Maturidade no uso de recursos e personalização da tecnologia

Veja artigo de Eduardo Bontempo, cofundador da Geekie, sobre o atual momento do uso da tecnologia na educação, que abre espaço para tendências mais consistentes, como a da personalização do ensino. O texto foi publicado na versão online da Folha de S. Paulo no dia 5 de março

Por ano, crianças e adolescentes de 8 a 18 anos gastam duas vezes mais tempo diante de telas (de televisão, computador, smartphone etc) do que na escola. Dados como esse estão na raiz da crise que chacoalhou o sistema de ensino. O professor está lá na sala, o conteúdo também, só o aluno, capturado pela revolução digital, é que não. Apesar de a velocidade da resposta ao desafio não ter sido a ideal, a década de 2010 será lembrada como a época em que tecnologia e educação passaram a andar juntas. O sucesso dos cursos on-line abertos e massivos (MOOCs) das universidades americanas, do fenômeno Salman Khan, do uso de equipamentos como tablets na sala de aula e de milhares de aplicativos educacionais dão a certeza de que nada voltará a ser como antes.
Isso não quer dizer que não haja resistências de parte a parte, algumas delas saudáveis. Foi a reação de professores, por exemplo, que ensinou um pouco de humildade a adeptos da tecnologia pela tecnologia, que buscavam a espetacularização do ensino, deixando de lado aspectos pedagógicos. Os professores, aliás, têm sido um aliado crescente do uso dos recursos tecnológicos. Não são só os alunos que convivem com gadgets e redes sociais. Seus mestres também usam Facebook e smartphones e percebem os benefícios que a incorporação desse ambiente dinâmico pode ter na educação. Uma adesão que só tende a crescer, à medida em que nativos digitais chegarem às escolas não mais como estudantes, mas para ensinar.
Bem utilizada, a tecnologia poupa tempo e permite se concentrar no que é essencial. Não faz sentido, na primeira década do século 21, um professor perder tempo escrevendo na lousa um conteúdo que poderia estar disponível no tablet ou gastar energia com longas exposições orais. Seu papel é o de discutir com a classe as linhas gerais do conteúdo e colocar os temas em contexto, algo que computadores, pelo menos os convencionais, não conseguem fazer.
No caso dos alunos, a atualização tecnológica aproxima o ensino do seu cotidiano. A escola deixa de ser o lugar onde eles se desconectam do mundo. Essa mudança traz benefícios não só no aspecto acadêmico. Pesquisas realizadas nos Estados Unidos mostram que os estudantes com acesso a tecnologia tiveram ganhos no desempenho em matemática e em inglês, mas também em auto-estima e motivação.
As possibilidades abertas pela adoção da tecnologia vão bem além – e na contramão dos que enxergam nos novos recursos um fator de padronização do ensino. Uma das principais tendências do setor é a da personalização, na qual, graças ao apoio de plataformas digitais, cada aluno tem autonomia para aprender no seu próprio ritmo. Nas disciplinas com as quais tem mais afinidade ele verá conteúdos mais complexos que os da média da classe. Naquelas em que tem mais dificuldade, vai estudar coisas que a maioria dos colegas já viu antes, sem que isso signifique prejuízo no aprendizado.
No processo de personalização o professor tem, novamente, papel fundamental. Ele se torna, mais do que um entregador de conteúdo, um mentor do aprendizado, desenvolvendo uma relação muito mais próxima com o aluno. A adoção das plataformas de personalização também tem impacto na rotina dos diretores, porque permite saber exatamente em que pé está o desempenho dos alunos de toda a escola.
Dois dados mostram o poder do ensino personalizado. Na preparação para o Enem feita pela plataforma da Geekie, os estudantes realizam simulados no início do ano e perto do exame. Com base no desempenho no primeiro teste, eles recebem indicações de aulas em vídeo para fazer progresso nos seus pontos fracos. No ano passado, a cada aula assistida os alunos registraram melhora de 1,6 ponto na média do segundo simulado, que teve perfil de questões e grau de dificuldade equivalentes aos do Enem.
A plataforma da Geekie também é usada para nivelar o desempenho de estudantes que entram em instituições de ensino superior com lacunas na formação do ensino médio. Em um projeto piloto feito com o Grupo Ânima, alunos que durante seis semanas dedicaram pelo menos quatro horas semanais ao estudo do conteúdo em vídeo tiveram um ganho de 30% no aprendizado.
Desde que tenha bases realistas e foco pedagógico, o entusiasmo com a tecnologia é plenamente justificável, porque esse é um jogo no qual todos, alunos, professores, diretores e a sociedade, saem ganhando. Ainda mais num país como o Brasil, com suas conhecidas carências no ensino. Pela escala que propiciam, os recursos tecnológicos podem ser um poderoso aliado na recuperação de décadas de atraso.




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