Entre máscaras e megafones: o quanto não pensamos em comunicação no dia a dia

A Comunicação, uma competência fundamental da BNCC para a educação e a vida, não tem, muitas vezes, a reflexão necessária para diálogos e processos comunicacionais claros e efetivos. Fundamental para todos os atores da comunidade escolar, a comunicação pode ser pensada a partir do uso de máscaras e encenações.

Sempre que ouvia a exclamação de Sherlock Holmes “É elementar, meu caro Watson!”, eu ficava com alguns questionamentos pendentes. O personagem que consagrou o autor inglês Arthur Conan Doyle e inaugurou o gênero policial na literatura tinha sua lógica própria de pensar e agir – encarada por alguns como muito excêntrica. Portanto, o que seria elementar para Sherlock também o seria para Watson? Hoje ouvimos, aqui e ali, a expressão “É óbvio!”. Mas o que seria óbvio para mim também o é para você? Quando falamos de comunicação, algo é elementar ou obvio?

Nem tudo é óbvio, muito menos elementar; logo, é necessário que qualquer pessoa que comunique uma mensagem deixe-a clara o suficiente e livre de ruídos para que ela cumpra com os propósitos necessários. Essa, contudo, não é uma tarefa fácil. Caso eu, como autor, estabeleça um diálogo com alguém que nunca tenha lido nenhuma das obras de Doyle ou assistido a nenhum filme do famoso detetive Sherlock Holmes, minhas referências serão falhas e apenas servirão para ocupar espaço neste e-book. Por outro lado, caso meu interlocutor ou minha interlocutora seja vidrado ou vidrada em romances policiais e conheça todas as histórias desse excêntrico investigador, é possível que eu receba um e-mail com críticas às minhas definições das obras do autor britânico. Aliás, o termo “vidrado” ainda é usado? Foi possível entender que eu quis dizer que a pessoa é fascinada ou fã? Não precisamos recorrer a muitos outros exemplos para saber que isso acontece no dia a dia das escolas: os e as estudantes de hoje têm referências que muitos educadores, educadoras e todos os atores da comunidade escolar não entendem muito bem. 

Essas mesmas questões ocorrem em todo e qualquer ato de comunicação. Não é sem motivo que Patrick Charadeau afirma que a comunicação é um ato de encenação. Por um lado, essa definição nos força a pensar em uma peça de teatro: todas as falas são encenadas de acordo com um roteiro bem definido. Há personagens que criam vínculos entre si e com a plateia em dado momento da peça; a história é contada conforme o previsto; as cortinas se fecham; a equipe vem às luzes da ribalta, agradece e se despede. Nos próximos dias da turnê, tudo se repete exatamente como ensaiado e com poucos imprevistos.

A vida real, no entanto, não tem roteiro. Não temos falas escritas por algum gênio da dramaturgia, e muito menos o suporte de um diretor, para nos orientar a como reagir, nos mostrar para onde olhar. “Isso é óbvio, certo?”, você poderia indagar agora. Ouso responder: “Sim e não”. Não há verdades absolutas aqui. Embora não tenhamos conhecimento profundo sobre tudo e todos, ter a comunicação como competência é essencial para uma convivência saudável em sociedade. Isso pode até parecer difícil, mas não é.

Muito além do emissor e do destinatário

Quando lemos algo sobre comunicação, invariavelmente nos deparamos com o diagrama que diz que a comunicação é feita por um emissor, que escolhe a mensagem e o meio pelo qual irá transmitir sua ideia até chegar a um interlocutor ou destinatário. É a boa e velha carta enviada pelo correio com remetente, mensagem, destinatário; ou o e-mail, o áudio de WhatsApp, o comentário em uma foto no Instagram, o noticiário do horário nobre da televisão. Todos os atores de comunicação podem ser encarados neste esquema simples, mas não deveriam.

Charadeau ao afirmar, em “Linguagem e discurso”, que todo ato de comunicação é uma encenação, chama atenção para a complexidade que está por trás daquele simples esquema que já apontamos. Voltemos à alusão ao teatro: elencamos acima uma rotina simplificada de uma encenação. Ela é simplificada porque deixou de fora inúmeros outros recursos que compõem um contexto muito mais amplo do ato de comunicação que é realizado em cima de um palco. Não falamos das luzes, da maquiagem, do figurino, do cenário e da trilha sonora. Todo e qualquer componente que é adicionado à encenação passa a fazer parte dela e ajuda a contar a história. Logo, todo e qualquer componente adicionado (com ou sem intenção) à comunicação faz parte dela e ajuda (ou não) a garantir seus objetivos.

Assim, Charadeau defende que, ao nos comunicarmos, usamos uma série de recursos – de forma intencional ou não –, que podem contribuir para o sucesso ou a falha desse ato. O principal e mais relevante recurso da teoria desse linguista é a máscara social. Ela é a parte visível desse processo: esse texto, o rosto do jornalista, a voz do radialista, a professora ou o diretor pedagógico da sua escola. A parte invisível (e muitas vezes inacessível) ocorre no interior de cada indivíduo, no EU-comunicante, como define o teórico. No momento em que escrevo este texto, tenho em minha cabeça todas as intenções que gostaria de produzir em você, leitor ou leitora: quero destacar a importância da comunicação como uma competência, por exemplo. Essa mensagem, ainda em construção mental, é influenciada por toda a minha trajetória profissional, pessoal, acadêmica e emocional. Os cursos que fiz, as experiências que tive, os livros que li, as conversas que mantive com toda e qualquer pessoa que cruzou meu caminho fazem parte de meu contexto pessoal, social e histórico, que é único e particular. 

Já a forma como transmito essa necessidade de mensagem é onde a máscara entra em ação, e o EU-enunciador dá cara, voz, expressão e vida à estratégia de comunicação estabelecida pelo EU-comunicante. Esse texto; o tom que uso em minha comunicação; os recursos audiovisuais que suportam minha mensagem; a escolha de palavras e exemplos. Para além deste artigo, seriam os gestos que faço com o corpo ou as expressões faciais durante uma aula; a seleção de mensagens que vão ou não ser comunicadas; a composição de um exercício ou de uma atividade avaliativa. 

e-book 10 competências gerais da BNCC - geekie one

O que toda mãe sabe

Contudo, mesmo que se tenha a consciência de todos esses pontos, ao iniciar um ato de comunicação, muitas vezes as regras do jogo podem estar determinadas, mas nunca garantirão o placar final. Profissionais de comunicação mais experientes e toda mãe sabe: a forma como você transmite uma informação precisa ser coerente com o efeito que sua mensagem deve causar. Exemplos: minha sobrinha de dois anos falou um palavrão; adianta minha cunhada repreendê-la enquanto chora de rir? Uma jornalista vai anunciar a prisão de uma senhora que traficava 10 mil tabletes de ecstasy e cai na risada ao esclarecer que o namorado da idosa sabia da existência das pílulas, mas achava que eram remédios para impotência sexual. Qual é a credibilidade da repreensão ou da transmissão da notícia se o tom da comunicação não corresponde à seriedade da mensagem?

Além de considerar os fatores acima elencados, é preciso, ainda, considerar as duas dimensões correspondentes em nosso interlocutor. Afinal, posso planejar uma experiência de aprendizagem perfeita, mas o que garante que ela sozinha garantirá que meus estudantes consigam atingir 100% dos objetivos propostos? Se não considerarmos o repertório pessoal, social e histórico de nosso interlocutor, a mensagem jamais será assimilada da forma como intencionamos. Posso até estimar o leitor ou a leitora ideal para este texto, porém, se ela não conhecer Sherlock Holmes ou nunca assistiu ao vídeo da jornalista Lilian Witte Fibe rindo ao ler notícia sobre o casal de idosos que traficava drogas, minha mensagem será 100% compreendida? Posso dar como garantido que ao final dessa leitura meu interlocutor ou minha interlocutora vá conceder à comunicação a importância que eu gostaria?

Assim como o EU-comunicante e o EU-enunciador, é preciso também considerar que o nosso interlocutor tem uma máscara (do TU-destinatário, como define Charadeau), que reage e recebe a mensagem; e uma face que a interpreta com base em todo o seu contexto social e histórico (o TU-interpretante). 

Para além de todas as terminologias do linguista francês, a mensagem essencial de sua teoria é a de que o processo de comunicação é muito mais complexo do que imaginamos. Para que uma mensagem seja bem elaborada e cumpra com todo o propósito conferido pelo seu emissor, este deve considerar inúmeras facetas desse processo. No entanto, isso é algo que não estamos acostumados a fazer no dia a dia. Afinal, nos comunicamos desde crianças, mas, em anos de vida, poucas pessoas param para pensar na forma como praticam essa competência tão fundamental. Sem essas considerações estamos sujeitos a acreditar em falácias, a ser manipulados facilmente e, mais grave ainda, a propagar informações e conceitos de forma errônea, contribuindo para um ambiente no qual a segurança não é garantida para ninguém e em que decisões são tomadas com base em mentiras ou em informações incompletas.

Sendo assim, quando a BNCC estipula a comunicação como uma das dez competências que formarão os estudantes dessa geração, ela possibilita que mensagens sinceras e claras sejam predominantes em um mundo de desinformação e fake news. Ter clareza sobre como utilizar linguagens verbais, corporais, visuais, sonoras e digitais é, no fundo, entender as facetas que envolvem todo e qualquer processo de comunicação. Das artes às ciências, as mensagens estão sempre embasadas nos contextos pessoais, históricos e sociais dos indivíduos que se dispõem a comunicar algo a alguém. Em algumas áreas isso ocorre de forma mais subjetiva, como nas artes, por exemplo, com as várias interpretações possíveis às obras de Cândido Portinari ou de Mário de Andrade; já em outras isso ocorre de forma mais estruturada e objetiva, como nas ciências e na matemática, áreas nas quais o conhecimento é construído a partir de hipóteses e comprovações. 

A despeito de qualquer conteúdo, comunicar-se é inerente ao ser humano, mas saber se comunicar é um exercício que deve ser praticado dia após dia. E esta não é uma tarefa única de professores e professoras: ela é essencial para todos os atores da comunidade escolar, inclusive as famílias, para os profissionais de todas e quaisquer áreas e para todo indivíduo que se relaciona com outros. A comunicação, quando bem estruturada, evita conflitos, retrabalhos, desentendimentos, e, ao mesmo tempo, garante um ambiente de paz e compreensão mútua para todos que dela fazem parte.

“É elementar?”

Alex Contin é editor de conteúdo do InfoGeekie. Jornalista, bacharel em Ciências Econômicas (Unicamp) e mestre em Divulgação Científica e Cultural pelo Laboratório de Estudos Avançados em Jornalismo (Labjor/Unicamp). Possui experiência em produção de material didático para o Ensino Superior e é apaixonado por comunicação e educação. Em 2017 iniciou a graduação em Letras na Universidade de São Paulo, e atualmente se dedica ao estudo das relações entre educação, mídia e economia.

Compartilhe
Compartilhar no facebook
Compartilhar no twitter
Compartilhar no linkedin
Compartilhar no pinterest
Bitnami