rubrica é que ela dá clareza à pessoa avaliada quanto ao que se espera dela e o que ela precisa exercitar ou dominar para avançar de um patamar a outro. O exemplo acima é apenas um recorte de uma rubrica mais extensa utilizada em nossas experiências de observação de aulas, porém, ela pode ser adaptada para diversos critérios que sejam relevantes na sua instituição: como o uso de práticas ativas, o uso de tecnologia digital, a gestão da turma, a aplicação de avaliações, etc. 

É importante que os objetivos sejam definidos de acordo com a pauta formativa da escola; ou seja, alinhados aos temas que vêm sendo tratados recentemente em reuniões pedagógicas, workshops ou cursos promovidos para sua equipe. Afinal, é esta linha condutora que tornará a observação de aulas coerente e propositiva; ela vai gerar insumos para que você perceba como seus docentes absorveram a aplicaram os temas discutidos e quais lacunas precisam ser acessadas para que cheguem ao lugar desejado. 

Lembre-se de comunicar às professoras e professores sobre a observação de aulas com antecedência, deixando claro seu caráter formativo, e inclusive compartilhando a rubrica e as diretrizes que serão utilizadas, dando mais conforto e segurança ao momento.

Durante a observação de aulas: o que anotar?

Chegou o momento de entrar em sala de aula e, conforme o esperado, você vai adentrar um ecossistema vivo e complexo, em que deve acontecer muito mais do que apenas aquilo que você se propôs a acompanhar: estudantes interessados ou fazendo bagunça, a pergunta inesperada durante uma explicação do tema, a criança de ficou doente, a internet que oscilou durante uma projeção. Acontece. Entretanto, leve seu foco aos pontos centrais de sua visita, àquilo que você de fato precisa saber.

Para isso, deixamos a rubrica de lado (ela será retomada mais tarde) e focamos no registro de evidências. Quer dizer que, no momento da observação de aulas, não fazemos nenhum julgamento nem chegamos à nenhuma conclusão: apenas descrevemos o que vemos, sem nenhuma inferência ou interpretação de valor. Por exemplo:

Dispense sua total atenção para o registro de evidências claras durante o período da aula. É importante não interferir, não interromper a professora ou professor em suas conduções, inclusive sentando-se em um local “invisível” – no fundo ou no canto da sala. Quando a aula terminar, agradeça e agende ou relembre qual será a data e horário da sua devolutiva, mostrando desta forma que a observação de aulas foi intencional e terá encaminhamentos.

Depois da observação de aulas: como realizar devolutivas valiosas?

Reserve um momento de trabalho individual antes de dar um retorno aos seus professores e professoras. Ter esse espaço de reflexão é essencial, pois permite que você repasse seus registros e elabore perguntas a partir do que observou: O que não ficou claro? O que pode ter sido feito antes da aula ou na aula anterior, que eu não observei e que pode justificar algum acontecimento? Qual era o objetivo de determinada metodologia ou atividade? Como aquela professora ou professor reflete sobre a própria prática, como avalia sua própria atuação? Uma boa dica no momento da elaboração das perguntas é evitar aquilo que possa ser respondido com “sim” ou “não” – pergunte como, por quê – e fugir de afirmações disfarçadas de perguntas – “Então, você não preparou aquela atividade com antecedência, não é?”. As perguntas são uma oportunidade de esclarecer e investigar pontos que possam influenciar seu feedback.

Com as perguntas em mãos, assim como a rubrica (não se esqueça dela!), chegamos ao momento de encontro. A regra aqui é falar menos e escutar mais, propondo-se a compreender realmente aquilo que a outra pessoa está comunicando. Caso não tenha certeza, confirme, repetindo com suas próprias palavras – chamamos essa técnica de checagem ou paráfrase. 

O momento da devolutiva talvez seja o mais desafiador, tanto para manter o clima aberto e acolhedor, quanto no cuidado necessário para manter uma atenção plena e uma escuta ativa; é importante olhar nos olhos, desligar o celular e não anotar muitas coisas durante a fala (se sentir que precisa anotar algo, registre apenas palavras-chave). Em vez disso, ao final da conversa, proponha que preencham juntos a rubrica, incentivando a autorreflexão e dando clareza, a partir dos níveis descritos no seu instrumento avaliativo, de como cada membro da sua equipe pode melhorar. 

Além disso, percebemos que ter algumas ações combinadas dentro de um espaço de tempo definido aumentam o comprometimento e ajudam a manter o ritmo de formação dentro da escola. Por exemplo:

Por fim, não deixe que a observação de aulas seja uma iniciativa única e sem continuidade. Pergunte se a professora ou professor precisa de ajuda para realizar alguma das ações contratadas, reforce os combinados e, se possível, apoie a formação da equipe docente entre uma observação e outra. Desta forma, estamos trabalhando para dois objetivos: tracionar a jornada de transformação da escola e nutrir uma cultura de transparência, segurança e aprendizado constante.

* Marcela Lorenzoni é líder da Consultoria Pedagógica da Geekie, especialista em Gestão da Educação no Novo Milênio pelo Instituto Singularidades e bacharel em Comunicação Social pela PUC-PR. Antes de entrar no universo de startups de tecnologia educacional, foi professora de inglês em escolas de idiomas, escolas particulares e no exterior. É apaixonada por protagonismo estudantil, tema que discutiu no Ecosoc Youth Forum, na sede da ONU em Nova York.

Leia outros artigos de Marcela Lorenzoni:

Compartilhe
Compartilhar no facebook
Compartilhar no twitter
Compartilhar no linkedin
Compartilhar no pinterest
Bitnami