O que aprendi quando parei de ensinar de forma dinâmica

Por Leonardo Freitas*

Passei um certo tempo sem escrever por aqui, pois precisava fazer um pequeno experimento que há tempos me intrigava: como frequentemente uso aulas animadas, Power Point, vídeos, músicas e o Narrador de Exercícios, decidi passar uma semana de maneira radical: eliminei tudo isso e ministrei apenas aulas tradicionais, baseadas no que chamo de “triângulo do tédio” – pincel, quadro e voz.

Adivinhem qual foi o resultado? Apatia total, indisciplina e reclamação. Muita reclamação. E acreditem, ela veio de alunos que eu nem sonhava que pudessem sentir falta de algo em minha aula, ou seja, eu já tinha os atingido há tempos e nem havia percebido! Muito embora este experimento tenha sido proposital, sei que aulas neste formato ocorrem com muita frequência.

Mas não seria verdade dizer que durante este período não houve produção. Houve sim, aprendizado também. Entretanto os alunos sentiram falta da rotina divertida, cativante, e produtiva. De uma semana para a outra, passaram a rotular meu horário como: “aula chata”.

Então, isso quer dizer que devemos agradar 100% meu aluno, da maneira que for possível, num esforço para entretê-lo? Óbvio que não. Mas cá entre nós: ninguém consegue fazer bem algo do qual não goste, muito menos ser feliz com isso. E não pense que não sei o que estou falando: em 16 anos de estrada, apenas há aproximadamente 8 adotei radicalmente a postura de mudar, de planejar e refazer tudo que fosse necessário para tentar atingir a maior quantidade de alunos. Isso dá muito trabalho, mas graças à tecnologia atual, este trabalho pode ser convertido em experiências fantásticas para um professor e suas turminhas.

Me pergunto, por exemplo, para que mandar fichas e mais fichas de resumo quando posso montar slides com clipes de músicas (com direito a legendas subindo, no melhor estilo “créditos”), cenas de filmes legendados, tirinhas, gifs e com o conteúdo em questão. Mais um exemplo? Outro dia, estudando  adjetivos pátrios, abri o Google Earth e eu e meus alunos fomos visitando países e cidades, listando o melhor adjetivo para cada um. Aproveitei para discutirmos diversos assuntos enquanto íamos nomeando os nativos do globo. A aula literalmente voou e até eu aprendi muita coisa, que nem sonhava que existia.

Aulas criativas são um remédio contra indisciplina

Nos primórdios da minha “mudança”, por assim dizer, assisti a uma palestra dada por um P.h.d. A dita cuja foi tão chata que me fez sentir desespero de estar ali. Eu mexia no celular, conversava, desenhava, lia e nada do evento acabar. E é assim que nossos alunos se sentem e muitas vezes isto pode levar a problemas disciplinares, mas soluções criativas, também caem bem neste contexto. Bolei uma maneira criativa e lúdica para tratar estes casos: todos os dias, ao início de cada aula, separo um cantinho do quadro e coloco três temas “surreais”, como por exemplo, “doenças cardíacas em ornitorrincos”, “pratos típicos do Uzbequistão”, “componentes químicos da casca do cacau” e por aí vai. Ao chegar no limiar da paciência, o aluno é convidado carinhosamente a sair para construir um texto sobre esses assuntos, na biblioteca. As vantagens disso? É uma forma suave de retirá-lo de sala, obriga-o a produzir e é uma atividade interdisciplinar, já que posso misturar outros assuntos ao gênero textual em que eu estiver trabalhando. Outra grande vantagem é que até quem é convidado a produzir um texto assim vai em uma boa, sabendo que não está sendo “castigado”, mas sim cumprindo uma sanção por algo que fez, mas que não estava de acordo com as normas.

Talvez os estimados leitores sintam uma suave diferença neste artigo, já que propositalmente evitei citar muitas fórmulas do que seja uma aula “chata” ou não. Este conceito é muito relativo e, como profissional da educação, sei que há milhares de contextos para os quais pode-se aplicar ou não essa denominação de “aula chata”. Trabalhar com gente é difícil! Mas como sempre, fica a sugestão de acima de tudo, não se deixar abater. Vivemos numa era de conhecimento, velocidade, mas muitas vezes o que falta numa aula é apenas afeto, compreensão e disposição.

No fundo, nossos alunos esperam de nós que sejamos alguém que os entenda, escute e conduza-os neste caminho árduo que é a vida. Por muitas vezes, fazemos papel de pais, convivendo e cuidando deles mais até que os próprios genitores. E a nós, o que sobra? Trabalho. Muito mesmo. Eleve-se. Busque ser o que ninguém mais é, e tenha certeza que há maneiras de sobra para fazê-lo. Por fim, nunca se esqueça que a tecnologia está aí. Muitas vezes gratuita, acessível e farta.

Para finalizar esta coluna com um estímulo, queria compartilhar um último relato: ano passado fui convidado a ser padrinho de casamento de um casal de ex-alunos, que foram meus pupilos de 2007 a 2009. Jovens, recém-casados, recém-formados, cheios de sonhos; ele, advogado, ela, famacêutica. Me vi naquele local, com pessoas tão novas e tão obstinadas na vida, me olhando com o carinho de sempre e receio dizer que até com admiração. Ao fim, a noiva veio falar comigo cheia de paixão sobre os planos futuros. Saí de lá renovado. Às vezes, tudo que precisamos na vida é uma injeçãozinha de ânimo, de paixão. Afinal de contas, pior que uma “aula chata”, imagino eu, deve ser uma “vida chata”.

*Leonardo Freitas é graduado em Letras pela Universidade Católica, com especialização em Literatura Brasileira pela Universidade de Brasília. Leciona há exatos 16 anos, e desde pequeno queria ser professor. Já passou por todos os níveis, desde o fundamental I ao superior. Hoje, trabalha com seis turmas de 8º ano em uma escola particular de Brasília.

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