O bom de errar: quando o esforço é mais importante que o resultado

Exaltar apenas os acertos de alguém é estimular que essa pessoa opte apenas pelos caminhos mais simples

Eu passei muitos anos trabalhando no mercado financeiro. Sempre havia tido facilidade para lidar com números, era bom aluno na escola e consegui vagas em algumas das melhores universidades do país quando chegou a hora de prestar vestibular. Cheguei a ser vice-presidente de um dos maiores bancos mundiais de investimento. Minha visão de sucesso, portanto, era bastante tradicional. Por isso mesmo, quando decidi abandonar aquele ambiente para empreender em educação, a decisão surpreendeu a todos – e me fez refletir sobre o que significava, realmente, ser bem-sucedido.

Já mencionei que tenho quatro filhos. E, como pai, é claro que quero elogiá-los o tempo todo: dizer que eles são inteligentes, talentosos. Todo rabisco com giz de cera é digno de moldura e todo gol na partida de futebol da escola é alardeado para família e amigos. Claro, fazia isso com a melhor das intenções, acreditando que os elogios constantes aumentariam a confiança deles.

Até que percebi que havia uma armadilha aí. Enquanto, para mim, eu estava construindo a autoestima dos meus filhos, ao mesmo tempo, estava os aprisionando em um modelo mental que os limita ao sucesso instantâneo. Sem querer, transmitia a ideia de que eles eram apenas tão bons quanto suas vitórias, seus acertos, suas inteligências, suas conquistas.

Uma história recente ilustra bem esse dilema: no início de 2016, Luana, uma de minhas filhas, começou a ter aulas de programação no contraturno escolar. Era difícil. Ela não conseguiu compreender imediatamente a lógica por trás daquela nova linguagem. Falou em desistir. Porém, ao contrário de outras atividades que ela poderia realizar facilmente, expliquei que aprender a programar era um desafio – e os desafios impulsionam nossa evolução.

Eu disse à Luana que, enquanto estivesse fazendo algo muito fácil, não estava se propondo a aprender nada de novo. E não é esse justamente o comportamento que incentivamos ao valorizar apenas acertos? Por que uma criança vai tentar desenvolver um aplicativo (ou plantar uma horta, ou tocar violão) se não sabe nada a respeito e, quando erra, costuma ser repreendida? Parece mais lógico continuar fazendo o que já sabe, o que vai lhe render prêmios e admiração.

Esse não é um cenário incomum na educação, mesmo que se propague inconscientemente. Ele se manifesta através do sistema de notas, da reprovação, dos rankings escolares. Quando um aluno faz uma prova apenas para receber de volta um número em caneta vermelha, essa avaliação não cumpre seu papel verdadeiro: o de identificar suas forças e fraquezas e indicar o que pode ser melhorado.

Ao desenvolver o Geekie One, notamos rapidamente como essa cultura pode impulsionar a aprendizagem. Os relatórios que a plataforma gera, permitem que os estudantes não apenas vejam a quantidade de acertos, mas eles têm a visibilidade de quais são seus pontos fortes e aqueles que ainda precisam de mais desenvolvimento. Para docentes, esses relatórios permitem novos planejamentos do processo de aprendizagem e uma avaliação das práticas e rotinas que deram ou não certo ao longo do tempo.

Reconhecer os erros como parte do processo

Está na hora de reconhecermos o erro não como uma falha, como algo feio ou vergonhoso, mas como parte essencial do processo de qualquer aprendizagem. Sem nos dispormos ao erro, nunca sairíamos do lugar.

É esta a mensagem que tento passar para meus filhos: o erro é apenas um passo em direção a uma conquista maior. Ele mostra que, sim, é preciso recalcular a rota – por outro lado, quantos ensinamentos proporcionou? O quanto você aprendeu e cresceu com ele? Acolher o erro cultiva a resiliência: a capacidade de se reerguer após um tombo, de repensar suas ações e continuar tentando atingir um objetivo.

Parte da busca por resiliência vem de proporcionar reflexões. Eu questiono: por que isso não funcionou? Qual parte deu certo? O que poderia ser feito diferente? Como você pode fazer isso? Essas perguntas se aplicam a qualquer jornada, seja a da Luana na programação, seja a de um vestibulando se preparando para o exame, seja a de um professor que resolveu trabalhar com smartphones. Como expliquei para minha filha, é assim que o cérebro cresce. As perguntas colocam em movimento um novo modelo mental que enxerga erros como desafios transponíveis, não como um sinal definitivo de fracasso.

A segunda etapa é elogiar, sim, mas elogiar o esforço. O processo. Quero que meus filhos entendam que, muito além de ter ou não “um dom”, suas vitórias estão atreladas à perseverança e à dedicação. Com isso, eu tiro deles a pressão de estar certo ou errado e reforço uma atitude positiva, a de trabalhar por seus objetivos.

A Luana podia ter desistido da programação, mas concluiu o primeiro semestre como uma das melhores da classe. Se o erro inicial a tivesse impedido de continuar, ela nunca teria descoberto o que é capaz de fazer. É urgente educar uma geração que não seja intimidada por cada tropeção no caminho e que aceite que falhar é a única maneira de criar algo novo.

Não temer o erro não é simplesmente uma questão de preservar a autoestima dos jovens; pelo contrário, é um aprendizado que fará a diferença em qualquer aspecto da vida pessoal e profissional deles em um futuro bastante próximo. Pense só: um profissional que tem medo de errar não é criativo, não busca soluções fora da caixa, não se arrisca. Ele repete aquilo que já deu certo e, nisso, não há espaço para a inovação.

Ver o erro como parte natural da vida – e, acima de tudo, como oportunidade de crescimento – é uma verdadeira revolução na educação.
Este texto é uma adaptação da coluna publicada na Trip, em 27 de setembro de 2016. Para ler o texto original, clique aqui.

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