“O maior desafio em inovar na educação é convencer as pessoas de que você não está ‘enrolando’”

Leonardo Freitas, novo colunista do InfoGeekie, sempre sonhou em ser professor. Mas também sempre teve em mente que, para um jovem, ficar várias horas sentado em uma carteira assistindo a uma aula expositiva não deve ser nada fácil. Ao se ver completamente entediado enquanto via uma palestra sobre inovação educacional – ironicamente, no mesmo formato das aulas tradicionais –, ele teve certeza: não dá mais para ser assim.
Leonardo começou com coisas mais simples, como músicas ou memes envolvendo o conteúdo das aulas, até que resolveu aprender programação e técnicas de storytelling – sempre buscando formas de envolver os alunos com o conteúdo. Com 16 anos de experiência dando aulas para todos os anos, do fundamental I ao ensino superior, hoje trabalha com turmas de 8º ano em um colégio particular de Brasília. Na entrevista a seguir, ele fala sobre sua trajetória, seus desafios e os resultados que tem obtido ao integrar a tecnologia ao processo de ensino-aprendizagem.
Por que você decidiu buscar outros recursos envolvendo a tecnologia para dar aulas?
Há um certo tempo percebi que o principal fator de desatenção, ou mesmo indisciplina, era algo muito óbvio: tédio! Não é fácil, numa segunda-feira por exemplo, estar animado às 7h30min para duas aulas de gramática…ainda mais quando se é adolescente. Daí percebi que, com um pouco de tecnologia e boa vontade, poderia criar aulas novas, dinâmicas e interessantes.


Quais foram seus primeiros passos nesse caminho?

O professor Leonardo Freitas (Foto: arquivo pessoal)


Lido com tecnologia há mais de 20 anos e sempre adorei lecionar e tecnologia. Comecei discretamente com músicas, vídeos (tinha de gravar no VHS, ficar acordado até altas horas da noite. Já hoje com Youtube…). Daí a junção entre estes dois fatores, embora paulatina, foi muito natural.
Que outros métodos você já chegou a usar?
Antes usava retroprojetor, VHS, CD-ROM, etc. Hoje, uso personagens (storytelling) e jogos criados por mim, muito Power Point, infográficos em Flash, gifs; enfim qualquer material que estiver disponível.
Quais foram os seus maiores desafios ao inovar na educação?
O mais difícil não é fazer ou criar em si, mas sim convencer as pessoas de que você não está “enrolando” e que aquilo tem realmente alguma utilidade. Hoje é até fácil, mas no início encontrei muita resistência e, por incrível que pareça, as maiores foram dos meus colegas de trabalho.
E como deve ser a comunicação com os pais dos alunos em relação ao uso da tecnologia na escola? No seu caso, eles aceitaram bem?
Tem que ser expositiva e sincera. Nunca tive um pai que se posicionasse contra. Pelo contrário! Já cedi aulas, vídeos, jogos e outros materiais para pais que estudam para concurso público, por exemplo. Desde que bem planejado e com objetivos claros, convencer os pais é a parte mais fácil do processo.
A tecnologia pode tanto distrair os alunos quanto ajudar a captar sua atenção nas aulas. Como garantir que a tecnologia seja aliada e não inimiga do professor?  
Planejamento e tentativa/erro. Aconteça a evolução que acontecer, o professor sempre será o mediador do processo. A máquina é infalível, mas não é humana. Para ensinar/lecionar/educar, é necessário muito mais emoção e paixão do que puro conhecimento científico em si. E isso, ao menos por enquanto, a máquina ainda não é capaz de fazer.
Você acredita que a familiaridade dos mais jovens com gadgets e a internet já os torna preparados para usá-los em favor da educação, ou é necessário algum tipo de preparação?
Meu filho de 4 anos sabe usar mais o tablet que eu. Esta geração está muito conectada e dominar os processos é a parte mais fácil para eles. Porém, daí é que vem um grande desafio: não é qualquer coisa que encanta um jovem hoje! É preciso ser realmente inovador para que eles tenham interesse. O que não quer dizer que tenha de ser algo de outro mundo: muitas vezes percebi que coisas simples, porém inteligentes e bem construídas, fazem um sucesso tremendo!
Que cuidados devem ser tomados para garantir que os alunos não acessem conteúdo inadequado na internet ou se dispersem demais, por exemplo?
É preciso planejamento e foco. O uso da tecnologia não elimina o domínio de turma que o profissional deve sempre ter. Se o professor não tem o feeling nem a sacada de saber que uma aula funciona na turma X mas não na Y, nunca dará certo. A parte técnica é mais fácil: um bloqueio no firewall da escola já resolve o problema. E aqui temos uma lei distrital na qual é proibido usar celular em sala. Mas, com entendimento entre ambas as partes, tudo flui muito bem.
Falando sobre inovação na sala de aula, como você busca se capacitar, ficar em dia com as novidades e buscar inspiração?
Acompanho fóruns e sites sobre novidades tecnológicas, ferramentas etc. E fuço, fuço muito! Passei quase 2 meses entre tutoriais, guias e vídeo-aulas para aprender a programar jogos em que mesclo os conteúdos. Como durmo pouco (média de 4 horas por noite – sou meio hiperativo…) quase tudo me inspira. Certo dia tive de fazer um raio X. Enquanto esperava, comecei a observar a rotina do pronto-socorro e me deu um estalo. Rapidamente comecei a anotar umas ideias e logo tinha mais jogo pronto: UTI verbal. É um processo meio louco, mas funciona até aqui.
É possível driblar a falta de infraestrutura adequada nas escolas para a inovação?
Seria hipocrisia minha dizer que todas as escolas possuem estrutura. Algumas sequer possuem carteiras e mesas, o que dirá equipamentos para dinamizar aulas. Mas sempre é possível tentar. Parcerias com a iniciativa privada, patrocínios, rifas, eventos beneficentes; enfim, há uma gama de ações que possibilitam, ao menos na teoria, a aquisição e instalação desses equipamentos. E outra: inovar não significa necessariamente “informatizar”. Tive a honra de trabalhar com um professor que fazia repentes com equações de segundo grau. O cara só tinha um banquinho e um violão e a aula dele era fantástica. Isso, ao meu ver, é inovar.
Em quais iniciativas envolvendo a tecnologia na educação você pretende focar neste ano? Está apostando em alguma tendência específica?
Tenho observado um crescimento enorme em aplicativos, principalmente plataformas mobile. Ando pensando nessa tendência, mas acho que ainda há pouca maneira de adaptação, sem que se torne fútil. Mas, como objetivo, tenho apostado em fluxogramas animados, junto a outras metodologias que uso corriqueiramente.
O que acha que é preciso para que mais professores abracem a tecnologia como aliada?
Três coisas: coragem (para poder sair da zona de conforto), ousadia (para, assim que sair, encarar o ceticismo das pessoas) e criatividade (sem ela, tudo não passa de um monte de equipamentos e códigos). Só tenho a dizer que aqueles que, como eu, se propõem a mudar, sempre colherão ótimos frutos.
Que dica você daria para os professores e gestores que se sentem inseguros em relação às tecnologias?
Onde a tecnologia toca, há mudança. E é inegável que ela chegou à sala de aula. Daí meu conselho é: atualizem-se! Toda mudança gera insegurança. Mas, em qualquer lugar, sempre haverá alguém que saiba e goste um pouquinho mais. Encontrem-se nesse caminho. É um caminho sem volta. Aquele que não o fizer, pode ser que esteja em sérios apuros a médio e longo prazo.
Como você imagina que serão as escolas daqui a dez anos? 
Creio que a maior diferença é o que estamos vivenciando hoje: o papel do professor. Não somos mais os sagrados detentores de conhecimento. Hoje, o saber está ao alcance dos dedos, seja no Google, Youtube, Facebook etc. Posso visitar o museu do Louvre sem sair da minha cama. No entanto, é óbvio que, com a velocidade das mudanças, a próxima década trará muita coisa nova. E aí cabe a nós, educadores, separar o joio do trigo.
A coluna de Leonardo será quinzenal e seu primeiro artigo será publicado nesta segunda-feira. 

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