Empatia e cooperação: o processo de desconstrução para um ser empático

Exercitar a empatia, o diálogo, a resolução de conflitos e a cooperação, fazendo-se respeitar e promovendo o respeito ao outro e aos direitos humanos, com acolhimento e valorização da diversidade de indivíduos e de grupos sociais, seus saberes, identidades, culturas e potencialidades, sem preconceitos de qualquer natureza.” Essa é a competência conhecida como “empatia e cooperação”, tema da reflexão de Mauro Romano, diretor da consultoria pedagógica do Geekie One.

Quando o indivíduo vive em um lugar onde as pessoas são iguais ou se moldam na mesma cultura, nos mesmos valores e vivendo entre iguais, entre demasiadamente iguais, ele não lida com a diferença de fato. Especialmente quem vive com educadores e estudantes sabe que uma sala de aula é heterogênea, composta por inúmeros perfis e histórias. Contudo, aquele cenário homogêneo, de iguais convivendo com iguais, existe. 

Eu tive essa percepção depois de 14 anos trabalhando no mundo corporativo e refletir sobre essa trajetória me leva ao entendimento da importância da empatia para o desenvolvimento não apenas de crianças e de jovens em idade escolar, mas de todo ser humano que se relaciona com outras pessoas em seu dia a dia.

Movido pela expectativa de uma carreira estável e lucrativa, optei por cursar Engenharia de Alimentos no Ensino Superior. Eu tinha muita facilidade com disciplinas de exatas, e este se mostrou o caminho lógico para atender ao que era esperado de mim por minha família. Fiz mestrado na área, com a intenção de seguir carreira acadêmica, mas o desejo de me tornar professor universitário foi frustrado por avaliar o quanto esse caminho me distanciava da tão almejada “carreira de sucesso e estabilidade” a qual fui condicionado a perseguir. Logo, optei pelo mundo corporativo. 

Ali eu era focado em resultados, em alto desempenho e vivia em um lugar frio, sem me importar genuinamente com as pessoas que trabalhavam comigo. Percebi também que era preconceituoso. Eu julgava demais os outros; tinha uma série de definições prontas sobre coisas que eu sequer conhecia, mas que um dia me contaram e eu assumi como verdade.

A desconstrução e minha proximidade com empreendedorismo social

O processo de desconstrução daquele Mauro, engenheiro de alimentos e bem-sucedido até então, não foi fácil, mas extremamente necessário. Até sinto pena de ter passado por toda essa mudança de paradigmas apenas aos 36 anos de idade, mas foi nesse período que minha filha nasceu e que eu comecei a não reconhecer mais meu próprio reflexo no espelho. 

Como eu seria como pai? Estava orgulhoso do caminho trilhado? Minha saúde já dava algumas das respostas aos meus questionamentos, mas a necessidade de mudança ficou latente. Eu precisava me conhecer de fato e ir atrás do que realmente me motivava.

O primeiro passo dessa mudança foi abrir mão de um emprego estável para investir meus esforços em minha própria empresa de gestão e estratégia. Foi por meio dela que me voltei para o empreendedorismo social e me aproximei da rede de empreendedores da Artemísia. Não demorou nada para as diferenças saltarem à minha frente. Neste meio eu não estava mais convivendo como uma máquina, entre iguais e em um ambiente frio. Agora, a realidade era muito mais complexa e com muitos tons das mais diferentes cores.

Não demorou muito e me encantei por essas pessoas que me acolheram na minha ignorância. Elas foram generosas, afinal, me viam como uma pessoa diferente e com muitas limitações, mas me acolheram para me ajudar a chegar a um novo lugar, que eu realmente almejava. Nesse momento entrei em um processo de desconstrução de meus julgamentos e valores, inclusive de meu processo educacional. 

Percebi que eu carregava crenças que não eram minhas. Uma delas, por exemplo, era o lugar da escassez, de que é preciso garantir o seu “pedaço de bolo” ou seu “pé de meia” a qualquer custo e com todo o esforço possível. Essa visão fez (e faz) sentido em alguns momentos, mas percebi que era possível viver em outros paradigmas de segurança e confiança que removiam o status prioritário do trabalho contra a escassez.

Aprendizado #1: Conhece-te a ti mesmo para ser empático com os outrosÉ a partir dessa jornada de desconstrução e autoconhecimento que consigo definir o que é empatia. O primeiro aprendizado que tirei dessa história foi que a empatia depende diretamente de um processo de autoconhecimento. Esse é um exercício diário e difícil. Ser empático me permitiu aumentar a capacidade de me relacionar com outras pessoas, em especial aquelas que são totalmente diferentes de mim. Porém, para que isso fosse possível, precisei entender minhas fragilidades e minhas vulnerabilidades e, principalmente, aceitar tudo isso.

Para de fato chegarmos a um lugar de empatia, para realmente poder entender o outro em sua profundidade e suas necessidades, é necessário que haja um processo empático consigo mesmo. Perguntar “Quem sou eu de fato?” e descobrir como é possível se entender é um trabalho profundo de autoconhecimento. Como contei, depois de 14 anos trabalhando no mundo corporativo, eu me olhava no espelho e não me reconhecia. Não gostava do reflexo. Precisei voltar para meu interior e descobrir quem eu era para além dos diplomas de graduação e mestrado e longe do ambiente profissional ao qual eu estava habituado. Logo, entendo hoje que ter empatia pelos outros pressupõe uma conexão consigo mesmo.

O momento adequado de si mesmo

O processo de empatia exige visitas rotineiras às nossas próprias emoções e ao nosso próprio momento. Há quem ache que empatia é algo que surge em horas adequadas, mas na verdade ela é um exercício cotidiano, desenvolvido o tempo todo. Há dias em que eu não estou bem comigo mesmo, mas esse é um momento no qual devo estar atento a mim. É um acolhimento pessoal. Nesses casos, entendo que seja importante não me relacionar com outras pessoas. “Hoje não estou disponível para uma relação saudável”, este é um entendimento necessário e que precisa de um grande autoconhecimento. 

Um colega de trabalho ou mesmo um estudante pode trazer uma questão importante, mas eu não consigo me conectar da melhor forma possível com ela. Pra mim, isso acontece quando tenho questões anteriores e pendentes que ainda não foram trabalhadas. Nesses casos, conhecer a si mesmo profundamente permite que a pessoa evite conflitos desnecessários e são aquelas respostas entrecortadas, com cara feia. Ser sincero e transparente com o outro é fundamental: “Não estou em um bom momento hoje, posso até tentar te ajudar com sua questão, mas, se você quiser uma conversa melhor, sugiro agendarmos esse diálogo para outra hora.”

Aprendizado #2: Ser genuinamente preocupado com outras pessoas

Se a empatia é um exercício cotidiano que parte, em primeiro lugar, de um lugar interno para só depois se voltar ao outro, ela também deve ser genuína. É como se houvesse uma escala de conexão: eu posso realmente me conectar com outra pessoa, mas sei que é possível dar dois ou dez passos além desse ponto para ter uma conexão realmente genuína com quem precisa de nós. Ela transcende um pouco o conhecer o outro, para ir até um lugar de preocupação real com o outro.

Desta forma, a empatia é o primeiro passo de uma atitude realmente amorosa. A partir do momento em que trabalho uma empatia genuína, estou me colocando à disposição do outro e colocando o amor em prática. Amar é a capacidade de colocar a pessoa em um lugar de relevância e respeito. Quando conseguimos estar em um ambiente empático, conseguimos nos colocar no lugar de dois seres humanos que merecem respeito, atenção, carinho e amor. 

A aprendizagem pressupõe a empatia em sua essência

Com tudo isso exposto, é inegável que a empatia é uma competência fundamental para termos uma sociedade saudável, respeitosa e humana em sua essência. Por isso é possível comemorar o fato de ela ser uma das dez competências da BNCC porque muitas vezes a empatia é colocada em um lugar transcendental. Como seu desenvolvimento é cotidiano, não pode estar no processo de aprendizagem de estudantes na forma de uma disciplina, mas sim como uma prática cotidiana e transversal que se exercita nas relações e em todas as áreas do conhecimento. 

Não é sem motivo que a educação acontece nas relações. No fundo, acredito que a educação é um processo de autodesenvolvimento que nos possibilita criar relações mais saudáveis e mais produtivas para que possamos lidar com os desafios da vida. A educação é isso: como eu, o Mauro, ser humano, posso lidar comigo mesmo, com minhas emoções, com os desafios da vida e as relações que se estabelecem nesses lugares de forma produtiva, harmônica e socialmente responsável, humana? Quais conhecimentos preciso mobilizar para atingir esse objetivo ou para entender o outro ser humano à minha frente em sua totalidade? 

Precisamos ajudar as famílias e as escolas a pensarem esse processo já em um momento inicial da vida. A criança e o jovem que já trabalham o autoconhecimento e a autogestão terão mais condições de tomar decisões mais alinhadas e mais respeitosas consigo mesmos. Em outras palavras, eles e elas conseguirão ser mais empáticos consigo e com as demais pessoas que participam de suas vidas. A partir do momento em que alguém se respeita e trabalha de forma mais integral e coerente, sua chance de estabelecer relações mais saudáveis e mais empáticas é muito maior. 

Olhando para o professor e para a professora, a empatia é uma competência central que todo educador ou educadora tem ou precisa ter. Cada estudante é único, tem sua própria história, tem demandas diferentes e contextos específicos que merecem ser respeitados. Pelo modelo que temos hoje instalado, infelizmente os estudantes acabam sendo tratados de forma muito homogênea. Por isso podemos considerar que a base do processo de aprendizagem é a empatia: pelo que o/a estudante já sabe, por aquilo que não sabe, pelo comportamento, pela atitude. 

Isso tudo não deve ser levado pela via do julgamento, mas pelo entendimento de quais são as crenças que estão movendo o/a estudante para um local não muito saudável e que prejudica o processo de aprendizagem dele ou dela. É preciso dar a devida atenção a como podemos ajudar na desconstrução dessas crenças a partir de uma relação de respeito, de carinho e de cuidado. 

O fato de eu ser professor, hoje, me desafia a ser mais empático e também me permite ser mais empático como gestor de uma equipe de consultores pedagógicos, quando estou dentro da escola conversando com outros educadores e educadoras ou com famílias. Por este motivo, todos os atores da comunidade escolar precisam ser essencialmente empáticos consigo mesmos e para com os estudantes, de modo a promover um processo de aprendizagem realmente significativo e transformador. Afinal, se eu não consigo me conectar comigo mesmo, como vou poder me conectar com o outro e fazê-lo aprender de verdade?

* Mauro Romano é Diretor da consultoria pedagógica da Geekie. Mestre e engenheiro graduado pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), com especialização em Administração pela Fundação Dom Cabral (FDC) e MBA pela FEA-Unicamp / FIA-USP. Exerceu cargos de liderança nas áreas de inovação, alianças estratégicas, planejamento e desenvolvimento organizacional em grandes corporações por mais de 17 anos. Como empreendedor social, teve participação ativa em diversas organizações e negócios de impacto, entre eles: Sementes de Paz, Nutriz, IBEAC e Artemísia. Foi professor dos MBAs da FATEC e da BSP. Apaixonou-se por educação. Atualmente é sócio-diretor da Geekie e facilitador do curso extracurricular “Projeto de Vida” para alunos do Ensino Médio.

Leia este e outros artigos no e-book “As dez competências gerais da BNCC”:

e-book 10 competências gerais da BNCC - geekie one
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