A influência da inteligência artificial no mercado de trabalho e na formação dos estudantes no século XXI

Em concorrida palestra na Bett Educar 2019, Tânia Consentino, presidente da Microsoft Brasil, falou sobre os avanços na área de inteligência artificial, seus efeitos sobre a empregabilidade e destacou a importância das habilidades interpessoais para os estudantes: “o ativo mais importante que temos é a inteligência emocional 

Todos nós sabemos que vivemos na era da tecnologia, da transformação digital e da inteligência artificial (IA). A produção e o uso massivo dos dados para os mais diferentes fins têm trazido avanços incríveis nas diversas áreas da indústria e de serviços, inclusive no campo da educação. Tânia Consentino, presidente da Microsoft Brasil, iniciou sua palestra na Bett Educar 2019 abordando a importância da democratização da tecnologia e das possibilidades que a inteligência artificial pode proporcionar, para em seguida apresentar as discussões éticas que existem por trás desse avanço.  De acordo com ela, 

“Vamos trabalhar em atividades onde a gente vai poder maximizar a nossa engenhosidade e aqueles aspectos específicos da humanidade que são a criatividade, a capacidade crítica e a empatia. Vamos usar o robô, usar as máquinas e a inteligência artificial para nos ajudar a ser mais eficientes e mais produtivos e estes ainda são os grandes desafios da sociedade. Com isso a gente fala de democratização da tecnologia pelo bem e de desmistificar a visão que a tecnologia é exclusiva para grupos de cientistas malucos, ou grupo de engenheiros com um longo período de estudo. Através da inteligência artificial podemos tornar a tecnologia acessível para todos. A tecnologia inclusiva, por exemplo, permite que a gente não só faça a adoção dela mas a amplifique. Isso é o que a gente chama de intensidade tecnológica. Nossa missão é empoderar pessoas e organizações a conquistar mais. Vemos hoje, oportunidade infinitas para o negócio, a sociedade e para o planeta.” 

A democratização é um caminho necessário para potencializar os usos da tecnologia e da inteligência artificial no mundo atual. O IA pode empoderar, por exemplo, a aprendizagem para estudantes que têm dificuldades através de ferramentas que possam ajudá-los nesse processo. Da mesma forma, pode auxiliar pessoas com deficiência visual a saber o que está ao redor através de aplicativos, além de poder ajudar pessoas com problema de saúde e com capacidade de locomoção limitada.

Entretanto, quando se fala em IA, o grande problema ou grande ameaça que faz com que muitas empresas hesitem em investir é a questão da segurança e o perigo sobre o mau uso dos dados e da própria IA. Cada vez mais, a questão da responsabilidade ética diante do constante perigo de vazamento e do mau uso de dados pessoais é motivo de preocupação. Existe uma discussão ética fundamental sobre o assunto atualmente. Sobre isso, Tânia Consentino ponderou: 

“Falamos do robô e do algoritmo, mas devemos lembrar que ele é programado pelo humano e existe um grande risco de passarmos para o algoritmo nossos preconceitos e nossos vieses. Uma grande preocupação atual não é simplesmente desenvolver a tecnologia, mas garantir que a ética esteja presente. Para isso, existem alguns pilares desenvolvidos para definir o que a gente espera em uma discussão de ética no IA.”

Segundo ela, esses pilares são: Equidade, Confiabilidade e Proteção, Privacidade e Segurança,  Inclusão, Transparência e Responsabilidade. 

Sobre esses pilares, Tânia trouxe uma interessante reflexão sobre um dilema ético relacionado à noção de confiabilidade e proteção: “Teve uma discussão essas semanas sobre um dilema ético sobre carros autônomos. Imagina que um carro autônomo foi programado para dirigir, parar, desviar de algum obstáculo e se movimentar. Imagina que surge uma criança na frente do carro, o que ele deve fazer? Não dá tempo para ele brecar. Se ele desviar para a direita cai na ribanceira e o motorista provavelmente vai morrer; se jogar o carro para a esquerda ele vai atropelar 10 pessoas. O carro mata a criança, atropela 10 pessoas ou mata o condutor? Começa, então, um debate interessante e um fabricante de automóveis falou: meu foco é segurança e eu vou proteger o condutor. Esse é um debate ético: o que eu vou falar para a máquina decidir.”  

As mudanças da 4ª Revolução Industrial

Outro interessante ponto abordado na palestra diz respeito às mudanças no mercado de trabalho e na empregabilidade com a chamada 4ª Revolução Industrial. Toda revolução industrial provoca uma grande transformação na sociedade, e em especial essa revolução está transformando a forma como nos relacionamos com os amigos e com a família; a forma como compramos e adquirimos novos produtos; a forma como criamos e produzimos. Tudo está diferente. Existe uma fusão entre o físico e o virtual. Vivemos, de acordo com alguns autores em um mundo V.U.C.A., marcado pela Volatilidade (Volatility), Incerteza (Uncertainty), Complexidade (Complexity) e Ambiguidade (Ambiguity), uma combinação de qualidades que, em conjunto, caracterizam nossa época. 

Essa nova revolução promovida pela transformação digital gera a criação de novas demandas de emprego, ao mesmo tempo que outros deixarão de existir ou serão desvalorizados, forçando as pessoas a se requalificar e a repensar suas vidas e profissões. Segundo Tânia Consentino: 

“Por exemplo, não vamos ter mais motoristas de carro porque os carros vão ser autônomos. Mas, o que podemos ganhar? Se observarmos a Primeira, a Segunda e a Terceira Revolução Industrial tivemos a máquina à vapor, depois os motores elétricos, depois a automação e cada uma dessas revoluções deslocou, desempregou muita gente e forçou a requalificação profissional de uma boa parte delas, mas criou inúmeras oportunidades e trouxe para a sociedade mais qualidade de vida, conforto e uma série de coisas boas. E é isso que esperamos com quarta revolução industrial. Algumas profissões vão desaparecer, mas muitas outras vão ser criadas. Muitas dessas profissões vão ser criadas nos próximos 5 anos.”

Entre as “futuras” profissões citadas por Tânia estão as de: analista de cidades inteligentes, designers de espaço visual, biohacker, analista de dados de IoT (internet das coisas), treinador de carro autônomos, controlador de transportes e técnico de IA para a saúde. Por outro lado, para ela outros profissionais não vão deixar de existir mas serão empoderadas pelo IA. Entre esses profissionais ela destacou os enfermeiros, os assistentes sociais e os professores. 

Quais habilidades empregatícias são necessárias atualmente? 

Para Tânia, hoje exige-se habilidades não só técnicas como também socioemocionais. Nunca foi tão importante desenvolvermos habilidades socioemocionais para sabermos lidar com os novos desafios lançados transformação digital. Citando uma pesquisa recente do Linkedin, ela apontou cinco habilidades fundamentais para serem desenvolvidas ao longo do processo escolar: senso crítico, colaboração, adaptabilidade, resiliência e gestão do tempo.

Assim, dois aspectos são fundamentais para a educação dos estudantes do século XXI: desenvolver o lado da inteligência emocional e ao mesmo tempo inserir mais tecnologia na sua formação. Isso não significa que as pessoas devem se inscrever na faculdade de Ciências de Dados ou Engenharia, mas todos têm que ter uma boa formação em tecnologia. Para ela, em alguns anos, de acordo com a evolução do mercado de trabalho, 3 em cada 4 pessoas vão ter que ter conhecimento profundo em tecnologia. 

“Isso exige habilidades que não são só técnicas, mas aquelas que o humano se diferencia que são as interpessoais. Um dado bastante importante que eu percebi na gestão de diferentes empresas é que como gestor nos preocupamos muito em contratar pessoas pelo conhecimento técnico, pelas suas habilidades técnicas e depois você demite essa pessoa pela sua falta de habilidade interpessoal. O ativo mais importante que temos hoje é a inteligência emocional, porém provavelmente é o que a gente menos desenvolva. E quando falamos em educação existe uma preocupação quando desenvolvemos ferramenta para os educadores que vão trabalhar com os estudantes: não basta apenas transmitir conhecimento técnico, mas é preciso desenvolver o raciocínio crítico, criatividade e colaboração. É necessário trazer novas habilidades que vão ser definitivas para o sucesso profissional daquele sujeito.” 

Após as discussões apresentadas por Tânia, fica a reflexão sobre a importância de uma formação não apenas técnica, mas, sobretudo, humana para os jovens estudantes garantindo uso socialmente responsável das tecnologias na era transformação digital. E essa formação passa necessariamente por um ambiente escolar diverso e inclusivo que incentive o respeito às diferenças e o senso de comunidade e de colaboração.

* Paulo Raphael Siqueira Bitencourt é professor de História há mais de 12 anos, trabalhando com pré-vestibular, ensino médio e fundamental II. Formado em História na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), com Mestrado em Educação na mesma instituição. Pesquisas na área do ensino de História e História da Educação. Artigos publicados em periódicos do campo. Trabalha atualmente na Geekie como Designer Pedagógico.

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