Dia de rap na EE Jardim Riviera, uma escola pública inspiradora

Show dos MCs pela Educação foi prêmio para escola com índice 100% de acesso dos estudantes a plataforma online de preparação para o Enem; parceria da Geekie com Secretaria da Educação do Estado de São Paulo beneficia 415 mil alunos

Tchum-tchum-tchum, tá-tá-tá, tchum-tchum-tchum, tá-tá-tá. Era a tarde de quarta-feira (1/6) quando o bicho pegou na Escola Estadual Jardim Riviera, na periferia de Santo André. No embalo do show dos MCs pela Educação, grupo que usa o rap para falar da importância do ensino, os alunos do ensino médio entraram em alfa. Gritaria, palmas, a molecada cantando junto com os MCs, selfies, muitas selfies. “É nóis!” Foi dez.
A apresentação, com direito a cobertura de uma grande emissora de TV, é um prêmio merecido para a EE Jardim Riviera. Encravada em uma área de proteção ambiental ocupada por milhares de famílias, a escola teve o maior índice de engajamento de alunos na fase inicial do Geekie+, projeto que deu aos 415 mil estudantes do 3º ano do ensino médio das escolas estaduais paulistas acesso à plataforma online Geekie Lab na preparação para o Enem. E qual foi esse índice? De inacreditáveis 100%. “É nóis!” Foi cem.
‘Vou aceitar a educação’
O show é ciceroneado pelo criador do grupo de MCs, o jornalista Eduardo Lyra, ele próprio um menino pobre de outra periferia da Grande São Paulo, em Guarulhos, que conseguiu destaque internacional com seu trabalho de inclusão de jovens de baixa renda no Instituto Gerando Falcões. Os rappers agora cantam o lamento de um menino que trocou a caneta pela arma e acabou sendo preso: “E hoje cai/Uma lágrima de dor/Pra apertar meu coração/Quando eu sair vou estudar/Vou aceitar a educação.” A plateia canta junto, especialmente a última estrofe. Depois começa a gritar “Uh, Riviêra (assim mesmo, com o som do E fechado), uh, Riviêra!” Ensurdecedor.
Já falamos dos meninos em estado alfa? Pois bem, Miguel Macena, de 16 anos, do 3º ano B, é um deles. Vestindo uma camisa preta do Corinthians, foi chamado por Lyra ao palco improvisado diante do refeitório quando o jornalista perguntou sobre as preferências futebolísticas dos estudantes – os corintianos eram franca maioria, seguidos de longe, bem longe, pelos são-paulinos. “Foi uma emoção muito grande, porque o Corinthians é minha vida, minha paixão.”
Você é bom aluno, Miguel? “Sim, sim! Sou.” E a plataforma, está te ajudando? “Sim, sim! Ela dá uma base melhor, estimula para quando eu for prestar o Enem.” Teve alguma coisa que você notou que não sabia por causa do Geekie Lab, Miguel? “Sim, sim! A questão das vacinas, em biologia. Vi a videoaula e depois tirei algumas dúvidas com a professora, porque, tipo, nem era difícil, o problema é que eu não estava entendendo o conceito.” Você quer fazer faculdade, Miguel? “Sim, sim! Quero fazer Tecnologia em alguma Fatec de Santo André.”
Capuz e ideias na cabeça
Capuz na cabeça, Thiago Maia, de 17 anos, conta que achou “da hora” a possibilidade de escolher como estudar: lendo ou assistindo a vídeos. “Uma coisa que me chamou a atenção no Geekie+ foram as videoaulas. Antes, quando estudava, eu já entrava no You Tube”, diz Thiago. “Outra coisa legal é que, bem no começo do projeto, a gente faz uma avaliação. A plataforma já registrou o que eu sei e o que eu não sei. Agora ela só mostra para mim coisas que eu não sei muito bem.”
O interesse de Thiago pelos vídeos – são mais de 1.200 no acervo do Geekie Lab, distribuídos por mais de 630 aulas – vai além do conteúdo. Ele pretende cursar Cinema e Vídeo (“talvez na Belas Artes”) e já produziu seus próprios conteúdos educativos. “Edito em programas profissionais. Fui aprendendo tudo sozinho, comprando livros. Fiz um sobre os incas, por exemplo. A pegada é bem-humorada, meus colegas gostaram”, garante.
Na preparação para o Enem, Thiago identificou graças ao Geekie Lab alguns pontos fracos dos quais nem suspeitava. “Sobre a 1ª Guerra Mundial eu achava que sabia tudo e não sabia tanta coisa… Sobre o arquiduque Francisco Ferdinando, que o assassinato dele tinha sido o estopim. Não sabia também o que era bolchevique e menchevique na Revolução Russa”, diz. “Na 2ª Guerra não sabia quem eram Trotsky, Stalin. Achava que eram só Hitler, Estados Unidos, Pearl Harbor e os japoneses, mas tinha bem mais coisa envolvida.”
Niemeyer
Os alunos são entusiasmados, ligados na tomada, e muito educados. Cumprimentam todos que passam por eles nas escadas, enquanto sobem para levar as cadeiras usadas durante o show de volta para as salas. Filha única de um motorista da prefeitura de Santo André e de uma agente de saúde, Ingrid Helena da Silva, de 17 anos, conta que está se sentindo “bastante pressionada” para entrar na faculdade. “Mas o Geekie+ me ajuda bastante. Não sei se vocês fazem isso de propósito: tudo que a gente vê numa aula, quando entra na plataforma, passa no Geekie+ também. Dá para ver e rever, ver e rever. Isso dá uma reforçada muito boa.”
Ingrid diz que tem “ideia fixa, desde sempre”, de fazer Arquitetura, de preferência no Mackenzie. Ao contrário dos colegas, não é fã de ninguém na música ou nos esportes. Meio esbaforida com a entrevista, se atrapalha na hora de dizer o sobrenome do seu único ídolo. “É o Oscar Nier, Nier, Nier…” – Niemeyer? – “… sim, aquele que projetou Brasília!” A menina já tem uma boa noção dos progressos que terá de fazer para atingir seu objetivo. “Na avaliação da Geekie eu fiquei na faixa de 500 só em Exatas, nas outras eu fiz 400 e pouquinho. Já sei que eu vou ter de estudar muito, muito História do Brasil”, diz. “O bom é que o Geekie+ faz uma coisa que é meio complicada para mim: relaciona uma parte da matéria com as outras. Facilita bastante.”
Além das indicações de conteúdo dos professores e da própria inteligência artificial do Geekie Lab, Ingrid conta com a ajuda dos colegas para navegar pelas aulas e vídeos. “O pessoal aqui é muito animado, vive comentando da plataforma. Entre as coisas que me disseram que eram legais, fui conferir e gostei, estavam as aulas sobre cadeia alimentar e evolução, em biologia.” Você está confiante para o Enem, então, Ingrid? Estamos falando com uma futura arquiteta? “Com certeza, com certeza!”
4 mil Cleides
Mas qual será o segredo da EE Jardim Riviera para ter sido a Escola Top da fase inicial do Geekie+? Por que os alunos aqui são tão animados com os estudos? Em primeiro lugar, a escola já foi inaugurada, em 2012, como parte do Programa Ensino Integral da rede pública do Estado, era uma das 16 unidades da experiência piloto do projeto. Tem uma jornada ampliada, que vai das 8 horas às 17h30, com boa infraestrutura de equipamentos e conexão à internet.
Só que o segredo, mesmo, está nas pessoas. A coordenadora do Programa Ensino Integral na Secretaria de Estado da Educação, Valéria Souza, chama a atenção para o papel da diretora da EE Jardim Riviera, Cleide Torres. “É uma gestora focada e tem um papel muito claro de liderança. Se eu conseguisse replicar 4 mil Cleides, a rede pública seria outra.”
Para Valéria, outras pré-condições para o sucesso da EE Jardim Riviera são a de ter professores efetivamente envolvidos com a aprendizagem dos alunos e o protagonismo dos estudantes, um dos pilares do Programa Ensino Integral. “Os professores são responsáveis e os alunos, co-responsáveis pela aprendizagem, focados no seu projeto de vida. Os estudantes são protagonistas de fato. Como eles mesmos dizem: ‘Não é fake’.”
Sonhando com os pés no chão
Estimular o aluno a pensar no futuro e batalhar para atingir seus sonhos é uma das prioridades do Programa Ensino Integral. No 1º ano do ensino médio, os estudantes têm a disciplina PV (Projeto de Vida), para começar a desenhar o que vão fazer depois de deixar a escola. No 2º ano, PV é mesclada com outra disciplina, PA (Preparação Acadêmica), que ajuda o estudante a entender quais medidas práticas ele precisa adotar para tirar o sonho do papel. A transição se completa no 3º ano, quando o foco se concentra exclusivamente em PA.
“No 2º ano tenho alunos que definem como projeto de vida fazer Gastronomia, por exemplo. Então eles começam a pesquisar onde tem o curso, o que eles precisa para ser um chef. A gente monta alguns seminários, eles cozinham”, conta a coordenadora geral Ruth Correa. “No 3º ano é bastante intensificada a ação de PA: como fazer para sobreviver durante a faculdade, como conseguir moradia universitária, uma bolsa. Um dos nossos ex-alunos que está fazendo Matemática na Unesp montou um projeto neste semestre e conseguiu uma bolsa de R$ 700.”
Com um design tão bem pensado de disciplinas como PV e PA, a escola tem índices de aprovação em vestibulares incomuns para a rede pública. No ano passado, 30% dos estudantes passaram na seleção para universidades públicas. E 12% conseguiram bolsas integrais via Prouni. “A mensagem do ‘sim, você pode’ já existe na escola, é real”, diz Ruth. “Não aconteceu num passe de mágica, foi algo construído, uma batalha pessoal da Cleide.”
‘Dire, dire’
Com seu jeito de mãezona, Cleide é daquelas diretoras que sabem tudo o que se passa na escola. Daquelas que, quando têm de dar alguma bronca, os alunos pensam: “Puxa, ela realmente se importa comigo!” Aliás, diretora, não. Os estudantes, mesmo os marmanjos, a chamam de “dire”. É “dire” para lá e para cá o tempo todo nos corredores. Uma das coisas que essa veterana professora de Matemática se orgulha de fazer é receber todos os dias os alunos na calçada diante da escola. “Falo uns 400 ‘bom dia’ todas as manhãs.”
As mensagens positivas estão estrategicamente espalhadas por todo o prédio. Um exemplo é o texto escrito na lousa em um dos corredores: “1/7/2015. Bom dia! Sem a curiosidade que me move, que me inquieta e que me insere na busca, não aprendo nem ensino. Paulo Freire.”
Quando a escola abriu as portas, em 2012, uma das prioridades da “dire”, a “batalha pessoal” mencionada por Ruth, foi a de passar aos estudantes a mensagem de que o estudo não termina no ensino médio. Eles precisavam ter ambição, sonhar com a carreira universitária. Naquele ano, cinco alunos passaram em vestibulares de universidades como a Unesp, mas só dois se matricularam. Os pais não deixaram que os demais prosseguissem os estudos. Ou não entendiam a utilidade da universidade ou não queriam que os filhos saíssem de casa.
Educação dos pais
“Comecei a fazer reuniões com os pais, explicar o que era o vestibular, a importância de entrar numa USP ou numa federal, porque muitos deles não tinham nem o ensino médio, não tinham essa visão”, conta Cleide. “Hoje nenhum dos alunos que entra na universidade deixa de cursar por oposição da família. Pelo contrário, os pais apoiam. Outro dia um deles, bem humilde, veio todo contente me contar que tinha comprado um smartphone, parcelado, para o filho poder usar nos estudos.”
A situação mudou a tal ponto que um dos ex-alunos da EE Jardim Riviera, que já está cursando Ciências Sociais na USP, definiu um projeto de vida bastante ambicioso. Quer chegar a Harvard. E conta com apoio irrestrito da família.
Conexão Geekie-Santo André
Conhecer a EE Jardim Riviera foi uma experiência inspiradora para nós, da Geekie. O sócio-fundador da empresa Eduardo Bontempo se emocionou com o entusiasmo dos estudantes. “Seria bom que todos vocês tivessem a chance que eu tive, de conhecer a escola”, disse Bontempo, em uma reunião com todos os funcionários na nossa sede, dois dias depois da visita a Santo André. “Foi um dos momentos mais especiais que a Geekie me proporcionou. Ajudou a lembrar a razão pela qual estamos aqui, o motivo de todo nosso esforço diário.”
Os outros visitantes do dia também saíram entusiasmados da EE Jardim Riviera. “Não é em todos os shows que a gente tem aquele retorno do público, aquela agitação, a galera batendo palma e cantando junto”, diz Oziel Ferreira Silva da Souza, o MC Oz. “Aqueles jovens realmente estão fazendo a diferença na escola. Achei que iria lá para inspirar, mas saí inspirado por eles.”
Susto bem-vindo
Se depender da avaliação preditiva do Geekie Lab, que sinaliza com precisão o desempenho futuro no Enem, outros estudantes da EE Jardim Riviera já podem fazer as malas para desembarcar na universidade. No ano passado, a média dos alunos da escola no Enem foi de 413 pontos. Na preditiva, a média ficou na casa dos 480-500 pontos. “Tomei um susto, esperava que eles tirassem entre 300 e 350”, conta Ruth.
Ou seja, ainda vem por aí muita gritaria. “Uh, Riviêra! Uh, Riviêra!”
Veja abaixo vídeo produzido pela Secretaria de Estado da Educação de São Paulo na EE Jardim Riviera


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