Argumentação: dar voz a quem geralmente é só ouvinte em sala de aula

Segundo a Base Nacional Comum Curricular (BNCC), estudantes precisam desenvolver a competência de “Argumentar com base em fatos, dados e informações confiáveis, para formular, negociar e defender ideias, pontos de vista e decisões comuns que respeitem e promovam os direitos humanos, a consciência socioambiental e o consumo responsável em âmbito local, regional e global, com posicionamento ético em relação ao cuidado de si mesmo, dos outros e do planeta”.

Quando eu era criança, era muito comum minha mãe apresentar um alimento novo e diferente, tentando me convencer de que era gostoso. Como a maioria das crianças, minha reação natural consistia em simplesmente dizer que não gostava. “Mas você nem provou”, ela dizia, e ainda assim eu insistia, muitas vezes, em não querer experimentar esse alimento. Certa vez, quando eu estava doente, ela veio com conhecimento popular e me deu chá de casca de laranja. Sem fugir à regra, eu disse que não gostava, mas ela argumentou que eu precisava me fortalecer; encarei aquilo como remédio e bebi.

Se você estava esperando eu dizer que gostei, lamento desapontar você: eu odiei. Para minha tristeza, o chá fez o efeito esperado e, até hoje, encaro esse líquido horripilante como remédio. O que não posso negar, entretanto, é que funciona. Havia um abismo entre eu dizer que não gosto de algo e experimentar esse algo. Esse abismo também estava na fala da minha mãe entre dizer que eu ia gostar do bendito chá e o efeito esperado. Esse precipício era a argumentação adequada a cada situação.

Convencer outra pessoa sobre o que quer que seja é um processo que demanda uma comprovação confiável. É indispensável ter algo em que se basear, como fatos, dados ou informações de credibilidade. No meu caso, o abismo de convencer minha mãe de que eu não gostava do chá precisava passar pelo fato de eu bebê-lo; da mesma forma que o abismo de ela me convencer passava por me apresentar dados de que ele funcionava. Isso não precisou acontecer porque ela é minha mãe e a palavra dela já apresenta a confiabilidade necessária.

Argumentação em sala de aula: fatores para desenvolver a competência da BNCC

Não é fácil conseguir confiança naquilo que se diz ou se faz. Por isso, fontes fidedignas ou fatos e dados comprovados funcionam muito melhor do que o simples acreditar em alguém que nos diz algo. Quando levamos essa linha de raciocínio para o ambiente escolar, é comum e clássico dizer que professores e professoras detêm essa confiança e que sua palavra é lei (como a minha mãe comigo), afinal, professores têm a responsabilidade de repassar seus conhecimentos adquiridos. Mas e quanto aos estudantes? Como fica o processo argumentativo no caminho inverso? A palavra de estudantes também é lei para docentes? Se não é, deveria ser?

Quando a BNCC indica a argumentação como uma das competências gerais a serem desenvolvidas em estudantes, ela instiga ainda mais a necessidade de dar voz a quem geralmente é visto como ouvinte. Colocar estudantes no centro do processo de aprendizagem passa por encontrar formas para que cada pessoa da sala possa expor seus conhecimentos adquiridos ou em fase de aquisição, de maneira que sua palavra também possa ser inquestionável, inclusive e principalmente para si.

É mais comum encontrar pessoas afirmando suas opiniões e visões de mundo em diversos âmbitos de interação, principalmente em redes sociais. Ter opiniões não é um problema, muito menos algo que deva ser desconsiderado, especialmente quando se considera que todas as pessoas precisam ter um olhar crítico em relação a muitos assuntos polêmicos. O problema gira em torno do momento em que se apresenta essa opinião e/ou quando se quer convencer outra pessoa de algo.

Responsabilidade sobre a fala de estudantes da educação básica

Os fatos, dados e informações confiáveis unem-se à necessidade de formulá-los em uma linha de raciocínio lógica, que auxilia na necessidade de negociar, defender ideias, pontos de vista e decisões comuns. Fazer isso não é tarefa fácil. Quando se tem certo domínio sobre o tema que se quer defender, a dificuldade é menor, mas e quando o assunto é difícil ou delicado? A pessoa tem duas opções: não se posicionar ou aprender sobre o assunto antes de assumir qualquer postura. Crianças e adolescentes nem sempre têm essa consciência, a qual é responsabilidade de ser desenvolvida em diversos ambientes, inclusive na escola.

Na BNCC, é esperado não somente que essa competência seja desenvolvida, mas também que contribua no sentido de promover e incentivar:

  1. Direitos Humanos: propor soluções para problemas e se colocar de forma objetiva e diretiva passa por não se colocar de maneira agressiva ou prejudicial a outras pessoas. A partir do momento em que há alguém sendo afetado contra sua integridade no que concerne aos direitos inatos de qualquer ser humano por conta de alguma argumentação, esta é falha;
  2. Consciência socioambiental: as limitações dos recursos naturais têm se demonstrado de maneira mais pungente nas últimas décadas, o que levanta à necessidade de diversas iniciativas para preservar a natureza. Argumentar com pontos que venham a ferir esse bem coletivo também é algo falho;
  3. Consumo responsável: o consumo de bens naturais é necessário, mas deve ser feito de maneira responsável, considerando o convívio de todos os seres vivos. Da mesma forma que o anterior, a preservação e o zelo devem ser constantes e abrangentes, não se limitando ao contexto particular, mas, sim, abrangendo o coletivo, por isso a responsabilidade. Argumentar sem considerar isso é falhar.

Esse desafio se expande para as escolas porque, ainda de acordo com a Base, essa competência precisa ser desenvolvida “em âmbito local, regional e global”, o que implica dizer que cada estudante precisa encontrar formas de impactar, por meio de suas propostas com base nos argumentos utilizados bem embasadas, as suas realidades micro e macro. 

Ao longo da vida, encontramos e encontraremos diversas situações em que precisaremos tomar decisões. “Formular, negociar e defender ideias, pontos de vista e decisões comuns”, como diz o texto descritivo da competência da BNCC, faz parte do dia a dia. Mas isso nem sempre é simples e fácil, vide o meu exemplo em relação a não conseguir argumentar com a minha mãe sobre não tomar o chá da casca de laranja.

Se a escola conseguir incorporar algumas rotinas para que estudantes tornem visível seu poder argumentativo, sem dúvida todos desenvolverão essa competência, afinal de contas, quem não gosta de convencer outras pessoas? Com certeza eu teria gostado de convencer minha mãe a não tomar o chá. Pena que eu não tinha (e ainda não tenho) os contra argumentos necessários para convencê-la.


* Érick Nascimento é gerente editorial do Geekie One, formado em Letras pela UFC e tem mestrado em Literatura Comparada pela mesma instituição. Após anos de experiência na sala de aula, na qual atuou desde a Educação Infantil, Ensino Médio e Fundamental, até o Ensino Superior, tornou-se coordenador pedagógico-editorial em um sistema de ensino.

Leia este e outros artigos sobre as competências gerais da BNCC no e-book:

e-book 10 competências gerais da BNCC - geekie one

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