Os desafios da escolarização em casa em tempos de pandemia

Confira depoimentos de pais e mães de estudantes do Rio de Janeiro sobre como tem sido a experiência de trazer o processo de aprendizagem para dentro de casa durante o período de distanciamento social provocado pelo coronavírus.

Entre minha última coluna aqui no InfoGeekie e o dia de hoje simplesmente aconteceu no planeta uma pandemia. De coronavírus ou Covid-19, para ser mais exata. Na definição do dicionário, pandemia é a disseminação mundial de alguma doença.  O mundo tal qual eu e você conhecíamos meses atrás simplesmente virou de pernas para o ar. Dissolveu-se, amedrontou-se e, arrisco dizer, continua em processo de reconstrução. 

A última pandemia comparável a essa do Covid aconteceu há praticamente 100 anos atrás. Infectou 500 milhões de pessoas, um quarto da população do planeta na época: a  Gripe Espanhola. Ela se alastrou entre 1918 e 1920 e chegou a matar 50 mil indivíduos. Os números do Covid-19 registrados nos boletins de hoje são alarmantes: mais de três milhões de infectados até agora, com cerca de 250 mil mortes em todo o mundo em alguns meses apenas. Uma situação emergencial que vem gerando insegurança e medo sobre que futuro está sendo reservado para a humanidade.  

Países inteiros em quarentena, tendo como proteção contra o vírus medidas rígidas de higiene da população como lavar as mãos constantemente, manter-se distante de pessoas com sintomas, usar máscaras de proteção e evitar aglomerações. Enquanto isso, mais de 115 vacinas candidatas foram mapeadas pela revista Nature até o momento. Esse número tende a subir porque a busca pela cura é condição para que o mundo volte a funcionar como antes. Ou simplesmente volte a funcionar de alguma maneira.   

A economia viu seus índices despencarem, as vias de circulação das grandes cidades ficaram vazias, eventos de grandes proporções como campeonatos de futebol e até mesmo as Olimpíadas de Tóquio foram adiados. O trabalho de muita gente tornou-se remoto, de casa, assim como a escolarização de milhões de alunos mundo afora. E isso inclui também o Brasil. 

E de uma hora para outra, escolarizar os filhos em casa

Esse artigo é diferente – como parece que será tudo daqui para frente. Não é possível arriscar cenários, desfechos para esse grande enredo assustador ainda em construção. Mas já dá para medir o pulso do que significa, por exemplo, escolarizar seus filhos em casa, de uma hora para outra, sem preparo ou ferramentas suficientes para dar conta de tão delicada e importante tarefa. Usei o termo “escolarizar” de propósito, até porque “educar” é também tarefa das famílias e já acontece, em maior ou menor grau, em todos os espaços de convívio. 

Para trazer alimento para o pensamento ou mais contexto para reposicionarmos nossas angústias, divido com vocês algumas reflexões de pais e mães de alunos do Ensino Fundamental. Esse segmento abarca sobretudo os pequenos aprendizes que têm mais dificuldades de gerir seus estudos com autonomia, por conta da pouca idade e da necessidade, vez por outra, da supervisão de adultos. 

Conversei bastante nessas últimas semanas com pais e mães de alunos de escolas públicas e particulares aqui da minha cidade, o Rio de Janeiro. E o que ouvi foi um pouco por esses caminhos: o do preparo (ou despreparo) das escolas para uma virada digital; a baixa concentração das crianças com menos idade sem a tutoria de um adulto; a equação difícil de famílias em home office com crianças estudando de casa, além da inquietação no ar por um momento onde o planeta passa por grandes revisões e redefinições. Que essas reflexões encontrem eco e ajudem a criar relações mais efetivas de ensino e aprendizagem, seja em espaços formais ou não-formais de educação. É meu desejo para hoje e para os próximos dias! 

A opinião de alguns pais e mães de alunos do ensino fundamental sobre a quarentena e a escolarização doméstica 

“Eu acho bacana conhecer um pouco o jeito que meu filho estuda, entender as dificuldades dele que antes da quarentena eu não percebia tanto, mesmo acompanhando os deveres. Mas confesso que é bem diferente ter que me planejar para o trabalho, dar conta das coisas da casa e verificar se ele está acompanhando as lições. Se está aprendendo mesmo algo com isso tudo é que as coisas são transitórias, não temos muitas certezas sobre o nosso futuro e de fato somos abençoados por estarmos com saúde e protegidos – de certa forma – dentro de casa. Pra mim, preservar a rotina é talvez a tarefa mais importante no meio dessa grande indefinição de futuro que é uma pandemia. Nunca vivemos isso, é novo para todos. Acho que as escolas estão tentando se adaptar ao máximo, mas uma resposta pronta e eficaz pra essa questão talvez ninguém tenha ainda. Vamos ver os efeitos – bons e ruins – disso tudo quando a epidemia passar.”

João Andrade (programador, filho aluno de escola pública da zona norte da cidade)

“Pra mim o que pega mais é o modelo de escola que queremos, o modelo que seja menos insustentável do que esse que tá aí. Aprender em casa a criança até vai, mas será que isso tudo, quando passar, vai mudar o jeito mercantilizado de se lidar com o conhecimento? Será que a gente vai valorizar o que de fato importa ou vamos estar preocupados em performance em exames escolares e vestibulares, como se a vida lá fora não interferisse diretamente na vida aqui dentro de casa? Minha filha é boa aluna, gosta de aprender, mas eu estou mais interessada em que modelo de planeta ela vai habitar no futuro, se será sustentável, se a gente vai conseguir condições de igualdade para todos, mais do que aprender isso ou aquilo. Entender pra quê e porque aprendemos é o mais importante pra mim. Não só no momento da pandemia, mas de forma permanente.”

Maria Rita Diniz (socióloga, mãe de aluna de escola pública da zona sul do Rio)

“A minha dificuldade é com a vida louca de trabalhar e ter cuidados de casa que antes eram tarefas divididas com uma ajudante semanal porque eu trabalhava fora, não ficavam comigo.  Conseguir dar conta da filha e da escola da filha tem sido um grande desafio… Começou essa semana na escola dela, contextualizando o conteúdo com esse momento de pandemia, acho que o isolamento é negativo e está funcionando como um modo contingencial. O válido é ela manter o aprendizado e a escola e está num caminho interessante, preservar a rotina, vira uma atividade além do celular. Ela tá entregue ao longo do dia ao celular. Vê vídeo, conversa com as amigas, e tal. Eu infelizmente não tenho como estar com ela, nossos momentos são poucos. É uma vantagem trazer esses elementos de aprendizagem mais significativas e manter uma ligação com a escola. Ela acaba tendo que desenvolver uma autonomia em relação aos estudos que é bom também. Isso é o que acontece por aqui. Na casa do mãe dela eu não sei bem como é a rotina, mas deve ser complicado pra ela administrar também.”

Bruno Ramos (psicólogo, sua filha é aluna de escola privada da zona sul do Rio de Janeiro)

“Mais do que fazer os deveres da escola e se programar para ouvir as orientações diárias da professora, eu acho que minha filha está aprendendo mesmo a rotina da casa, me ajudando a arrumar tudo, vendo a importância do trabalho de casa que antes ela desconhecia. Até fazer um bolo, molhar uma planta, guardar as roupas no armário,  podem ser um aprendizado. No caso, mão na massa mesmo. Tudo isso, no fundo, é importante. Talvez as escolas pudessem no futuro passar a dar atenção no futuro para esses aspectos da vida prática também. “

Juliana Assis (nutricionista, filha é aluna de escola pública no centro da cidade)               

“Aqui em casa tá de enlouquecer. Minha filha não se concentra nas tarefas que a escola passa, o que exige de mim cobrar e ficar do lado. Tenho perdido a paciência em muitos momentos e não me orgulho disso. Nem sempre posso fazer esse acompanhamento próximo. Estou fazendo home office e a cobrança por entregas tem sido até maior do que a vida no escritório.  Acho que o celular e os joguinhos acabam desviando a atenção e fica difícil fazer a criança entender que essa tarefa feita de forma remota é importante. Não vejo a hora dessa quarentena passar”. 

Ana Barros (jornalista, sua filha é aluna de escola privada da zona sul)

“Eu sou mãe de duas crianças, mas também sou professora. Vocês não fazem ideia da pressão que estamos vivendo por “normalizar a rotina” das crianças e dar conta dos conteúdos. Como se fosse nossa tarefa “acertar” algo que está para além da nossa vontade, das nossas possibilidades. Não estávamos preparados para tornar o ensino online. Não se faz isso do dia pra noite. E na minha visão, a experiência presencial na escola, o olho no olho, é algo insubstituível. A tecnologia é uma aliada, mas precisa ser bem trabalhada, bem inserida, senão é loucura…

Regina Brandão (educadora, mãe de dois filhos, um na escola pública, outro em escola privada)

E você, o que pensa disso tudo? Como tem vivido os dias de isolamento social? Que histórias de escolarização em casa você tem para compartilhar com a gente?

Confira também o depoimento da Camila Guida, mãe de estudante do Mater Dei SP, escola parceira do Geekie One:

* Debora Garcia é pedagoga, mestre em Educação pela UFF, Fulbright Scholar pela Georgia State University, GA e especialista em Gestão do Conhecimento pela COPPE-UFRJ. É sócia-diretora da Elektra Conteúdo e colaboradora do Canal Saúde da Fiocruz. Foi Gerente de Conteúdo do Canal Futura por mais de 20 anos e é uma das autoras do livro “Destino: Educação – Escolas Inovadoras”, publicado pela Fundação Santillana/Ed. Moderna. Em 2017, em conjunto com Daniela Kopsch e Daniela Belmiro, idealizou e criou o blog “3DEVI”, um espaço para contos, ensaios e reflexões da mulher contemporânea.

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