Autoconhecimento: 5 conceitos para desenvolver na escola

”Conhecer-se, apreciar-se e cuidar de sua saúde física e emocional, compreendendo-se na diversidade humana e reconhecendo suas emoções e as dos outros, com autocrítica e capacidade para lidar com elas.” Esta é uma das competências gerais da Base Nacional Comum Curricular (BNCC). Um dos caminhos para o desenvolvimento dela é estimular estudantes a se conhecerem para entender o meio social em que vivem e seu papel também no meio ambiente.

Quem sou eu? Esta é uma pergunta que todos nós já fizemos ou provavelmente faremos em algum momento de nossas vidas. Apesar de não existir uma resposta final, o desafio de conhecer a si mesmo, no que podemos definir como autoconhecimento, estimulou a busca por respostas nas mais diferentes tradições e correntes de pensamento pelo mundo, passando por áreas como a filosofia, a religião e a psicologia. 

No que se refere às recentes discussões no campo da educação, a Base Nacional Comum Curricular (BNCC) apresenta na sua oitava competência a importância do autoconhecimento e do autocuidado como formas de o estudante conhecer a si mesmo, compreender o seu papel na diversidade humana e na relação com o meio ambiente. Diante desse desafio, escolhemos três eixos dessa competência para abordar neste texto: a consciência pessoal, a consciência social e a consciência ambiental

Saúde é uma questão holística e não apenas física

O primeiro deles está ligado ao autoconhecimento e ao autocuidado pessoal, dada a importância de incentivarmos nas crianças e nos adolescentes o cuidado com a saúde. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), saúde não se restringe à simples ausência de enfermidades, mas diz respeito a “um estado de completo bem-estar físico, mental e social”. 

A verdadeira saúde, como propõe a OMS, está relacionada a uma compreensão holística, ou seja, que entende o ser humano em sua totalidade e globalidade, não separando os componentes físico, mental e emocional. A palavra “holístico” foi criada a partir do termo holos, que em grego significa “todo” ou “inteiro”. Em outras palavras, não basta apenas alcançarmos a saúde física, sem o equilíbrio no que se refere às emoções e às relações sociais. 

Nas últimas décadas, tem crescido a preocupação com doenças e transtornos mentais. E isso nunca foi tão importante, já que, de acordo com as previsões da OMS, a depressão será a doença mais incapacitante do planeta até 2020. No Brasil, há dados que corroboram essa preocupação: temos cerca de 6% da população com diagnósticos de depressão, um total de 11,5 milhões de pessoas, sem contar o progressivo aumento dos casos de transtornos de ansiedade e síndrome do pânico. 

Esses transtornos têm afetado em especial as crianças e os jovens. Sobre isso, Daniel Goleman, autor da teoria da inteligência emocional, faz um alerta: “Dados mostram uma espécie de epidemia moderna de depressão, que se espalha de mãos dadas com a adoção, em todo o mundo, de modos modernos. […] E esses episódios estão começando cada vez mais cedo. A depressão na infância, antes praticamente desconhecida, surge como um dado do panorama moderno” (GOLEMAN, 2012, p. 258). 

E como as escolas têm lidado com a questão da saúde mental? Este é um tema recorrente em debates, discussões e práticas escolares ou ainda representa um tabu como em grande parte da sociedade? Como podemos trabalhar com nossos e nossas estudantes a saúde mental e emocional no ambiente escolar?

O Coeficiente Emocional (QE) e o Espiritual (QS): a importância do refletir sobre si mesmo

Ainda de acordo com Goleman (2012), todos nós possuímos e podemos desenvolver a capacidade de lidar com emoções e sentimentos que afetam não apenas nossa vida social, mas a própria saúde física. Sua teoria exerceu uma forte influência sobre os campos da neurociência e da psicologia, chegando também na área educacional. 

A inteligência emocional nos permite julgar a situação em que nos encontramos, e nos comportar apropriadamente dentro dos limites da situação, ao mesmo tempo que aprendemos a respeitar e ser empáticos sobre as emoções dos outros. Para Goleman, cinco aptidões são fundamentais como forma de desenvolver o coeficiente emocional (QE) e devem ser incentivadas no ambiente escolar para um processo de autoconhecimento. São elas: conhecer suas próprias emoções, lidar com as emoções, motivar-se, reconhecer emoções nos outros e lidar com relacionamentos.

Recentemente, surgiu uma nova teoria bem interessante que fala sobre o coeficiente espiritual (QS), uma perspectiva sobre a inteligência humana que vem se juntar às noções de coeficiente de inteligência (QI) e de coeficiente emocional (QE). Para a Danah Zohar, autora do livro QS: Inteligência espiritual e pesquisadora da Universidade de Oxford, essa inteligência torna as pessoas mais criativas e se manifesta na necessidade de encontrar um sentido e propósito para a vida. 

É essa inteligência que utilizamos para desenvolver valores éticos e crenças que vão nortear nossas ações todos os dias. O incentivo dessa inteligência permite ao ser humano ter a capacidade de encarar e utilizar os momentos de adversidade. Significa que este(a) indivíduo é capaz de colocar as coisas em um contexto mais amplo e desenvolver seu interesse pela busca sobre autoconhecimento. 

Estimular o desenvolvimento dessa consciência pessoal na educação básica permitirá a formação de gerações que optem por hábitos saudáveis. Entretanto, não basta apenas se conhecer melhor e saber lidar com os próprios pensamentos e emoções. Ainda há outras esferas que é necessário incluir nesta reflexão e que você precisa saber.

Consciência social: o indivíduo no seu meio

Autoconhecimento e autocuidado também estão vinculados a uma segunda esfera fundamental, a da consciência social. Uma das principais preocupações de gestores(as) e coordenadores(as) atualmente diz respeito aos casos de bullying. De acordo com dados do Ministério da Educação (MEC), 69,7% dos estudantes já presenciaram alguma situação de violência dentro da escola. 

Quando falamos dos(as) docentes, os números são ainda maiores, com mais de 70% afirmando que já passaram por ou presenciaram alguma situação de bullying. Incentivar o respeito a si mesmo pode ser um caminho promissor para que estudantes aprendam a ter respeito pelo próximo, por meio da empatia e da compaixão.

Um importante conceito sobre isso é o da inteligência interpessoal, desenvolvido por Howard Gardner (1993), criador da teoria das múltiplas inteligências (lógico matemática, linguística, musical, espacial, corporal-cinestésica, intrapessoal, naturalista, existencial e interpessoal). 

Para Gardner (1993, pág. 9), “Inteligência interpessoal é a capacidade de compreender outras pessoas: o que as motiva, como trabalham, como trabalhar cooperativamente com elas. As pessoas que trabalham com vendas, políticos, professores, clínicos e líderes religiosos bem-sucedidos provavelmente são todos indivíduos com alto grau de inteligência interpessoal”. 

O outro aspecto que podemos destacar, do ponto de vista da consciência social, se refere à capacidade de compreensão do papel do indivíduo na diversidade humana, constituindo aquilo que podemos definir como processos identitários. A escola tem um aspecto fundamental nesse processo, ao proporcionar ao estudante as ferramentas e os insumos que o permitam entender como as relações são constituídas desde o micro (família, escola, bairro) até o macro (cidade, país, mundo), assim como a capacidade de intervir e de modificar essas relações. 

Em uma época marcada pela transitoriedade, conhecer-se socialmente permite ao estudante tornar-se autor de sua própria história, desenvolvendo seu protagonismo na construção de sua identidade social (SILVA, 2009). 

Consciência ambiental: o estudante e a natureza

Por último, mas de modo não menos importante, estão o autoconhecimento e o autocuidado com a natureza, no que podemos definir como consciência ambiental. Atualmente, a destruição do meio ambiente caminha a passos largos gerando novos desafios de preservação para as gerações futuras. Compreender a nossa função no cuidado com o meio ambiente é imprescindível para tomarmos decisões responsáveis e éticas que garantam a permanência e a integridade da vida na Terra. 

De acordo com Leonardo Boff (2018) devemos entender que a Terra se comporta como um “super-organismo vivo, autorregulado, combinando os fatores físico-químicos e ecológicos de forma tão sutil e articulada que sempre mantém e reproduz a vida”. Nesse sentido, o conceito de sustentabilidade está diretamente vinculado a essa consciência ambiental. 

Para Boff (2018): “Sustentabilidade é toda ação destinada a manter as condições energéticas, informacionais, físico-químicas que sustentam todos os seres, especialmente a Terra viva, a comunidade de vida e a vida humana, visando à sua continuidade e ainda objetivando atender às necessidades da geração presente e das futuras de tal forma que o capital natural seja mantido e enriquecido em sua capacidade de regeneração, reprodução e coevolução.” 

Ao estimular essa percepção da consciência ambiental e da responsabilidade humana nas escolas, as ações de cuidado com o meio ambiente tornam-se parte da formação dos estudantes levando adiante medidas que garantam, em última instância, a preservação da vida humana e da própria Terra. Conhecer-se é também fazer escolhas éticas para esta e para as futuras gerações.

Afinal, parece que a famosa sentença “Conhece-te a ti mesmo”, escrita no Templo de Apolo em Delfos, na Grécia, nunca foi tão pertinente como nos dias de hoje. O autoconhecimento pode, junto do autocuidado, fazer parte de um possível caminho para uma vida mais saudável e eticamente responsável, pois não basta pensarmos em avanços educacionais e tecnológicos sem conhecermos o que é essencial: o ser humano. Por isso, é imprescindível construirmos práticas pedagógicas que estimulem o desenvolvimento dessas competências no dia a dia em nossas escolas.

Leia esse e outros artigos relacionados às competetências gerais da BNCC no e-book abaixo:

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https://materiais.geekie.com.br/ebook-competencias-bncc

Referências

BATES, Tony. Educar na era digital: design, ensino e aprendizagem. São Paulo: Artesanato digital, 2016.
BOFF, Leonardo. Como cuidar da Casa Comum. São Paulo: Vozes, 2018.
GARDNER, Howard. Multiple intelligences: The Theory in Practice. New York: Basic Books, 1993.
GOLEMAN, Daniel. Inteligência emocional: a teoria revolucionária que redefine o que é ser inteligente. 2ª edição. Rio de Janeiro: Objetiva, 2012.
SILVA, Tomaz Tadeu da. Documentos de identidade: uma introdução às teorias do currículo. 3ª edição. Belo Horizonte: Autêntica, 2009.
ZOHAR, Danah. QS: Inteligência espiritual. 1ª edição. São Paulo: Editora Viva Livros, 2018.

Notas

[1] Jornal Estadão. Disponível em: Depressão será a doença mental mais incapacitante do mundo até 2020 acesso em 11 de junho de 2019
[2] Ministério da Educação. Disponível em: MEC apoia enfrentamento ao bullying e violência nas escolas. Acesso em: 11 jun. 2019. 
[3]  BOFF, Leonardo. Disponível em: Semana no meio-ambiente: garantir o futuro da vida e da Terra. Acesso em: 11 jun. 2019.
[4] BOFF, Leonardo. Disponível em : Sustentabilidade: tentativa de definição. Acesso em: 11 jun, 2019.

* Paulo Bitencourt é designer pedagógico na Geekie. Professor de História há mais de 12 anos trabalhando com pré-vestibular, Ensino Médio e Fundamental II. Formado em História na UFRJ com mestrado em Educação na mesma instituição. Realizou pesquisas nas áreas do ensino de História e da História da Educação.

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