Educação com afetividade: Ser ou não ser amigo dos alunos?

O professor Leonardo Freitas discute a educação com afetividade de forma pessoal: conheça a história da turma que marcou sua carreira e consolidou sua forma de ensinar.

Especificamente hoje, passei pela avaliação semestral que é feita com todos os profissionais na escola onde trabalho. Por mais que eu já imaginasse que as coisas andavam bem, senti um friozinho na barriga – ninguém fica 100% relaxado enquanto está para ter seu trabalho colocado em xeque! Porém, o que ouvi de minhas queridas coordenadoras me fez lembrar algo que ocorreu há alguns anos e que me deixou feliz naquele momento. Certas palavras que me fizeram rever toda uma trajetória pela educação com afetividade. E, por essa sensação ter voltado é que, hoje, em tom bem íntimo, me atrevo a dividir com vocês um pouquinho dessa experiência.

Na virada de 2007 para 2008, eu estava numa verdadeira “crise existencial”: havia mais de 2 anos que não dava aula regularmente e havia acabado de pedir demissão (num ato de altruísmo que em poucos dias se tornou um pesadelo) do maior jornal do Centro-Oeste, onde atuava como revisor de texto. Embora houvesse uma série de benefícios, imperava um ambiente estranho. Sempre fui avesso a rotinas rígidas e escritórios. Eu sabia que isso não era pra mim.

Contas chegando e recém-casado, imprimi alguns currículos e saí entregando, com o peso do desemprego e do mundo sobre meus ombros. Andando dali e daqui, qualquer escola me servia: da maior àquela de fundinho de quintal. Deparei-me com uma das grandes, hoje presente no Brasil inteiro. Ali, entrei e depositei meu singelo curriculozinho no balcão da secretaria, na esperança (mesmo que distante) de ser convocado. E para minha surpresa, fui! E, lá naquele local, havia algo que me marcaria para sempre: a turma do primeiro ano!

Era o início do Ensino Médio, numa reformulação interna do estabelecimento. Em meu primeiro ano na escola, dava duas aulas semanais de redação para a única turma de EM do colégio, no sábado, às 7h15min da manhã. No mínimo, aquilo seria deprimente! Então, usei do único artifício que bombava na minha cabeça constantemente: “Preciso conquistar essa molecada!”. Assim começamos nossa jornada!

Em pouco tempo, as aulas começaram a fluir de maneira dinâmica e divertida. Isso foi conquistado com muito planejamento, esforço e, acima de tudo, a crença de que havia uma relação mútua de amizade entre eles e eu. Já vi muitos professores batendo no peito e bradando com ar inquisitor: “Aluno não me toca!”, ou ainda um “É ele lá e eu aqui”. Francamente, deve ser muito frustrante entrar numa sala repleta de pessoas jovens e inquietas, ávidas por novidades, e mostrar-se “receptivo” assim. Desde que comecei, essa postura nunca foi meu foco – sempre fui adepto à educação com afetividade – e, agora que eu já estava mais que concentrado com minha amada turminha, não seria mesmo. Ao fim de 2008, consegui mais duas escolas e terminei o ano com aquela turma que me marcaria para sempre.

Educação com afetividade: Ser ou não ser amigo dos alunos?

Talvez o relato soe pessoal demais, mas é necessário mais do que apenas uma reflexão sobre isso. Geralmente, indisciplina é fruto de um olhar desatento para nossos alunos. Não adianta planejarmos uma aula, uma atividade de forma homogênea e sonhar que vamos aplicá-la em todas as turmas e tudo dará certo. Para isso, já existe a prova. Todos que são professores sabem o que vai render mais em cada turma – ou, ao menos, deveriam saber. E o problema é justamente esse: tem muito, mas muito profissional que não sabe! Às vezes, nem faz ideia disso.

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Início de 2009: de 7 horas semanais pulei para quase 60, o que se traduzia em lecionar manhã, tarde, noite e sábados. Lá ia eu, desta vez como professor regente de Gramática e Literatura, rever meus queridos alunos, agora no segundo ano do Ensino Médio. Foi um ano altamente produtivo: recitais, aulas fora da escola, saídas de campo, feira de ciências (onde explodi um fogareiro com eles e quase queimei dois…). E assim fomos caminhando.

“Geralmente, indisciplina é fruto de um olhar desatento para nossos alunos. Não adianta planejarmos uma aula, uma atividade de forma homogênea e sonhar que vamos aplicá-la em todas as turmas e tudo dará certo”.

Já sei aula para quase 8 mil pessoas e posso afirmar que alcanço e conquisto 90% dos corações dos alunos pelos quais passo. Vejo da seguinte forma: conquistá-los foi – e vai – muito além de um “favor” meu, mas, sim, uma obrigação. Não digo a conquista na questão de ceder aos caprichos de 30, 40 pessoinhas. Porém, nada melhor que a educação com afetividade, nada melhor do que ministrar uma aula onde todos (ou quase todos) mantém admiração, carinho e intimidade com você. Educar um aluno não difere muito de educar um filho: dê limites, mas dê carinho; brigue, mas elogie; esteja pronto para questionamentos, expressões de vontade e coisas assim. Geralmente, uma cara amarrada nada mais é que um grito de socorro. Há casos e casos, mas, com o tempo, a experiência e a sensibilidade foi me mostrando qual caminho eu deveria seguir.

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Como fruto de todas essas turmas pelas quais passei, estive em inúmeros churrascos, festas de 15 anos, confraternizações. Já encontrei aluno em bar, shopping, enterro, praia, clube, igreja, oficina mecânica, quiosque de venda de frango e por aí vai. É sempre uma alegria vê-los, não posso negar.

E eis que em 2010 estava eu como a minha famosa turminha, agora no terceiro e derradeiro ano. Foi um ano cheio de trabalho, aulas e mais aulas preparatórias para o vestibular. Da equipe original, apenas eu e mais um permanecemos. Ao fim do ano, modestamente escolhido como orador da formatura, fiz um discurso que, admito, estava emocionante. Nem eu mesmo resisti. Não sentia como se findasse um ano, mas, sim, como se estivesse me despedindo de grandes amigos. Amigos pelos quais ainda guardo grande carinho e com quem mantenho algum contato.

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Talvez esta coluna tenha sido relatada com muita parcialidade, mas não havia forma de falar da educação com afetividade que não trouxesse, de fato, o carinho que sinto pelos meus alunos. Eu adoro o que faço e, por mais que conheça de cor e salteado os percalços e dores da profissão, adoro mais ainda estar entre eles. Há quem pense que isso é desnecessário, fútil, que quebra o “decoro” de nossa profissão. Meu conselho é que você, que agora me lê, não pense assim. Nossos alunos são frutos de nossas aulas, nosso trabalho e nossa conduta. Eles nutrem expectativas de que sejamos próximos, companheiros. Claro, temos de ser duros, às vezes, mas acredite: no fundo, no fundo, a imensa maioria apenas quer ser ouvida, considerada, e – por que não dizer – amada. Aproxime-se, inove, reivente-se dentro de tudo aquilo que você sonha em ser. E convide seus alunos para fazer parte de sua vida. Eles, assim como você, só vão ganhar com isso.

*Leonardo Freitas é graduado em Letras pela Universidade Católica, com especialização em Literatura Brasileira pela Universidade de Brasília. Leciona há exatos 16 anos, e desde pequeno queria ser professor. Já passou por todos os níveis, desde o fundamental I ao superior. Hoje, trabalha com seis turmas de 8º ano em uma escola particular de Brasília.

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