Avaliar competências e habilidades requer mudança de mentalidade

Formas inovadoras de avaliação para acompanhar o desenvolvimento das competências e habilidades da Base Nacional Comum Curricular (BNCC) exigem uma mudança de postura de educadores.

Durante três semanas os estudantes aprendem, nas aulas de Literatura de um modelo tradicional de Educação, quais são os antecedentes da Semana de Arte Moderna de 1922; quais eram as características das obras de Mário de Andrade, Oswald de Andrade, Tarsila do Amaral e Lasar Segal; e o porquê desses autores e artistas plásticos vanguardistas serem os precursores e os expoentes do movimento.

Depois de várias aulas expositivas, chega o momento de o professor, que pouco abria espaço para as perguntas e dúvidas dos estudantes, aplicar uma prova escrita ou receber uma resenha que compare o poema de um dos autores com as obras de Tarsila.

Ao corrigir as respostas e o trabalho, o educador se dá conta de que várias delas têm frases e explicações construídas exatamente da mesma forma como o conteúdo fora explicado. Talvez até as analogias entre o Abaporu, de Tarsila, e algum poema de Oswald sejam exatamente as mesmas.

Qual é a nota desse estudante que reproduziu todo o conteúdo da aula? E o que ele ou ela realmente aprendeu?

Embora as provas escritas tenham sua importância, as atividades avaliativas, como aquela da aula de Literatura acima, não precisam se limitar a um modelo tradicional. Além disso, com a Base Nacional Comum Curricular (BNCC), o “valorizar e utilizar os conhecimentos historicamente construídos” é uma entre dez competências gerais e também não é a única a ser trabalhada ao longo de uma aula de Português, por exemplo. “Pensamento crítico”, “Autoconhecimento e Autocuidado”, “Repertório cultural” e até “Empatia e Cooperação” são outras competências que podem ser trabalhadas ao longo da aula e exigem novas formas de avaliação. Essa mudança, contudo, exige uma mudança de mentalidade e de postura do educador.

Os perigos da comodidade

Angélica Larcher, coordenadora do Colégio Internacional EMECE, diz que o estudante, em um ambiente de ensino tradicional, fica em uma situação confortável:

“Eles sempre foram cobrados por uma figura, que é o professor, que é aquele mestre que tem uma sabedoria incrível enquanto as crianças não sabem nada. Olha que confortável para essa criança ter um questionário, com todas as respostas. Ela memoriza aquelas respostas porque ele tem uma certeza: isso que está no papel é o que o professor quer escutar e eu só quero falar o que o professor quer escutar”, critica Angélica.

O cenário traçado por Angélica conversa diretamente com uma época em que a memorização dos estudantes era uma das poucas competências valorizadas no ambiente escolar. Se um estudante consegue memorizar todas as respostas de um gabarito e replicar essas respostas na prova, sua nota estaria garantida. Embora ainda hoje a memorização tenha seu papel em um contexto de ensino e aprendizagem, é preciso reconhecer que há outras competências essenciais que precisam ser desenvolvidas, conforme ressalta Glauci Oliveira, designer pedagógica da Geekie.

“Fazia sentido, antigamente, reconhecer um indivíduo que conseguia, por exemplo, memorizar, porque a gente não tinha todas as ferramentas de hoje, como uma pesquisa do Google. Mas, a sociedade mudou e agora a informação está mais acessível. Não precisamos mais de pessoas com quantidades enormes de informação na memória. É preciso olhar para o indivíduo e enxergar que ele ou ela é um conjunto de inteligências e não podemos avaliar só uma das suas competências”, explica Glauci.

Mudança de mentalidade

Memorização de respostas e um lugar confortável para os estudantes são reflexos de um modelo tradicional de Educação. No século XXI, com novas demandas do cotidiano pessoal e profissional, estudantes devem ser formados de maneira integral, como coloca a BNCC. Para que isso aconteça, no entanto, o educador precisa enxergar o processo de ensino e aprendizagem com um novo olhar e mudar sua postura para promover um diálogo mais aberto com os estudantes.

Essa foi a mensagem principal do bate-papo online “Novas formas de avaliação para um novo contexto escolar”. A conversa promovida pela Geekie contou com a participação da coordenadora Angélica e da designer pedagógica Glauci, com a mediação da consultora pedagógica da Geekie, Marcela Lorenzoni.

A questão da mudança de mentalidade dos educadores se tornou mais forte na conversa quando as participantes trataram do que é uma rubrica. Como uma forma de avaliação, a rubrica se adequa às atividades avaliativas do desenvolvimento de competências e habilidades. Porém, ela exige uma postura diferenciada do educador que precisa estabelecer e compartilhar com seus estudantes quais são as expectativas de aprendizagem com cada atividade.

Leia mais sobre rubrica: “Novas competências pedem novas formas de avaliação”

Se antes o aluno memorizava para entregar ao educador exatamente o que ele queria ler e ouvir, com o novo cenário o aluno ou a aluna deve saber, desde o início, o que ele precisa desenvolver para cumprir com as expectativas do educador. Angélica exemplifica: “O estudante passa a questionar: ‘O que eu preciso dar para a professora, para que ela me avalie como um bom aluno?’ É aí que as rubricas entram para contar para o estudante o que o educador espera dele. “Eu espero isso de você, não espero mais, mas se você me der mais é ótimo; mas eu não espero menos e se você me der menos, a gente vai trabalhar mais para chegar onde eu espero”.

A coordenadora também ressalta que essas expectativas fazem parte da vida pessoal e profissional do adulto:

“Nós precisamos saber o que os outros esperam no trabalho, no relacionamento, na feira, só que a gente não conta para nossos alunos o que esperamos deles. Então, quando temos essa escola um pouco mais tradicional, ela é confortável. A gente esqueceu de dizer para os alunos o que a gente espera porque também entra aí um momento no qual o professor vai manter o poder sobre a sala; então a prova é mais difícil do que aquilo o que eu dei porque você não sabe o que eu quero. Isso é desleal.”

Se antes o educador aplicava uma prova escrita ou um seminário e só então apresentava a nota, agora, uma nova forma é deixar todas as regras do jogo claras antes de começar o processo avaliativo.

Quer saber mais sobre como foi o bate-papo entre a Angélica Larches, Glauci Oliveira e Marcela Lorenzoni? Então assista a ele, aqui:

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