As múltiplas dimensões do Conhecimento e a quebra de paradigmas

A Base Nacional Comum Curricular (BNCC) coloca o “Conhecimento” como uma entre dez competências gerais para serem desenvolvidas em estudantes da Educação Básica. Essa questão gera mudanças na realidade das escolas, afinal, o Conhecimento não deve ser mais um fim, mas sim um dos meios de desenvolver estudantes integrais.

O que diz a BNCC sobre o Conhecimento:

“Valorizar e utilizar os conhecimentos historicamente construídos sobre o mundo físico, social, cultural e digital para entender e explicar a realidade, continuar aprendendo e colaborar para a construção de uma sociedade justa, democrática e inclusiva.”

A primeira das 10 competências gerais contidas na Base é Conhecimento. O termo, por si só, pode proporcionar familiaridade e transmitir a ideia de que sua implementação é fácil, uma vez que tradicionalmente as escolas já cumprem a função social de desenvolver conhecimento em seus estudantes. No entanto, é preciso atentar-se para algumas especificidades e mudanças de visão ou abordagem quando a competência é apresentada no documento.

Para começar, devemos sempre resgatar a definição de competência que encontramos em seu texto de apresentação: 

“Mobilização de conhecimentos (conceitos e procedimentos), habilidades (práticas cognitivas e socioemocionais), atitudes e valores para resolver demandas complexas da vida cotidiana, do pleno exercício da cidadania e do mundo do trabalho” (Fonte: Base Nacional Comum Curricular – Ministério da Educação).

Nesse sentido, quando a Base declara ser essencial garantir aos estudantes da educação básica o desenvolvimento da competência Conhecimento, ela convida as escolas a realizarem uma reflexão sobre como o conhecimento é desenvolvido não apenas em seu âmbito intelectual, mas também nas esferas social, física, emocional e cultural, dimensões essenciais para garantir o desenvolvimento de uma educação integral.

Na prática, é preciso sempre pensar na seguinte questão: Como meus estudantes usam o conhecimento para construir seu projeto de vida? Ou seja, o foco não está mais naquilo que meu estudante aprende, mas em como ele usa esse conhecimento desenvolvido para dar conta das demandas do seu dia a dia.

Analisando mais a fundo a descrição dessa competência, podemos nos perguntar: Como mensurar se meus estudantes serão capazes de “colaborar para a construção de uma sociedade justa, democrática e inclusiva”? O material elaborado pela revista Nova Escola, em parceria com a Fundação Lemann, traz algumas etapas importantes para que possamos compreender o que exatamente os estudantes devem ser capazes de realizar ao final da educação básica, dando maior clareza sobre o desenvolvimento dessa competência.

  1. Busca pela informação: é importante que o estudante saiba buscar e avaliar a pertinência e a confiabilidade de fontes diversas enquanto acessa informações para resolver problemas. É preciso que neste processo sejam desenvolvidos conceitos como o do “direito da propriedade intelectual” e o do “direito à privacidade” utilizando-as de forma ética.
  1. Aplicação do conhecimento: ao aplicar um conceito, espera-se que o estudante seja capaz de “fazer conexões, atribuir significados e organizar os conhecimentos adquiridos”. Aqui a autonomia e o autoconhecimento do estudante ganham luz quando ele é provocado a desenvolver e adotar estratégias para reter informações adquiridas, utilizando seu conhecimento sobre elas para desenvolver problemas complexos.
  1. Aprendizagem ao longo da vida: damos um passo além do “aprender a aprender” quando o estudante não apenas demonstra motivação em continuar aprendendo, mas também colabora para a aprendizagem dos colegas, compreendendo a importância do conhecimento adquirido para a tomada de decisões na vida cotidiana.
  1. Metacognição: o(a) estudante deve dominar seu processo cognitivo, refletindo sempre sobre o que, como e por que aprender. Dessa forma, ele(a) se torna protagonista em seu processo de aprendizagem estabelecendo diferentes estratégias para desenvolver seu próprio aprendizado.
  1. Contextualização sociocultural do conhecimento: para valorizar o conhecimento construído ao longo da História é preciso compreender e respeitar o contexto sociocultural em que cada saber foi constituído. A ideia da construção coletiva de saberes impulsiona essa valorização ao possibilitar uma aproximação com a cultura de origem deste conhecimento, bem como oportuniza aos estudantes vivẽncias no processo dessa construção coletiva.
e-book 10 competências gerais da BNCC - geekie one

À luz da proposta apresentada, o grande objetivo no desenvolvimento desta competência não é mais o de “absorver conhecimentos” desenvolvidos ao longo da História, até mesmo porque sabemos que o conhecimento sem ação (aplicabilidade) não gera mudanças, nem novos conhecimentos. 

É possível notar, na proposta da BNCC e nos debates que esse documento gerou em congressos e eventos, que as escolas estão passando por uma mudança de paradigmas (também) no que concerne ao Conhecimento. Se antes a memorização de datas, fórmulas e estruturas moleculares era suficiente para a conclusão da educação básica e para o acesso ao ensino superior, hoje o cenário está mudando. 

Como apontado, o Conhecimento, agora, é uma das dez competências que devem compor a formação integral do estudante. Isso provoca uma revolução na forma como as tradicionais aulas expositivas eram (e ainda são) prioritárias no processo de aprendizagem. Para estudantes, não basta mais apenas ouvir e copiar o conteúdo passivamente. Eles e elas precisam de mais que isso para manter o engajamento e o interesse ao longo dos anos da formação básica. Cabe, portanto, uma revisão das prioridades e estratégias didáticas de professores e professoras para atender a essas novas demandas (de estudantes e da BNCC). Desse modo, portanto, podemos contribuir para que nossos e nossas estudantes desenvolvam autonomia em seu processo de aprendizagem e criem bases sólidas para galgar o tão sonhado protagonismo estudantil.

* Juliana Magalhães é bacharel e licenciada em História pelas Faculdades Metropolitanas Unidas e mestranda em Educação pela Funiber com o tema “O uso de TIC’s na Formação de Professores”. Atuou como professora de História para turmas de Ensino Fundamental II e Médio durante 10 anos. Depois da experiência em sala, passou a trabalhar com a formação de professores. Hoje é consultora pedagógica na Geekie.

Leia mais artigos relacionados às competências gerais da BNCC:

Compartilhe
Compartilhar no facebook
Compartilhar no twitter
Compartilhar no linkedin
Compartilhar no pinterest
Bitnami